
General Carlos de Meira Mattos
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| Capelão John Sorey, ministro da 1ª Igreja
Batista, ora por um morto em Monte Castelo. |
A extensão geográfica de nosso território (quinto maior
do mundo) e sua posição geopolítica debruçada
sobre o Oceano Atlântico, com uma costa de quase 8.000 km, não
nos permitiram manter ilesa nossa soberania e nos conservarmos ausentes de
participação nos dois últimos grandes conflitos bélicos
que abalaram o mundo.
Na 1ª Grande Guerra (1914-1918) após o afundamento de três
navios mercantes brasileiros pelos submarinos alemães, decidiu o governo
de Wenceslau Brás transformar nossa declaração de neutralidade
em estado de guerra.
Preparou-se a Nação para honrar a posição drástica
assumida, para a qual em espírito estava estimulada graças,
principalmente, à pregação veemente que vinha fazendo
Ruy Barbosa em defesa da causa aliada. Uma divisão naval, uma missão
médica e um grupo de oficiais do Exército e da Aviação
Militar, esta recém-criada, partiram para o front a fim de marcar a
nossa presença no teatro de operações. Pequena contribuição
bélica mas bela afirmação de adesão às
democracias aliadas e de repudio às agressões sofridas.
Por ocasião da 2ª Guerra Mundial o Brasil foi atingido mais profundamente
pela violência bélica dos submarinos dos poderes nazi-facistas.
Nossa participação no conflito bélico foi precedida da
tomada pelo Governo brasileiro de medidas no campo diplomático visando
a honrar o compromisso assumido por ocasião da III Reunião de
Consulta dos Ministros de Relações Exteriores das Repúblicas
Americanas, realizada no Rio de Janeiro e encerrada a 28 de janeiro de 1942.
Nessa oportunidade, cumprindo o acordo firmado com as nações
do Continente, o Brasil rompeu relações diplomáticas
com as potências do Eixo: Alemanha, Itália e Japão.
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| A bordo do Gen. Mann, os pracinhas a caminho da Itália. |
Esta atitude diplomática do Governo brasileiro, assumida em nome da
solidariedade do Continente Americano ante à ameaça nazinipo-fascista
provocou uma reação violenta do Governo de Berlim. Em 15 de
junho de 1942, Adolph Hitler, em reunião com o Almirante Reader, decidiu
desencadear uma ofensiva submarina contra a navegação marítima
nas costas brasileiras. Para esta missão foi destacada uma flotilha
de submarinos sendo 8 de 500 toneladas e 2 de 700 toneladas. Partindo da costa
da França ocupada, essa fIotilha foi reabastecida já próximo
à nossa costa pelo submarino-tanque U-460.
Em seguida, começou a ação corsária dos submarinos
alemães e, possivelmente, alguns italianos do governo fascista de Benito
Mussolini. Em dois dias, de 15 a 17 de agosto de 1942, cinco navios mercantes
brasileiros foram torpedeados e afundados, a poucas milhas de nossa costa.
Seguiram-se outros ataques que afundaram 31 barcos mercantes brasileiros.
Era a guerra não declarada, era a violência, a pretexto de responder
a um ato diplomático de rompimento de relações.
Era o Brasil, em 1942, um país já mais expressivo na balança
do poder do que o Brasil de 1917. Nossa resposta teria que ser mais forte,
como foi. Reagindo às agressões militares sofridas o Governo
brasileiro, a 22 de agosto de 1942 declarou guerra à Alemanha e Itália.
A Nota Ministerial comunicando a Declaração de Guerra aos governos
de Berlim e Roma foi firmada pelo Embaixador Oswaldo Aranha, Ministro de Relações
Exteriores.
Em seguida, o governo de Getúlio Vargas decretou estado de guerra
em todo o território nacional e foi determinada a mobilização
geral do país.
Vamos apresentar um resumo do que significou o esforço de guerra realizado
pelo nosso país por ocasião da 2ª Guerra Mundial, particularmente
no tocante à participação de nossas Forças Armadas
nas operações militares.
Participação das Forças Armadas Brasileira nas Operações
de Guerra
Defesa e patrulhamento do litoral e proteção de comboios.
