
General Octavio Costa
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| Na Itália, o aviso a Hitler. |
Quem quiser compreender como os jornais da época viram a participação
do Brasil na II Guerra Mundial terá de levar em conta as grandes limitações
da imprensa brasileira àquele tempo. Não eram apenas as limitações
de ordem material, desprovida dos extraordinários recursos que, a partir
do fim da guerra, haveriam de modernizá-la dinamizá-la. Insuperáveis
eram as limitações de ordem político- institucional.
A 10 de novembro de 1937, a poucos meses do término de seu primeiro
mandato constitucional, desgostoso e inconformado com o encaminhamento de
sua própria sucessão, Getúlio Vargas decidira fechar
o Congresso Nacional e empunhar todos os poderes, instaurando o regime ditatorial
que se prolongou até sua deposição em outubro de 1945.
A ditadura criara um órgão especificamente destinado ao controle
da comunicação de massa, o Departamento de Imprensa e Propaganda,
o famigerado DIP, que realizava implacável censura à imprensa
escrita e falada, baixava listas de assuntos proibidos, distribuía
copiosa literatura promocional e concedia generosos recursos financeiros aos
colaboracionistas, em um processo de corrupção e de enriquecimento
ilícito, de jornais e jornalistas, sem paralelo em toda a nossa história.
E para os que resistiam às ordens do DIP: prisão por delitos
de imprensa, o fechamento de jornais e a proibição da criação
de novos órgãos.
Sob o guante do DIP, das antevésperas da guerra à sua terminação,
ainda assim, nossa imprensa conseguiu dar uma grande contribuição
à nação brasileira, a serviço da verdade, da justiça
e da razão, malgrado houvesse, aqui e ali, neste ou naquele órgão,
no auge dos sucessos iniciais dos exércitos dos países totalitários,
refletido as próprias perplexidades e indecisões do Governo
Vargas na definição do melhor caminho para o Brasil.
O Brasil do Estado Novo
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| O Presidente Vargas despede-se dos pracinhas
do 1º Escalão antes da viagem no General Mann. |
Vargas governava, a partir de 1937, como sempre pretendera, desde que se
pusera à frente da Revolução, de forma incontrastável,
sem freios e sem limitações, sem Congresso, sem governos estaduais
autônomos, sem partidos políticos, sem quaisquer eleições.
Nos primeiros sete anos de exercício no poder, enfrentara renovados
problemas de contestação. Havendo assumido o Governo Provisório,
a 3 de novembro de 1930, deposto os presidentes das unidades federativas,
dissolvido as assembléias estaduais e nomeado interventores, muito
cedo se voltariam contra ele as oligarquias regionais tanto que já
em 1932 São Paulo se revoltava exigindo a reconstitucionalização
do país, em um movimento armado de grandes proporções,
mas, felizmente, de curta duração, com as características
de verdadeira guerra civil.
Governando constitucionalmente a partir de 16 de julho de 1934, enfrentaria,
até novembro de 1937, o renascimento do centrifugismo político
e a projeção brasileira dos sistemas ideológicos totalitários
em expansão na Europa. De 34 a 37, a nação vivera em
permanente agitação política, culminando na feroz oposição
de Flores da Cunha no Rio Grande do Sul, no levante comunista de 35 e no alarmante
crescimento do movimento integralista que, antes de ser uma ridícula
macaqueação do nazi-facismo europeu, fora uma compreensível
opção de intelectuais brasileiros, nacionalistas acima de tudo,
igualmente descrentes da liberal-democracia e do marxismo leninista e stalinista.
Parecia-lhe haver chegado, afinal, a hora de realizar as grandes transformações
sócio-econômicas que haviam inspirado a revolução
nacional de 30, que corporificara o anseio revolucionário e nacionalista
dos anos vinte. Poderia, até mesmo, beneficiar-se da conturbação
do quadro internacional, primeiro com a ameaça da guerra e, depois
de deflagrada, manter, invocando a própria guerra, o poder discricionário
em suas mãos, e, acima de tudo, tirar o maior partido da luta entre
as grandes potências, com vantagens práticas para o Brasil, e
garantir, até onde fosse possível, uma neutralidade oportunista
e interesseira.
