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| Tática defensiva na concepção doutrinária
da Missão Francesa. |
No início do século
XX, os princípios gerais, conceitos, concepções, normas,
métodos e processos que nortearam doutrinariamente a I Guerra Mundial (1914-1918)
exerceram forte influência sobre a doutrina do Exército Brasileiro.
Com a vitória dos franceses, seus ensinamentos foram introduzidos na Força
Terrestre brasileira pela denominada Missão Francesa, que possuía
uma concepção de guerra estritamente defensiva. Essa influência
atuou sobre os três campos básicos da doutrina a organização,
o material e o emprego da Força Terrestre e durou até o início
da década de 40. Em decorrência dos ataques e das ameaças
nazistas ao Brasil, em 1942 o País declarou guerra à Alemanha. Nesse
mesmo ano, constituiu-se uma comissão mista, brasileira e americana, que
influenciou profundamente a doutrina do Exército, o que acarretou o abandono
dos princípios franceses e a adoção do modelo norte-americano.
Organizou-se a Força Expedicionária Brasileira (FEB) que traria,
em seu retorno ao Brasil, os ensinamentos doutrinários obtidos na convivência
com os aliados no teatro de operações italiano. Formou-se, assim,
nesse período, um novo Exército, em organização, meios
materiais e emprego operacional.
Paralelamente às mudanças
doutrinárias, processaram-se as transformações na organização
básica do Exército. Terminada a guerra, foram aprovadas novas estruturação
e articulação da Força e nova lei de quadros e efetivos,
consentânea com as peculiaridades de um Exército eficiente e moderno.
A
Força Terrestre alcançou a década de 60 com uma estrutura
eficaz no atendimento às exigências de um período de tensões
e agressividades de cunho ideológico no País e no mundo.
Nesse
período, desenvolveu um sistema de instrução autóctone,
que englobou todos os campos da técnica moderna, particularmente no que
se referia à guerrilha, antiguerrilha e à guerra psicológica.
Desenvolveu, por meio de pesquisas, idéias novas e estudos doutrinários
mais coerentes com a nova realidade.
Na década de 70, quando surgiram
os primeiros movimentos de conscientização pela necessidade de uma
doutrina voltada para as nossas características e anseios nacionais, esta
começou a ganhar feição própria. Evidentemente, foi
mantido o intercâmbio de conhecimento e das experiências dos demais
exércitos do mundo, em especial das nações amigas.
Em
1987, o Estado-Maior do Exército regulou as atividades doutrinárias
que estavam sendo processadas de forma não-sistematizada, publicando as
Instruções Gerais para a Organização e o Funcionamento
do Sistema de Doutrina Básica de Emprego da Força Terrestre, primeiro
documento metodológico para o desenvolvimento da Doutrina da Força
Terrestre.
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| Acordo de assistência militar Brasil-Estados Unidos
da América, que resultou na modernização do material e do
emprego operacional |
Em 1999, foram aprovadas as Instruções
Gerais para a Organização e o Funcionamento do Sistema de Doutrina
Militar Terrestre (SIDOMT). Desse modo, a Força Terrestre desenvolveu uma
aperfeiçoada metodologia que lhe passou a proporcionar um crescente e constante
avanço doutrinário.
Atualmente, o Exército Brasileiro
desenvolve a Doutrina Militar Terrestre com o entendimento de que se trata de
uma doutrina de aplicação, apoiada na realidade e identificada com
as características e aspirações do País e, conseqüentemente,
incorpora aspectos bem definidos de humanidade, realismo, democracia, abertura
e adogmatismo, o que tem sido desenvolvido nos níveis estratégico
e operacional. O SIDOMT, nos moldes atuais, mostra-se um instrumento fundamental
na constante busca do desenvolvimento da Força Terrestre, em todos os níveis.
O
Exército, ao longo da história, voltado para os objetivos nacionais
e em coerência com as condições sócio-econômicas
e o desenvolvimento do País, tem cumprido sua destinação
constitucional, adaptando-se constantemente aos conceitos doutrinários
mais atualizados da ciência e da arte da guerra.
A 1ª Guerra
Mundial
A posição brasileira no primeiro grande conflito
que convulsionou o mundo no século passado estava respaldada pela Convenção
de Haya, firmada pelo Brasil em 4 de agosto de 1914. O País manteve-se
na condição de nação neutra. No entanto, as relações
entre Brasil e Alemanha foram abaladas pelos seguintes fatos: proclamação
de guerra alemã feita aos países neutros por meio do confisco da
liberdade dos mares; utilização de portos nacionais para reabastecimento
de navios de guerra alemães disfarçados de navios mercantes; fomentação
de greves operárias; e tentativa de mobilização das colônias
alemãs em território brasileiro.
