Dias Cardoso
 

MESTRE-DE-CAMPO ANTÔNIO DIAS CARDOSO
(O "MESTRE DA EMBOSCADA")

Breves Considerações

Falar-se do legendário Antônio Dias Cardoso não é tarefa fácil, tantos já o fizeram, de forma superlativa e primorosa, por meio de epítomes históricos e apologias, merecendo destaque o escorço biográfico da lavra do eminente historiador militar Coronel Cláudio Moreira Bento, contido no livro por ele escrito, "As Batalhas dos Guararapes".

Referências Biográficas

Infelizmente, não existem registros acerca da genealogia de Dias Cardoso, até há pouco relegado a um injusto semi-anonimato histórico, não condizente com os tantos e tamanhos serviços por ele prestados à Pátria nascente, quando de nossa proto-história.

Assim, conforme dados de diversos historiadores, sabe-se apenas que ele nasceu no princípio do século XVII, provavelmente no ano de 1600, na cidade do Porto-Portugal, mudando-se ainda jovem para o Brasil, terra a que vai devotar acrisolado amor.

Em 1624, Dias Cardoso assenta praça como soldado, na Bahia, ascendendo, mercê de seus elevadíssimos méritos, a todas as graduações da hierarquia castrense, atingindo, em 1635, o posto de Alferes, tendo participado de importantes ações de guerra contra o invasor, da Bahia a Pernambuco, notabilizando-se por sua ação guerrilheira, máxime pela prática da emboscada, como adiante abordaremos.

Em 1638, após a memorável batalha de Salvador, é promovido a Capitão.

Em 1640, após o cumprimento de relevante missão, conferida pelo Governador-Geral do Brasil, vem a pedir reforma, a qual lhe é concedida; porém, sendo imprescindíveis os seus serviços militares, é convocado para que prosseguisse na luta, na qual se engaja até à rendição dos batavos, fazendo, pois, a campanha, desde a invasão da Bahia, "de fio a pavio".

Em 1655, recebe a honorificência de Cavaleiro da Ordem de Cristo e o comando do Terço de João Fernandes Vieira, do qual fôra Ajudante por ocasião da 1ª batalha dos Guararapes.

Em 1656, é nomeado Mestre-de-Campo, culminando, nesse posto, uma notável carreira militar, de 32 anos de constantes sacrifícios e guerra, iniciada como soldado, em 1624...

Em 1657, Dias Cardoso assume o governo da Paraíba, vindo a falecer no Recife, em 1670, quando ainda no comando do famoso Terço de Fernandes Vieira, consagrado nas duas batalhas dos Guararapes.

O Personagem Militar

Os feitos marciais de Antônio Dias Cardoso foram praticados em duas circunstâncias: em batalhas, das quais podemos destacar as da defesa de Salvador, do Monte das Tabocas, da Casa Forte e as duas dos Montes Guararapes e em incontáveis ações de guerrilhas e emboscadas, semelhantes às atuais missões das tropas de "comandos" e de "forças especiais", dos Exércitos modernos.

Numa síntese incompleta e perfunctória, diríamos quanto às batalhas:

- na defesa de Salvador, em 1638, cidade mantida inexpugnável, pelo heroísmo de Luiz Barbalho Bezerra e tantos outros, Dias Cardoso, no comando de uma Companhia, soube defender, com inexcedível bravura, as trincheiras do bastião de Santo Antônio, acossadas pelos melhores soldados de Nassau;

- nas batalhas do Monte das Tabocas e da Casa Forte, em 1645, o Sargento-Mor Dias Cardoso foi o lídimo condutor de um recém-formado e "pequeno exército", o qual derrota o inimigo, mais poderoso e adestrado, pelo que Fernandes Vieira o considerou "o maior responsável pelas vitórias obtidas". No Monte das Tabocas, consegue atrair os holandeses para três emboscadas, quando estes tentavam conquistar a elevação, desencadeando, a seguir, um terrível contra-ataque, morro abaixo, que os põe em desabalada fuga. Em Casa Forte, coube a Dias Cardoso o comando da vanguarda que derrota o Coronel Van Hans, Comandante-Geral das tropas batavas no Nordeste;