O Brasil era, então, um país com cerca de quarenta milhões
de habitantes, de economia essencialmente agrícola, baseada no café,
sem indústrias de base, sem telecomunicações e com poucas
rodovias e ferrovias. Precárias e empoeiradas estradas ligavam os centros
vitais, São Paulo e Rio, ao extremo-sul, a Belo Horizonte e a alguns
pontos do centro-oeste, mas ao Nordeste e ao Norte só se chegava por
via marítima, nas asas de incipiente aviação, ou em longos
e penosos trajetos que combinavam caminhos carroçáveis e trechos
fluviais. Dependíamos da importação de quase todos os
produtos essenciais e éramos carentes de energia, dado que ainda não
tínhamos as grandes usinas hidrelétricas que viriam depois.
Para sacudir a nação sem motivação psicológica
consistente e duradoura, sem confiança em si mesma, deprimida e desalentada
em seus complexos de inferioridade e de colonialismo, Vargas fez da propaganda
institucionalizada um dos vetores principais de seu governo, aproximou-se
da juventude, procurou exaltar a nossa raça e se aliou a muitos intelectuais
comprometidos com a pregação nacionalista da Semana de Arte
Moderna de 22 e, especialmente, se valeu do talento musical do grande Villa-Lobos.
As Forças Armadas antes da guerra
Desde 1870, terminara para o nosso Exército o ciclo das guerras externas,
que o havia mantido em estado de permanente adestramento. Do fim da Monarquia
ao fim da Primeira República, nossa força terrestre estivera
envolvida apenas em desgastantes questões internas, que lhe corroíam
a operacionalidade, a disciplina e os princípios hierárquicos,
tudo culminando nos movimentos tenentistas que desaguaram na Revolução
de 30.
Para reverter o processo de decadência militar e reforçar o
espírito profissional pensou-se, no princípio do século,
em trazer, para o Exército, uma missão militar alemã,
propósito que se materializou, por força do desfecho da 1ª
Guerra Mundial, na vinda, em 1920, da Missão Militar Francesa. Graças
aos notáveis esforços realizados pelos ministros Calógeras
e Hermes da Fonseca em favor do reequipamento da força terrestre e
à operosidade dos franceses, que montaram um admirável sistema
de ensino militar, tínhamos, nas antevésperas da guerra, o Exército
caracterizado por uma oficialidade de excelente nível cultural, por
estrutura militar que copiara a organização, os processos de
combate, os regulamentos, a doutrina, afinal, do Exército Francês,
e por equipamento heterogêneo, de diversas procedências, quase
todo remanescente da guerra anterior.
Nossa Marinha de Guerra, que trazia das lutas externas notável tradição
de eficiência e de excelência de seus quadros, dispunha de navios
cujas datas de construção no estrangeiro variavam de 1908 a
1917. A esquadra antiga compreendia, principalmente, os dois velhos encouraçados,
"São Paulo" e "Minas Gerais", dois cruzadores ligeiros
- "Bahia" e "Rio Grande do Sul", sete contra torpedeiros
e quatro submarinos. Estava em curso, desde 1936, um programa de renovação
e, na medida em que se foi configurando nossa posição de solidariedade
aos aliados, a frota foi sendo reforçada com navios obtidos nos Estados
Unidos, pela Lei de Empréstimos e de Arrendamentos.
Nossa aeronáutica militar vivia sua fase embrionária, ainda
situada no Exército e na Marinha, na Arma de Aeronáutica e no
Corpo de Aviação Naval. Somente em 20 de janeiro de 1941 haveria
de ser criado o Ministério da Aeronáutica.
As antevésperas da guerra
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| O soldado José Maria
Torres, mineiro de Viçosa, foi o pracinha que disparou o primeiro
tiro contra os alemães. |
A ascensão de Hitler à condição de Chanceler
da Alemanha a 30 de janeiro de 1933 e, a partir de então, sua obstinação
em promover o renascimento do poderio bélico germânico e sua
audaciosa política exterior de expansão demonstraram ao mundo
que a paz de Versalhes fora apenas uma trégua.