A situação
foi agravada pelo bombardeamento alemão, em águas nacionais, dos
navios mercantes Paraná, Tijuca, Guaíba, Acari, Macau, Lapa e Tupi.
Estava estabelecido o estado de guerra entre Brasil e Alemanha.
A abertura
dos portos brasileiros a unidades aliadas e a assunção do encargo
de patrulhamento do Atlântico Sul pela Esquadra brasileira foram as primeiras
ações em apoio ao esforço de guerra aliado.
A Divisão
Naval de Operações de Guerra, comandada pelo contra-almirante Pedro
Max Fernando de Frontin, incorporou-se à Esquadra britânica e realizou
o primeiro esforço naval brasileiro em águas internacionais.
A
seguir, foi enviado um grupo de pilotos aviadores navais, em janeiro de 1918,
e de oficiais do Exército Brasileiro para o Teatro de Operações
(TO) europeu. Dentre esses, destacava-se o então tenente José Pessoa
Cavalcante de Albuquerque, que comandou um pelotão do 4º Regimento
de Dragões do Exército francês.
Uma missão médica
brasileira foi enviada ao teatro de guerra europeu com a finalidade de instalar
um hospital. Integravam a missão 92 médicos, sendo dez militares
e os demais mobilizados e convocados nos respectivos postos privativos de oficiais.
Além dos médicos, integravam a missão acadêmicos, farmacêuticos,
pessoal de apoio administrativo e um pelotão de segurança. A contribuição
da missão médica brasileira materializou-se no apoio dado à
população francesa contra um surto de gripe que assolava aquele
país, o que garantiu a continuidade do apoio logístico às
tropas da frente de combate.
Após o armistício, os bravos
brasileiros retornaram vitoriosos à Pátria. Escreveram uma página
de glória em defesa da liberdade dos povos e fizeram com que o Brasil se
ombreasse com as nações mais importantes e poderosas do mundo.
A
2ª Guerra Mundial
Antecedentes
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| Integrantes do Regimento Sampaio logo após a conquista
de Monte Castelo |
Os combates ocorridos no TO europeu a partir
de 1939 deixaram o mundo perplexo diante da violência dos acontecimentos
que envolviam novos territórios e nações. A neutralidade
brasileira parecia ser insustentável frente ao turbilhão da guerra.
A
posição brasileira veio a definir-se na Terceira Reunião
de Consulta dos Chanceleres, ocorrida no Rio de Janeiro, em 28 de janeiro de 1942,
no qual o Brasil anunciou o rompimento das relações diplomáticas
com Alemanha, Itália e Japão, que integravam o chamado Eixo. A ajuda
brasileira aos aliados já vinha ocorrendo na forma de apoio a seus comboios
navais. Essa situação ensejou ataque de submarinos alemães
contra a navegação mercante brasileira, sacrificando mais de seiscentas
vidas.
A revolta do povo brasileiro em face desses ataques foi fator decisivo
para o ingresso do País no conflito, levando o governo a decretar, respaldado
pelo Congresso, estado de guerra aos países do Eixo.
Por sua posição
continental estratégica, dominando por meio do saliente nordestino as importantes
rotas marítimas do Atlântico Norte e do Atlântico Sul, o Brasil
cooperava com o esforço de guerra de forma efetiva. Portanto, o ato de
declaração de guerra ao Eixo expôs o seu litoral ainda mais
aos perigosos ataques submarinos alemães. A estratégia brasileira
foi assim delineada: primeiramente fortalecer a defesa do próprio território
e, posteriormente, enviar tropas para operar, com as forças aliadas, na
Europa.
A participação brasileira
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| Preparação do ataque a Monte Castelo pela
tropa brasileira / Monte Castelo nos dias atuais |
Com a ativação
do TO Norte-Nordeste, organizou-se a defesa da área mais exposta às
agressões o Saliente Nordestino. Foram articuladas unidades de Infantaria,
Artilharia Antiaérea e de Costa, bem como criado um sistema de vigilância
de costa e estruturada a defesa civil.
O passo seguinte foi a organização
da FEB, integrada por aproximadamente 25.000 brasileiros dos quatro cantos do
País, dos quais quatro oficiais-generais, 1.535 oficiais, além de
três oficiais da Esquadrilha de Ligação e Observação,
15 oficiais da ativa e reserva integrantes da Justiça Militar da FEB, 25
capelães militares, 28 funcionários do Banco do Brasil e 67 enfermeiras.