Podemos resumir a participação de nossas Forças Armadas
nas Operações bélicas do 2º conflito mundial nas
seguintes ações principais:
Exército, envio de uma Força Expedicionária ao
Teatro de Operações do Mediterrâneo e ocupação
de áreas estratégicas, particularmente no Nordeste, para a defesa
do litoral;
Marinha, patrulhamento do litoral e escolta de comboios marítimos;
Força Aérea, envio de um Grupo de Aviação
de Caça e de uma Esquadrilha de Ligação e Observação
ao Teatro de Operação do Mediterrâneo e ações
de patrulhamento do litoral e proteção aérea à
navegação.
Nossa participação militar, na parte referente às operações
extracontinentais e reequipamento das forças foi coordenada por duas
Comissões Mistas de Defesa Brasil-Estados Unidos, funcionando uma no
Rio de Janeiro e outra em Washington. Estas Comissões baseadas no Acordo
Bilateral firmado pelos dois países a 23 de maio de 1942 tiveram como
representantes do Brasil em Washington o General-de-Divisão Estevão
Leitão de Carvalho e dos Estados Unidos no Rio de Janeiro o Major General
J. Gareshe Ord.
O trabalho de duas Comissões Mistas, de Washington e do Rio de Janeiro
resultou num clima de entendimento militar estreito entre os dois países,
firmado no campo da ideologia comum, no terreno da conjugação
de interesses econômicos, no hábito do trabalho comum e no sentimento
da necessidade de eliminar do mundo a praga do nazi-fascismo.
Estas razões resultaram na proposta da Comissão Mista de Washington,
aceita pelo Governo brasileiro, visando à ampliação do
alcance do Acordo Militar de 23 de maio de 1942, tendo em vista estender a
cooperação militar para fora do Continente Americano. (Recomendação
n? 16 de 21 de agosto de 1943).
Aceita pelo Governo brasileiro essa nova linha de cooperação,
ficou assentado, inicialmente a participação do Brasil com uma
Força Expedicionária do Exército constituindo um Corpo
de Exército de três divisões de infantaria e uma divisão
blindada que atuaria na África e Europa. A Força Aérea
participaria das operações no Teatro do Mediterrâneo,
inicialmente com um Grupo de Caça e uma Esquadrilha de Observação
e Ligação e posteriormente com um Grupo de Bombardeiros Médios.
A Marinha de Guerra teria estendida a águas exteriores a área
marítima de patrulhamento e proteção de comboios.
Em troca da participação externa acima prevista as autoridades
brasileiras negociaram o fornecimento de material de guerra para as três
forças, tendo em vista o fortalecimento da defesa de nosso território.
Os atrasos no fornecimento do equipamento bélico necessário
e a invasão da Europa pelas Forças Aliadas, antevendo a aproximação
do fim do conflito, foram as causas que reduziram a participação
mais numerosa do Brasil no Teatro do Mediterrâneo, limitando-a apenas
ao envio de Força Expedicionária Brasileira composta de uma
divisão de infantaria e do 1º Grupo de Caças da Força
Aérea Brasileira.
A mobilização militar e a defesa do litoral brasileiro visaram
particularmente o fortalecimento do Nordeste, por duas razões essenciais:
1) sua posição geográfica, um saliente do Atlântico
formando com a costa do Senegal o estreito do Atlântico; o Presidente
Roosevelt em discurso referiu-se à importância da ponte estratégica
Natal-Dacar; 2) as evidentes intenções do governo alemão,
após o armistício com a França (governo Pétain)
de ocupar as colônias francesas da costa atlântica da África,
defronte ao litoral brasileiro.
As três forças reforçaram seu dispositivo e seus efetivos
no Nordeste. A Marinha de Guerra fortaleceu as bases de Recife e Salvador
e criou os novos comandos navais de Natal e Belém.
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| Em Livorno, o desembarque dos pracinhas do segundo escalão. |
A Aeronáutica ampliou as bases de Recife e Salvador e instalou as
bases aéreas de Natal, Fortaleza e Belém. O Exército,
que, ao começo do conflito bélico na Europa mantinha escassos
efetivos no Nordeste (cerca de 6.000 homens), elevou seus efetivos para 50.000
homens, ocupando a ilha de Fernando de Noronha e vários pontos do litoral
propícios ao desembarque. Foi criado o Teatro de Operações
do Nordeste.