Sob os sucessivos governos de Vargas - o provisório, o constitucional
e a ditadura - simultaneamente com as nossas crises político-militares,
nossos confrontos, contradições e inquietudes, a nação
brasileira viu, à distância, preparar-se a grande guerra que
também haveria de afetar-nos. Viu Hitler abandonar ruidosamente a Liga
das Nações, rearmar aceleradamente a Alemanha, rasgando os tratados
de Versalhes e Locarno, ocupar militarmente a Renânia em 36, experimentar
seu poder bélico na Guerra Civil Espanhola, anexar a Aústria
em 38, invadir o território dos sudetos na Tchecoslováquia e,
afinal, a 1º de setembro de 1939, invadir a Polônia, provocando
a declaração de guerra da França e da Inglaterra.
Em princípios de 1939, tendo em vista a inevitabilidade da guerra
na Europa e antevendo suas possíveis repercussões sobre o continente
americano, os Estados Unidos tomam a iniciativa de estreitar o relacionamento
com o Brasil e de propor um sistema de consulta para o caso de ameaça
à paz geral.
O marco fundamental do esforço norte-americano de aproximar-se do
Brasil é o convite do Presidente Franklin Roosevelt, a 6 de janeiro
de 1939, a Oswaldo Aranha, nosso Ministro de Relações Exteriores,
para uma entrevista pessoal em Washington, realizada já em fevereiro.
Aranha transforma-se, a partir de então, no grande artífice
do estreitamento das relações econômicas e militares entre
os dois países. Dando continuidade a esse entendimento inicial, em
maio chega ao Brasil a missão militar norte-americana chefiada pelo
general Marshall e, em junho, nosso Chefe do Estado-Maior do Exército,
General Góis Monteiro, visita os Estados Unidos e almoça na
Casa Branca com o Presidente Roosevelt.
Sabem as autoridades norte-americanas que, uma vez deflagrada a guerra, ela
se estenderá através dos mares e que o litoral do Norte e do
Nordeste brasileiro serão fundamentais para a defesa do continente
e para a movimentação de tropas para o norte da África.
O renovado empenho de aproximação com o Brasil visa à
possibilidade de implantação de bases aéreas e navais
em nosso litoral, assim como garantir a obtenção de matérias-primas
então consideradas estratégicas. Em contrapartida, o interesse
brasileiro se situa basicamente em conseguir ajuda para a criação
de uma grande usina siderúrgica, verdadeira obsessão de Vargas,
e para o reequipamento de nossas Forças Armadas.
Esforços semelhantes realizam alemães e italianos, também
com aceitação da parte brasileira. Em março de 1938,
a fábrica Krupp, alemã, firma contrato de fornecimento ao Brasil
de grande quantidade de armamento. Em 1939, chegam missões da Itália
e da Alemanha para estreitarem o comércio com o Brasil, recebe-se proposta
alemã para a instalação de uma usina siderúrgica
e o General Góis Monteiro aceita convite para assistir às manobras
do Exército Alemão. Visam os nazistas à obtenção
de simpatizantes e aliados em nosso continente para a emergência de
um futuro confronto com os Estados Unidos. Sua estratégia expansionista
é semelhante à empregada nos países europeus, incentivando
a arregimentação de minorias nazistas em nosso próprio
território, formadas pelos imigrantes alemães e seus descendentes,
localizados no sul do país, especialmente em Santa Catarina e no Rio
Grande do Sul. Na medida em que o governo brasileiro se dispõe a combater
essa insidiosa infiltração, com decidida política de
nacionalização das áreas nazificadas, criam-se incidentes,
que a intermediação da diplomacia italiana procura contornar.