Estruturava-se da seguinte maneira: comando; estado-maior geral; estado-maior
especial; tropa especial; Infantaria Divisionária com três regimentos
de Infantaria; Artilharia Divisionária com quatro grupos de Artilharia;
uma esquadrilha de ligação e observação; um batalhão
de Engenharia; um batalhão de Saúde; um esquadrão de reconhecimento
mecanizado; e uma companhia de transmissões.
A organização
e preparação da FEB esbarrou em diversos obstáculos: a adaptação
da doutrina militar vigente herança da Missão Militar Francesa
à doutrina americana; a mobilização dos efetivos;
o desaparelhamento material; e a falta de experiência de guerra.
A
FEB seguiu para a Europa a bordo de navios americanos. O primeiro dos quatro escalões
embarcou a 2 de julho de 1944, sob o comando do general Zenóbio da Costa;
e o último a 8 de fevereiro de 1945.
Logo após a chegada à
Itália do 1º escalão da FEB primeira força latino-americana
a desembarcar em solo italiano para combater as forças do Eixo houve
o recebimento de material e equipamento e a integração dos brasileiros
ao V Exército norte-americano. Em seguida, as forças brasileiras
iniciaram um breve período de adestramento na localidade de Vada e, em
três semanas, atingiu os níveis operacionais desejados.
O recém-constituído
Destacamento FEB foi atuar na frente de Pisa, integrando o 4º Corpo-de-Exército
do general Crittemberger. Assim enquadrada, a tropa brasileira, em 18 de
setembro de 1944, conquistou Camaiore. Em seguida, cerrou sobre os postos da Linha
Gótica, que representavam tenaz resistência alemã ao avanço
aliado.
Assim, em defesa da liberdade, a bandeira brasileira foi empunhada
heroicamente pelos pracinhas brasileiros em solo europeu. Apesar do pouco treinamento
e das condições climáticas adversas do terreno, a missão
foi cumprida.
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| Início do adestramento da tropa em Vada |
Ainda sob o comando do general Zenóbio da Costa, o Destacamento
FEB foi deslocado para o vale do rio Serchio, conquistando, sucessivamente, Massarosa,
Monte Prano, Fornaci, Galicano e Barga.
A 1º de novembro de 1944, com
a chegada de novos efetivos brasileiros à Itália, o general Mascarenhas
de Moraes assumiu definitivamente o comando da 1ª Divisão de Infantaria
Expedicionária (1ª DIE).
A zona de ação da 1ª
DIE era o importante vale do Rio Reno, sobre a rodovia 64 ao norte de Porreta
Terme. Na frente de mais 15 km de extensão, destacava-se pelo seu valor
estratégico a elevação de Monte Castelo. Sua conquista permitiria
o avanço do 4º Corpo-de-Exército na direção de
Bolonha, importante nó rodoferroviário situado na região
norte da Itália.
Por sua importância no contexto da manobra do V Exército
e pelas diversas tentativas de conquista por parte da tropa brasileira, Monte
Castelo representou a maior disputa entre brasileiros e alemães de todo
o conflito. Foi um combate emblemático para a FEB. Coube aos pracinhas
brasileiros conquistar após quatro tentativas, esse importante objetivo
militar, a despeito do terreno lamacento e íngreme, do frio e da neve.
A
capacidade combativa e o aprendizado rápido dos misteres da guerra por
parte da 1ª DIE geraram admiração e elogios dos aliados em
relação às nossas tropas.
A próxima página
de glória escrita pela FEB foi a conquista, em 5 de março de 1945,
de Castelnuovo. A perfeita coordenação das ações do
6º e 11º regimentos de Infantaria e o apoio da Artilharia Divisionária
redundaram nessa brilhante vitória militar, que se consumou em cerca de
sete horas de combate renhido. A partir daí, o 4º Corpo-de-Exército
pôde se lançar para Bolonha.
A ofensiva da primavera de 1945,
em prosseguimento à Batalha dos Apeninos, consistiu em violentos ataques
à posição alemã denominada Linha Gengis Khan. Nesse
contexto, destacou-se o esforço brasileiro para a conquista do maciço
de Montese, o episódio mais sangrento da participação brasileira
na 2ª Guerra Mundial. Constituía-se em objetivo decisivo na manobra
ofensiva do 4º Corpo-de-Exército. O terreno íngreme e fortemente
minado e a consistente posição defensiva em torno da localidade
de Montese foram obstáculos transpostos com bravura e com o custo de inúmeras
vidas dos pracinhas brasileiros.
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| Tomada de Montese - Tela de A. Martins |
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| Observação brasileira
no "front" |