O então General João Baptista Mascarenhas de Moraes, que mais
tarde se destacaria no comando da Força Expedicionária Brasileira,
fora designado em 1941 para Comandante da 7ª Região Militar, em
Recife, e teve a seu cargo a mobilização e o aprestamento do
Nordeste para a situação de guerra. Para comandante do Teatro
de Operações do Nordeste fora designado o General-de-Divisão
Estevão Leitão de Carvalho que, mais tarde, teve a seu cargo
a representação do Brasil junto à Comissão Militar
Mista em Washington. A Força Naval do Nordeste, nessa fase de mobilização,
esteve sob o comando do Almirante Soares Dutra e, em seguida, do Almirante
Dodsworth Martins. A Zona Aérea sediada em Recife e com jurisdição
sobre as bases do Nordeste era comandada pelo Brigadeiro Eduardo Gomes. Embora
nunca fosse efetivado o comando conjunto para o Teatro de Operações
do Nordeste, houve um perfeito entendimento e harmonia de procedimentos entre
esses altos chefes militares que exerceram comando na área.
Em decorrência do Acordo Militar de 23 de maio de 1942, a 3ª Força
Tarefa, pertencente à 4ª Esquadra norte-americana, do Atlântico
Sul, sob o comando do Almirante Jonas Ingram, foi autorizada a instalar o
seu Quartel General em Recife. A Força Aérea dos Estados Unidos,
igualmente, instalou bases em Natal e Belém.
No cumprimento das missões de defesa do litoral brasileiro, de patrulhamento
aero-naval, escolta e proteção de comboios, as forças
da Marinha e da FAB em operação conjunta com as forças
norte-americanas desempenharam árdua e infatigável tarefa bélica.
Estendendo-se a zona de ação da 4ª Esquadra do Atlântico
Sul a espaços marítimos que iam muito além de nossos
limites territoriais, nossas belonaves e nossos aviões, em sua missão
diária de patrulhamento e proteção da navegação,
atuaram constantemente singrando e sobrevoando águas internacionais.
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| Antes do embarque, o 1º Escalão desfila
no Rio. |
Além das missões de proteção dos espaços
aéreo e naval, a Defesa Ativa da costa do Nordeste foi estabelecida
visando a repelir qualquer ataque aéreo, naval ou terrestre do inimigo.
O plano para este fim foi coordenado entre os Comandantes do Nordeste - da
Marinha, do Exército e Força Aérea. As informações
que nos chegavam através dos governos de Londres e Washington levantavam
a hipótese dos alemães e italianos, além das ações
de guerra submarina, virem a tentar desembarques isolados na costa brasileira
em operações tipo comando, muito utilizadas na época.
Para a defesa ativa do litoral foram estabelecidos planos combinados (Marinha,
Exército e Aeronáutica), particularmente nos pontos mais estratégicos
como Recife, Salvador, Natal, Vitória e ilhas oceânicas (Fernando
de Noronha e Trindade).
Estas missões de defesa do litoral e de guerra anti-submarina exigiram
de nossas Forças Armadas pesados encargos e sacrifícios. Representaram
dois anos, 1942 e 1943, de esforços inauditos e sangrentos sacrifícios.
Inúmeros submarinos inimigos foram atingidos, afundados ou avariados,
e, do nosso lado, milhares de vidas sacrificadas e 31 navios mercantes afundados.
Vale que, também, merecida referência à nossa Marinha
Mercante, pesadamente vitimada mas que, com destemor e espírito de
missão, procurou manter a comunicação e o indispensável
intercâmbio entre os portos brasileiros e a liberdade de nosso comércio
exterior.
Veremos em seguida a participação das nossas Forças
Armadas no exterior, no Teatro de Operações do Mediterrâneo.
A Força Expedicionária Brasileira (FEB)
Com um efetivo de 25.334 homens, a FEB participou ativamente das operações
de guerra no Teatro do Mediterrâneo de julho de 1944 a maio de 1945,
na Campanha da Itália.