Não obstante os problemas criados pela presença das minorias
alemãs em nosso território, sabe-se que há simpatias
pelos nazi-fascistas dentro do próprio governo brasileiro e em altos
escalões das Formas Armadas, sobretudo no Exército, onde pontificam
oficiais que fizeram estágios no Exército Alemão e têm
profunda admiração por seu poderio bélico. Até
mesmo o próprio Vargas nutre grande simpatia pessoal por Mussolini,
a quem vê como o estadista que transformou a Itália, levando-a,
da anarquia e do caos, para a ordem e o poderio.
Nas antevésperas da guerra, ainda que manietada por uma rígida
censura, a imprensa brasileira, na flagrante maioria de seus órgãos,
cumpre sua missão de ajudar a opinião pública brasileira
a encontrar o caminho consentâneo com o seu amor à justiça
e à liberdade, e dirigido para o verdadeiro interesse nacional.
O pré-guerra brasileira
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| As enfermeiras brasileiras na frente tiveram um papel
destacado na assistência aos pracinhas feridos. |
Semanas depois de iniciada a guerra na Europa, encerra-se no Panamá,
a 3 de outubro de 1939, a primeira reunião de consulta dos ministros
de relações exteriores com a ratificação da posição
de neutralidade dos países americanos, não obstante haver Sumner
Welles, o representante norte-americano, alertado os demais governos para
o caráter ilusório dessa neutralidade. Já em dezembro
os dramáticos episódios da perseguição da frota
britânica ao couraçado de bolso "Graf Spee", seu internamento
no porto de Montevidéu e conseqüente auto-destruição,
eram sinais evidentes da neutralidade impossível tendo em vista os
transtornos trazidos pelo bloqueio marítimo imposto pelos beligerantes.
1940 assinala arrasadoras vitórias do Exército Alemão
que, em 9 de abril, invade a Dinamarca e a Noruega e, em 10 de maio, a França,
a Bélgica, a Holanda e o Luxemburgo, terminando, já a 4 de junho,
a Batalha de Dunquerque, com a retirada das tropas aliadas através
do Canal da Mancha. Tais êxitos assanharam os brasileiros germanófilos
e aumentam as oscilações de Vargas, em sua política pendular.
Há avanços e recuos na aproximação com os Estados
Unidos, na medida da aceitação ou rejeição dos
pleitos de natureza econômica, especialmente os referentes à
concretização do plano siderúrgico. Uma semana depois
da derrota de Dunquerque e às vésperas da chegada dos alemães
a Paris, Vargas, a bordo do couraçado "Minas Gerais", faz
discurso considerado simpático às potências do Eixo. No
entanto, a 30 de julho de 1940, encerra-se a segunda reunião de consulta
dos chanceleres do continente, com a aprovação da ata em que
as nações americanas declaravam que todo atentado a qualquer
dos países do continente seria considerado como agressão à
América inteira. O ano de 1940 se encerra com incidentes entre navios
mercantes brasileiros e belonaves britânicas: aprisionamento em Gibraltar
do "Siqueira Campos", transportando material bélico comprado
na Alemanha, e a intercepção do "Itapé", por
um cruzador britânico, para que dele fossem retirados alguns viajantes
alemães.
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| Em uniforme de inverno, em dezembro de 1944, patrulha
da FEB se prepara para incursão às linhas alemãs. |
Em 1941, havendo a guerra se alastrado pelo norte da África e assim
tornado mais tangíveis as ameaças ao nosso continente, muito
progrediram nossos entendimentos com os norte-americanos, enquanto surgiam
nossos primeiros incidentes marítimos com os alemães: o ataque
ao "Taubaté" navegando de Chipre para Alexandria e a interceptação
do "Siqueira Campos" por um submarino nas proximidades das ilhas
de Cabo Verde.
O afundamento da esquadra norte-americana, a 7 de dezembro de 1941, em conseqüência
do ataque japonês a Pearl-Harbour, precipitaria a declaração
continental de solidariedade à América agredida, e, a 28 de
janeiro de 1942, o Brasil romperia relações com a Alemanha,
a Itália e o Japão.