- nas batalhas dos Guararapes, coube-lhe papel de enorme relevo. Na primeira delas (19 Abr 1648), era ele o Subcomandante do maior e mais bem preparado dos quatro Terços - o de Fernandes Vieira, ao qual, por óbvio, foi confiada a principal frente de combate; Vieira era civil e, por isso, delegou a Dias Cardoso, a execução de todas as ações bélicas. Quando da 2ª batalha (19 Fev 1649), Dias Cardoso atua independentemente, comandando a chamada "Tropa Especial", forte de 550 homens, que destroçam toda a ala direita inimiga. Após a batalha, ao ouvir a observação de um Capitão prisioneiro, de que, da próxima vez, combateriam dispersos como os luso-brasileiros, respondeu-lhe, com arrogância: "melhor para nós, pois cada soldado vosso necessitará de um Capitão, enquanto que, cada soldado nosso, representa um Capitão"...

Dias Cardoso foi o "artífice das emboscadas". Caso fôssemos contar as suas inúmeras peripécias no campo da guerra irregular, necessitaríamos escrever alguns volumes para explicá-las minudentemente. Destarte, citaremos apenas uma, quiçá a mais importante. Vidal de Negreiros ao reconhecer o valor daquele indômito e sagaz guerreiro, o indica, em 1640, ao Governador-Geral do Brasil, para que, munido de um documento que o simulava como desertor, fosse enviado, em segredo, da Bahia a Pernambuco, com a missão de "organizar um pequeno exército e prestar informações acerca do inimigo, ao longo do percurso de 160 léguas". A árdua tarefa foi airosamente cumprida, após vencido o ínvio terreno da caatinga nordestina, prenhe de perigos, como rios caudalosos, índios hostis, negros quilombolas e fortificações do invasor.

E o "pequeno exército", de que fôra incumbido da formação e adestramento, ia aos poucos se constituindo e sendo intensamente treinado, e continuaria a sê-lo, nos anos seguintes, no interior das matas e nos canaviais, mormente quanto ao emprego de táticas de guerrilhas e emboscadas, na utilização de meios expeditos de combate, tais como velhos bacamartes, chuços, bordões, espadas, escudos de couro endurecido, paus afilados e tostados, facas, facões, flechas, dardos, foices, etc, e no judicioso aproveitamento de um terreno coberto por agressiva vegetação, no qual era feito largo uso da rapidez, da finta, da negaça, dos ardis, do espírito de iniciativa, da esperteza, enfim, e de uma indomável bravura. Esse agrupamento, que iria se transformar em uma tropa devidamente organizada - o "Exército Patriota" - nas duas batalhas dos Guararapes, foi formado, pioneiramente, por Antônio Dias Cardoso, na harmoniosa integração de brancos, pretos, índios, mazombos, mamelucos, curibocas e demais mestiços de todos os matizes, que souberam, como ninguém, empunhar todo tipo de armamento, na luta pela preservação do sagrado solo pátrio.

Eis por que um dos mais honrosos epítetos atribuídos a Dias Cardoso é o de "Organizador e 1º Comandante do Exército Brasileiro"...

Conclusão

Homens como Antônio Dias Cardoso, além de "modeladores da nacionalidade" e "organizadores do Exército Brasileiro", também foram personagens inovadoras da arte da guerra; sem dúvidas, em especial a Antônio Dias Cardoso, Patrono do Batalhão de Forças Especiais do Exército - que ostenta o seu augusto nome - deve-se o enriquecimento de doutrinas militares de então, pois os patriotas por ele adestrados, lograram vencer, com os seus improvisados e precários meios e métodos rudimentares de combate, um inimigo, muito superior, numericamente, além de aguerrido, bem treinado, experiente e que empregava as mais avançadas técnicas e táticas de guerra, em voga na Europa.

Assim, é com muita ufania, que a Força Terrestre Brasileira relembra e homenageia a insigne figura do "Arquiteto Militar da Insurreição Pernambucana", o "Mestre da Emboscada", Antônio Dias Cardoso. Tal homenagem do Exército Brasileiro - "a mais lídima e representativa das instituições nacionais, o verdadeiro índice do povo brasileiro", consoante magistral conceito do saudoso sociólogo Gilberto Freyre, avulta de importância, posto que, neste ano de 1998, comemoram-se os 350 anos da 1ª batalha dos Guararapes, travada em 19 de abril de 1648, aliás, a data, recentemente escolhida, para o Dia do glorioso e invicto Exército de Caxias.

Artigo escrito por: CEL INF QEMA MANOEL SORIANO NETO

 

 
 
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