Compôs-se a FEB de um Comando, uma divisão de Infantaria, um
Depósito de Pessoal e pequenas organizações com Serviço
de Justiça e Serviço de Saúde ao qual estiveram integrados
cerca de 100 médicos, enfermeiros e 111 enfermeiras, Serviço
Religioso e contigentes de ligação, de intendência. A
força combatente da FEB foi a 1ª Divisão de Infantaria
Expedicionária, comandada pelo General-de-Divisão João
Baptista Mascarenhas de Moraes, um conjunto tático-operacional constituído
por infantaria, artilharia, cavalaria-motorizada, engenharia, aviação
de ligação e observação e serviços de apoio
e combate.
O General-de-Divisão Mascarenhas de Moraes acumulou o comando da Divisão
com as demais forças não divisionárias estacionadas na
Itália. Além do General Comandante integraram a Divisão
Brasileira 3 outros oficiais-generais: General-de-Brigada Zenóbio da
Costa como Comandante da Artilharia Divisionária; como Comandate da
Infantaria Divisionária o General-de-Brigada Oswaldo Cordeiro de Farias
e o General-de-Brigada Olympio Falconieri da Cunha como Comandante dos elementos
não divisionários, inclusive o Depósito de Pessoal, um
conjunto de cerca de 5.000 homens destinados a garantir a substituição
imediata dos mortos e feridos em ação.
O efetivo da FEB deslocou-se para o Teatro de Operações em
navios de transporte de tropa da Marinha norte-americana, em cinco escalões
sucessivos; todos eles cruzaram o oceano Atlântico e penetraram no mar
Mediterrâneo protegidos por poderosas escoltas aeronavais em vista dos
perigos da ativa guerra submarina desenvolvida pelos alemães e italianos.
Somente as 111 enfermeiras foram transportadas por via aérea.
Ao chegar, recruta em lides guerreira, foi a tropa brasileira incorporada
ao V Exército norte-americano comandado pelo General Mark Clark e incluída
nos quadros do IV Corpo de Exército, comandado pelo General Willis
Crittenberger. Lado a lado com o V Exército norte-americano combatia
no Teatro do Mediterrâneo o famoso VIII Exército inglês
comandado pelo Marechal Montgomery, laureado pelas vitórias sobre os
alemães e italianos obtidas na Campanha do Norte da África e
Sicília, depois chamado à Inglaterra a fim de preparar a invasão
da Europa, substituído na Itália pelo General Lease. O Comandante
Supremo do Teatro do Mediterrâneo era o Marechal Sir Alexander, do Exército
inglês. Nesse quadro de estrelas fulgurantes da guerra, veteranos famosos,
entrou a nossa FEB.
Suportaram as forças brasileiras a inclêmencia do inverno europeu
de 1944 combatendo os alemães nos contrafortes e altos picos da cordilheira
dos Apeninos. Jamais lhes preocupou o fato de serem novatas entre tropas veteranas
e já famosas. Nunca esmoreceram em sua vontade de regressar ao Brasil
com a vitória de suas armas.
Um resumo do desempenho operacional da FEB na Itália nós o
encontramos na proclamação do seu Comandante, o General-de-Divisão
João Baptista Mascarenhas de Moraes, anunciando a vitória das
Forças Aliadas na Europa. Ei-Ia:
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| O Marechal Alexander (e), visita a frente acompanhado
dos generais Crittenberger e Mascarenhas. |
"A Força Expedicionária que representou o Brasil nesta
sanguinolenta guerra cumpriu galhardamente a missão que lhe foi confiada,
mercê de Deus e a despeito de condições e circunstâncias
adversas. Num terreno montanhoso, a cujos píncaros o homem chega com
dificuldade; num inverno rigoroso que a totalidade da tropa veio enfrentar
pela primeira vez e contra um inimigo audacioso, combativo e muito bem instruído,
podemos dizer assim mesmo, e por isso mesmo, que os nossos bravos soldados
não desmereceram a confiança que neles depositavam os seus chefes
e a própria nação brasileira.