Em conseqüência do estado de beligerância existente entre
o Eixo e os Estados Unidos, assim como da ruptura de relações
dos demais países americanos, os alemães decidiram mudar o esforço
de sua campanha submarina, das Ilhas Britânicas para o litoral do continente
americano, a fim de bloquear o apoio dos Estados Unidos a seus aliados. Com
bases na França, nos Países Baixos, na Alemanha e em alguns
pontos do próprio continente americano, os submarinos alemães
procuraram interceptar os principais feixes de comunicações
marítimas, conseguindo alcançar a cifra de um milhão
de toneladas de navios torpedeados e afundados mensalmente. Havendo cortado
nossas relações no auge da guerra submarina, também haveríamos
de pagar o alto preço de nossa solidariedade: 742 vidas entre tripulantes
e passageiros, mortos ou desaparecidos em 19 navios: "Bagé",
"Cabedelo"; "Buarque"; "Olinda"; "Arabutã";
"Cairu"; "Parnaíba"; "Comandante Lira";
"Gonçalves Dias"; "Alegrete"; "Pedrinhas",
"Tamandaré", "Piave", "Baependi", "Araraquara",
"Anibal Benévolo", "Itagiba", "Arará"
e "Jacira".
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| O General Dutra (c) examina o mapa de operações
durante sua visita à frente. |
A escalada da agressão no mar atingira seu ponto culminante na segunda
quinzena de agosto, quando foram torpedeados, no espaço de dois dias,
cinco navios, no mar raso das costas de Sergipe e Alagoas. O drama de nossa
Marinha Mercante comovia a nação. A imprensa brasileira cumpria
o seu papel ao fazer-se o grande porta-voz do povo que, nas ruas, exigia a
declaração de guerra, afinal decretada a 22 de agosto de 1942.
A declaração de guerra do Brasil aos estados totalitários
teria como conseqüências imediatas a mobilização
nacional, econômica e militar, o incremento das medidas de proteção
ao tráfego marítimo e de defesa do nosso território,
e, como conseqüência principal, a criação de um instrumento
militar especificamente destinado à participação direta
no conflito. As medidas imediatas, que, aliás, já estavam em
curso desde os entendimentos iniciados pelos Estados Unidos para a defesa
do hemisfério, foram incentivadas, vindo a compreender importante participação
de nossa Marinha de Guerra na missão de escolta a comboios de navios
nacionais e aliados, da nascente Força Aérea Brasileira no patrulhamento
de nosso litoral e do Exército, no fortalecimento do Teatro de Operações
do Nordeste, que passou a ser o prioritário.
A preparação da Força Expedicionária Brasileira
Pensou-se, inicialmente, em formar uma Força Expedicionária
constituída por um Corpo-de-Exército, a três Divisões
de Infantaria, com efetivo aproximado de 60.000 homens. A 1ª Divisão
de Infantaria Expedicionária - 1ª DIE seria constituída
com unidades da 1ª Região Militar (Rio de Janeiro), 2ª RM
(São Paulo) e 4ª RM (Minas Gerais), com previsão de que
as seguintes seriam formadas no Nordeste e no Sul.
Somente quase um ano depois de declarada a guerra foi emitido o primeiro
ato de efetiva criação da força expedicionária
- a Portaria Ministerial nº 47-44, de 9 de agosto de 1943, que estabeleceu
as primeiras normas gerais de estruturação da 1ª DIE, e,
no mesmo dia, o Ministro da Guerra, General João Eurico Gaspar Dutra,
formalmente, convidou o General-de-Divisão João Baptista Mascarenhas
de Moraes para comandá-la, convite imediatamente aceito.
Grande-unidade básica da Força Terrestre, a Divisão
de Infantaria era, na organização americana daquele tempo, constituída,
essencialmente, por três regimentos de infantaria, formados, cada um,
por três batalhões, igualmente integrados por três companhias
de fuzileiros. A essa organização rigidamente ternária
correspondiam os indispensáveis apoios de artilharia e engenharia,
capazes de incrementar a potência de fogo e a capacidade de movimento
da infantaria. Na composição da 1ª DIE adotou-se critério
mais político do que militar, pois em vez de adaptar-se, como um todo,
umas das divisões já existentes, preferiu-se formar uma mescla
de unidades aquarteladas no Rio, em São Paulo, Minas Gerais e em Mato
Grosso. Assim, o 1º Regimento de Infantaria - 1º RI - tinha sede
no Rio, o 2º em Caçapava (SP) e o 3º em São João
DeI Rei (MG). Dos três grupos de obuses auto-rebocados, de 105 mm, destinados
ao apoio direto de cada regimento, dois se formaram no Rio e o terceiro em
Quitaúna, São Paulo. O grupo de artilharia pesada, destinado
preferentemente às ações de conjunto da Divisão
formar-se-ia pela transformação do Grupo-Escola de Artilharia,
estacionado em Deodoro, no Rio de Janeiro. E o 9º Batalhão de
Engenharia foi organizado em Aquidauana, . Mato Grosso. Cumpre, porém,
notar que a 1ª DIE não foi integrada, apenas, por cariocas, paulistas,
mineiros e mato-grossenses, pois, para manter o efetivo de cerca de 25.000
homens que compuseram a 1ª DIE e seus órgãos complementares,
foram convocados brasileiros de toda a parte, havendo passado por exigente
inspeção de saúde contingente muitas vezes maior.
Os últimos meses de 1943 foram utilizados na tomada de inúmeras
providências, principalmente movimentação de oficiais
da ativa, convocação de oficiais da reserva e reservistas, transformação
de efetivos e adaptação da instrução militar aos
métodos e processos preconizados pela doutrina militar do Exército
dos Estados Unidos, com a ajuda de um grupo de oficiais norte-americanos e
o envio de oficiais brasileiros para estágios intensivos no exército
aliado.
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| Roosevelt (c) e Getúlio, atrás, de chapéu,
durante o encontro de Natal, em fevereiro de 1943. |
Em princípios de dezembro de 1943, antes mesmo de ser nomeado Comandante,
o general Mascarenhas de Moraes acompanhado de brilhante comitiva de oficiais
brasileiros e americanos, visitou o norte da África e a Itália,
onde se deteve nas frentes de combate. Lá estavam a seu lado, entre
outros, o General Anor Teixeira dos Santos, o Coronel Médico Emanuel
Porto, o Tenente-Coronel Ademar de Queiroz, o Major Aguinaldo Senna Campos,
e os Coronéis Aviadores Vasco Secco e Nelson Lavanère-Wanderley.
Entre os americanos, havia o Capitão Vernon Walters, um extraordinário
poliglota que, depois da guerra, ficaria famoso por suas "missões
silenciosas", a serviço dos Estados Unidos, em diversos países,
inclusive no Brasil, a que se ligou de forma extremamente afetiva. Com essa
proveitosa viagem se definia o teatro de operações onde os brasileiros
iriam operar.
Iniciando, em janeiro de 1944, sua ação de comando, Mascarenhas
providenciou a concentração de todas as unidades da 1ª
DIE na área do Rio de Janeiro, utilizando-se de aquartelamentos já
existentes e de acantonamentos preparados para esse fim.
Na segunda quinzena de março se ultima a concentração.
Constatada a inexistência de especialistas para um gama enorme de funções
militares previstas na organização americana, fazem-se convocações
especiais e cursos de emergência no Centro de Instrução
Especializada, então criado para atender as necessidades da FEB. De
abril a julho, intensificou-se a preparação militar, realizada
com uma série de restrições, inclusive por carência
do material bélico com que iria combater. A 24 de maio de 1944, a 1ª
DIE realizava um grande desfile pelo centro da cidade, em uma espécie
de despedida, posto que já havia sido alertada sobre a possibilidade
de viagem para além-mar, na segunda quinzena de junho, de um primeiro
escalão de tropas.