Após oito meses de combates constantes, em que, como todos os exércitos,
sofremos pesados reveses e obtivemos brilhantes vitórias, o balanço
de uns e outras é ainda favorável às nossas armas. Desde
o dia 16 de setembro de 1944, a FEB percorreu, conquistando ao inimigo, às
vezes palmo a palmo, cerca de 400 quilômetros, de Lucca a Alessandria,
pelos vales dos rios Sercchio, Reno e Panaro e pela planície do Pó;
libertou quase meia centena de vilas e cidades; sofreu mais de 2.000 baixas,
entre mortos, feridos e desaparecidos; fez o considerável número
de mais de 20.000 prisioneiros, vencendo pelas armas e impondo a rendição
incondicional a duas Divisões inimigas. É um registro deveras
honroso e de vulto para uma Divisão de Infantaria. Um dia se reconhecerá
que o seu esforço foi superior às suas possibilidades materiais,
porém plenamente consentâneo com a noção de dever
e amor à responsabilidade, revelados pelos nossos homens em todos os
degraus e escalões da hierarquia, e em todas as crises e circunstâncias
da Campanha que neste instante acabamos de encerrar.
Regressamos com feridos ainda sangrando dos últimos encontros, mas
nunca, pela nossa atuação, o prestígio e nome do Brasil
periclitaram ou foram comprometidos.
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| Abatido e aprisionado pelos alemães, o segundo-tenente
Marcos Magalhães, da FAB, conseguiu escapar. |
É bem verdade, e vale a pena afirmar, que preço bem alto pagamos
por esse resultado.O sangue dos nossos bravos camaradas tingiu de vermelho
essas belas verde-escuras montanhas dos Apeninos e algumas centenas dos nossos
companheiros já não retomarão à Pátria,
conosco, porque dormem o sono eterno, sob as terras úmidas e verdejantes
das planícies da Toscana.
Não foram muitos os meses que aqui passamos: muitos foram, entretanto,
os triunfos que incorporamos ao rico patrimônio e às nossas tradições
militares. Camaiore, Monte Prano, Barga - no vale do Sercchio; Monte Castelo,
La Serra, Castelnuovo - no vale do rio Reno; Montese, Zocca, Marano su Panaro
- no vale do rio Panaro; Collechio e Fornovo di Taro - na rica planície
do Pó.
Esses nomes se inscreverão, por certo, dentre aqueles que recebem
o culto de gerações patrícias, porque na Itáliá,
como nos campos de batalha sul-americanas, o Exército brasileiro mostrou-se
digno do seu passado e à altura do conceito que os seus chefes e soldados
de outrora firmaram com a espada e selaram com sangue dos seus legítimos
e sempre venerados heróis".
O admirável resumo que acima transcrevemos, de autoria do grande Comandante
da FEB que foi o General Mascarenhas de Moraes, sintetiza com fidelidade o
que foi a atuação desse segmento do nosso Exército de
Caxias na Campanha da Itália. Gostaríamos, entretanto, de dizer
algo do conceito que a FEB deixou no espírito dos aguerridos chefes
militares norte-americanos que a tiveram sob seu comando.
Do General .Mark Clark, que era, quando chegamos à Itália,
Comandante do V Exército e depois foi elevado a Comandante do XV Grupo
de Exército, recebeu o nosso Comandante da FEB a seguinte mensagem
ao finalizar o conflito:
"Mostrou-se essa Força sob seu Comando (do General Mascarenhas
de Moraes) ser capaz de enfrentar problemass novos, treinar e disciplinarse
para o combate no qual desempenhou parte relevante.A FEB refletiu as altas
qualidades da nação brasileira, que enviou seus melhores filhos
para lutar em solo estrangeiro, longe da pátria, pela implantação
dos princípios de justiça e de liberdade".
O 1º Grupo de Aviação de Caça e a 1ª Esquadrilha
de Ligação e Observação
A FAB também partiCipou da 2ª Guerra Mundial no Teatro de Operações
do Mediterrâneo através de duas de suas unidades - o 1º
Grupo de Aviação de Caça, o "Senta a Pua",
comandado pelo major Nero Moura e a 1ª Esquadrilha de Ligação
e Observação "Olho nele", comandada pelo Capitão
João Afonso Fabrício Belloc, esta última unidade adida
à FEB e integrada operacionalmente à Artilharia Divisionária.
O 1º Grupo de Aviação de Caça foi equipado com
os aviões Thunderbolt, conhecidos como P-47, o moderno avião
caçador lançado pela indústria norte-americana, e foi
integrado para fins de operações aéreas ao 350 Fighter
Group. As aeronaves da 1º Esquadrilha de Ligação e Observação
foram do tipo L4-H Piper Cub.