Para assegurar o sigilo do embarque, o estado-maior da 1ª DIE preparou
um plano de manobras, em que durante o provável período de chegada
do transporte de guerra, a Divisão, subdividida em três grupamentos
táticos, formados à base de cada um dos regimentos, partiria
para as regiões de Santa Cruz, Nova Iguaçu e Recreio dos Bandeirantes,
áreas destinadas a seus respectivos exercícios. Na noite de
29 para 30 de junho, os grupamentos 1 e 3 seguiram para seus destinos, mas
o segundo, formado à base do 6º RI, dos paulistas de Caçapava,
seguia, de trem, para a área do Cais do Porto. Na noite de 30 de junho,
o Presidente Vargas despedia-se dos expedicionários a bordo do "General
Mann" que, na manhã do dia 2 de julho, zarpava com destino a Nápoles
na Itália, escoltado, até Gibraltar, por navios de guerra nacionais
e norte-americanos. Os outros dois terços da 1ª DIE, os grupamentos
táticos formados à base do 1º e 11º RI viajaram para
o teatro de operações, a 22 de setembro de 1944, no "General
Mann" e no "General Meigs", respectivamente, constituindo o
que se chamou o 2º e o 3º escalões de embarque. Outros dois
escalões, o 4º e o 5º, seguiram, a 23 de novembro de 1944
e a 8 de fevereiro de 1945, conduzindo as duas partes do Depósito de
Pessoal da FEB, unidade de recompletamento de pessoal indispensável
em campanha.
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| Uma visão do campo de batalha de Montese (ao
fundo). |
Somente na Itália puderam os três grupamentos táticos
da 1ª DIE receber o equipamento bélico com que iriam lutar e realizar
seu adestramento final. Chegando a Nápoles a 16 de julho, o 1º
Escalão dirigiu-se, inicialmente, para o estacionamento de Agnaro,
no subúrbio napolitano de Bagnoli, deslocando-se, entre 1 e 5 de agosto,
para a região de Tarquínia, onde foi incorporado ao V Exército
norte-americano, e daí para Vada, para submeter-se a intenso treinamento
final.
Os grupamentos táticos formados pelo 1º e 11º RI chegaram
a Nápoles no dia 6 de outubro e aí prosseguiram viagem, também
por via marítima, até Livorno, em 55 LCI, embarcações
de desembarque adequadas a operações de invasão. Essa
viagem, extremamente penosa devido a forte tormenta, teria levantado a suspeita,
nos serviços de informações alemães, de que se
tratasse de uma nova operação de desembarque, destinada ao sul
da França ou mesmo ao golfo de Gênova. De Livorno, a parte maior
da 1ª DIE seguiu, em caminhões, para o estacionamento da Quinta
Reale de San Rossore, perto de Pisa, e daí para a área de Filétole,
a fim de ultimar seu adestramento.
A 19 de agosto, depois de assistir à invasão do sul da França,
o Primeiro-Ministro Winston Churchill visitou tropas do V Exército,
em Cecina, onde, identificando soldados brasileiros, referiu-se elogiosamente
à participação do Brasil na guerra.
O Teatro do Mediterrâneo
Ao chegar à Itália, em julho de 1944, o 1º escalão
da FEB se incorporara ao V Exército, comandado pelo General Mark Clark,
no final da ofensiva que, desde a queda de Roma, se fazia no encalço
de um inimigo em retirada para o norte. Depois da tomada de Livorno, Pisa
e Siena, o V Exército perdera o VI Corpo Americano e o Corpo Expedicionário
Francês, levados para a invasão do sul da França, no rumo
da Provença. Desfalcado o V Exército de algumas de suas melhores
tropas, a 1ª DIE chegava em hora crítica, de extrema escassez
de efetivos. Chegava na hora em que as operações na península
italiana deixavam de ser as principais do Teatro de Operações
do Mediterrâneo, pois estava claro que a sorte da guerra seria decidida
na França, já invadida pelo sul. Ao V e VIII Exércitos,
norte-americano e britânico, do lado do Tirreno e do lado do Adriático,
cumpria fixar as forças alemãs que ainda combatiam na Itália
e impedi-las de reforçar as frentes principais, cumprindo esclarecer
que os efetivos em confronto já não eram desiguais e que o propósito
de "fixar" pressupõe a permanência da atitude ofensiva.