O valor da contribuição dessas unidades da FAB à vitória
aliada no Teatro de Operações do Mediterrâneo não
pode ser avaliado por sua participação quantitativa no conjunto
da força aérea operando nesse Teatro, que foi realmente pequena,
mas, e principalmente, pelos resultados obtidos no âmbito de seu limitado
efetivo, comparando-os com o de unidades de outras nacionalidades também
integradas no poder aéreo de Mediterrâneo.
Iniciou o 1º Grupo de Caça sua missão de combate nos céus
do Teatro do Mediterrâneo, cumprindo missões em território
italiano e alemão. Comentado a contribuição do 1º
Grupo de Aviação de Caças, o "Senta a Pua",
diz o Brigadeiro Nelson Freire Lavanére-Wanderley no seu livro História
da Força Aérea Brasileira:
"O resultado impressionante da ação do Grupo de Caça
Brasileiro, no último mês da guerra, pode ser avaliado pelo seguinte
trecho do relatório oficial do 350 Figther Group: 'Durante o perído
de 6 a 29 de abril de 1945,o Grupo de Caça Brasileiro voou 5 % das
saídas executadas pelo XXII Comando Aerotático e, no entanto,
dos resultados obtidos por esse Comando, foram oficialmente atribuídos
aos brasileiros 15% dos veículos inimigos destruídos, 28% das
pontes destruídas, 36% dos depósitos de combustíveis
danificados e 85 % dos depósitos de munição danificados'."
Não foi sem onerosos sacrifícios que o 1º Grupo de Caças
alcançou tão expressivos resultados como unidade combatente.
Pesadas foram as perdas em vida do Grupo de Caça Brasileiro.
Em todas as missões os aviões de caça enfrentaram forte
ressistência da defesa anti- aérea inimiga, quando não
de sua aviação de caça. Sendo a maioria das missões
de caça realizadas a média e baixa altitudes, ficavam nossos
aviões submentidos ao fogo dos canhões anti-aéreos de
20 e 40 milímetros. Diz o Brigadeiro Wanderley no seu livro História
da Força Aérea Brasileira:
"As estatísticas mostraram que, nos quatro primeiros meses de
1945, os aviões do Grupo de Caça Brasileiro fizeram 1. 728 saídas
e foram atingidos pela artilharia anti-aérea 103 vezes,o que dá
uma média de um avião atingido para cada 17 saídas; a
média do número de saídas diárias, nos dias em
que havia vôo, era da ordem de 20; naturalmente, na maioria das vezes,
os aviões, mesmo atingidos, conseguiam regressar à sua base;
e nisso o avião P-47 "Thunderbolt" ficou famoso, pela sua
extrema robustez e capacidade de trazer os pilotos de volta, mesmo quando
avariado.
Entre os 48 oficiais do Grupo de Caça Brasileiro que realizaram missões
de guerra, como pilotos, houve um total de 22 baixas, sendo que 5 foram mortos,
abatidos pela artilharia anti-aérea, 8 tiveram seus aviões abatidos
pela artilharia anti-aérea e saltaram de pára-quedas sobre território
inimigo, 6 foram afastados do vôo por prescrição médica
e 3 faleceram em acidentes de aviação.
Os restos mortais dos bravos brasileiros mortos na Itália foram enterrados
no Cemitério Brasileiro de Pistóia; posteriormente foram trasladados
para o Brasil e atualmente se encontram na cripta do Monumento aos Mortos
na II Guerra Mundial, na Avenida Beira-Mar, no Rio de Janeiro.
O elevado número de baixas, entre os pilotos do Grupo de Caça
Brasileiro, exprime os riscos que eles enfrentavam, diariamente; e, no entanto,
todos os que tiveram a oportunidczde de privar com os pilotos brasileiros
na Itália são unânimes em atestar o elevado moral e entusiasmo
reinante entre eles; ficou demonstrado que, de fato, a Força Aérea
Brasileira tinha mandado para a Itália um grupo de oficiais que correspondeu
à mais alta expectativa que se pudesse ter sobre a sua bravura, noção
de cumprimento do dever, espiríto de sacrifício e valor profissional.
Não pode deixar de ser reconhecida a alta qualidade e eficiência
demonstradas por todo o pessoal de terra do Grupo de Caça Brasileiro
o qual, em situações de grande desconforto e sob condições
climáticas rigorosas, soube sempre desempenhar a contento a sua missão,
concorrendo grandemente para o sucesso obtido nas operações
aéreas e para o ótimo conceito que o Grupo de Caças sempre
gozou no meio das demais forças aliadas.
A atuação do Grupo de Caça Brasileiro na Itália
é a página mais gloriosa da História da Força
Aérea Brasileira e o brilho imorredouro dos feitos lá praticados,
pelos seus pilotos, servirá, sempre,
de estímulo às gerações futuras da Força
Aérea Brasileira".
Se o destaque maior cabe ao 1º Grupo de Caça, unidade de primeira
linha no combate aéreo, não podemos, no entanto, deixar de destacar
a atuação eficiente da 1ª Esquadrilha de Ligação
e Observação, que, cumprindo a missão de ser os "olhos
abertos e afastados" da artilharia da FEB, soube com suas 1282 horas
voadas em missão de observação sobre as linhas inimigas
contribuir para que os tiros certeiros de nossos canhões ajudassem
os valiosos combatentes da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária
a realizar sua extraordinária performance guerreira.
Conclusões
Diz o emérito historiador patrício Pedro Calmon: "Não
tomamos espontaneamente a decisão de ir à guerra. Como os Estados
Unidos, o Brasil foi compelido a intervir na guerra porque foi agredido e
provocado". Isto nos aconteceu por ocasião da 1ª Grande Guerra
(1914-1918) e da 2ª Guerra Mundial (1939-1945). O mesmo não sucedeu
com a maioria dos países deste Continente. Por quê? Seria o caso
de perguntarmos.
Voltamos aqui à tese de nossa expressão geopolítica,
determinada pelo território imenso, subcontinental, nossa posição
geográfica ocupando vastas costas debruçadas sobre o oceano
Atlântico, nossa população e nossos recursos naturais.
Geopoliticamente pesamos e ocupamos espaço na estratégia mundial.
Foram esses fundamentos geopolíticos a razão física de
nosso envolvimento nos dois maiores conflitos bélicos mundiais e nos
arrastarão a tomar posição num terceiro conflito se esta
infelicidade vier a acontecer à humanidade. Mas, levaram-nos, também,
à participação nas duas guerras mundiais razões
psicológicas - a índole e a vocação democrática
de nosso povo, que o aproxima, em termos de concepção existencial
da cultura cristã - ocidental e como conseqüência das nações
que, neste século, têm representado o baluarte desses valores,
- os Estados Unidos, a França, a Inglaterra, nossos aliados nessas
duas conflagrações bélicas.
"Agredidos e provocados", quando procurávamos manter nossas
relações e o intercâmbio comercial com os países
deste Continente e as nações amigas da Europa, dentro do princípio
da neutralidade, não vacilamos em nos empenharmos nas ações
bélicas da 2ª Guerra Mundial, preparando-nos para defender nossa
costa marítima, protegendo pelo patrulhamento naval e aéreo
a nossa liberdade de navegação, aliando-nos às nações
que como os Estados Unidos, a Inglaterra e a França lutavam já
contra a ameaça bélica da nova ordem nazi-fascista.
Nossos soldados, marinheiros e pilotos morreram em nosso litoral e nas missões
no Atlântico. Nossa Marinha Mercante sofreu pesadas perdas em vidas
preciosas e material. Nosso Exército e Força Aérea compareceram
ao Teatro do Mediterrâneo, nosso combatente mostrou-se tão bravo
e profissionalmente tão capaz como qualquer combatente das forças
aliadas e as vitórias alcançadas consagraram sua superioridade
sobre os famosos alemães.
Terminarei repetindo as últimas palavras da Mensagem do General Willis
Crittenberger, então Comandante IV Corpo do Exército a que esteve
integrada nossa Força Expedicionária, dirigida ao nosso valoroso
Comandante da FEB, General Mascarenhas de Moraes:
"Combatestes brava e valentemente e contribuístes substancialmente
para a conquista da vitória das Nações Unidas. Podeis
estar orgulhoso, com a certeza de terdes cumprido integralmente a missão
para a qual o povo brasileiro vos enviou ao solo estrangeiro".
(Texto "O Brasil na II Guerra Mundial" do General Carlos de
Meira Mattos, extraído da Revista O Globo Expedicionário - Agência
Globo)