Foi nesse quadro que a FEB participou das ações a seguir relatadas.
Para melhor compreensão do que foi a luta dos nossos pracinhas, deve-se
preliminarmente afirmar que a carência de recursos humanos na frente
italiana depois da transferência de experientes tropas para o sul da
França e o imperativo de nossa permanência na frente de combate
impuseram-se operações difíceis, em terreno e clima ingratos,
e, não raro, com mínimas possibilidades de êxito. Sempre
em ação guarnecendo setores acima das possibilidades de seus
meios, jamais atacando com a Divisão inteira na potencialidade de seus
três regimentos de infantaria, antes fazendo prodígios, conseguindo
dispor de atacantes com o sacrifício e o risco dos defensores, o comando
brasileiro não se poderia permitir veleidades de brilho operacional,
e teria de ser o que foi: bom senso antes, equilíbrio e poupança
sempre, nunca bonapartismo e aventura. Daí o dizer-se que, para nós,
a Campanha da Itália, sobre ser uma guerra de montanha, foi uma guerra
de Sargentos, de Tenentes e de Capitães. E daí ter sido o soldado,
o nosso querido e anônimo pracinha, o seu herói maior.
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| Contingentes da FEB deixam Montese, após conquistá-la,
e rumam para o vale do rio Panaro. |
Também uma palavra preliminar sobre o direto acompanhamento das operações
pela nossa imprensa, no trabalho de seus correspondentes de guerra. Para melhor
compreender sua atuação é preciso ter em vista, além
das limitações já assinaladas, que não tínhamos
qualquer experiência nesse tipo de função, para a qual
ninguém se prepara antecipadamente, e que, por outro lado, não
havia, de parte de nossas tropas, a necessária capacidade para integrar,
os correspondentes ao conjunto, corno se eles também fossem combatentes.
O êxito de homens como Joel Silveira, Rubem Braga, Egydio Squeff, José
Barreto Leite e Raul Brandão resultou, assim, tão-somente, de
seu talento jornalístico e literário, de sua sensibilidade e
de seu valor humano, e, acima de tudo, da total consagração
à causa por que lutávamos. Em verdade, foram mais cronistas
do que correspondentes de guerra.
Há que dizer-se, ainda, que o noticiário de guerra é
sempre mais farto na guerra de movimento, quando há avanços
significativos a assinalar, desbordamentos e cercos, quedas de cidades, grande
número de prisioneiros, situações em que geralmente não
é tão penosa a vida do combatente. Ao contrário, quando
as frentes se estabilizam e não andam, diante de posições
fortificadas, nos entreveros das patrulhas de combate, geralmente não
há notícias a publicar nos jornais. E, no entanto, o dever bem
cumprido no posto defensivo, que ninguém sequer veio a saber, ou o
sacrifício do avião bombardeiro, atingido em silêncio,
no fragor dos arrebentamentos de suas próprias bombas, pode ter feito
pela causa comum o mesmo que o espetacular avanço de uma coluna blindada.
A fase inicial das operações
Como o grupamento tático formado pelo 6º RI houvesse chegado
à Itália quase três meses antes da maior parte da 1ª
DIE, tornou-se impositivo fazer a FEB atuar, inicialmente, com apenas um terço
de sua força operacional. O grupamento passou a chamar-se Destacamento
FEB, sob o comando do General-de-Brigada Euclydes Zenóbio da Costa,
diretamente subordinado ao 4º Corpo-de-Exército norte-americano.
Na noite de 15 para 16 de setembro, substituindo um batalhão americano
que perdera o contato com o inimigo, o Destacamento FEB inicia suas operações
em clima de marcha para o combate. Embora começássemos a operar
em fase extremamente favorável, diante de inimigo rarefeito e em retirada,
devíamos atuar, em uma larga frente, a cavaleiro do divisor de águas
entre o mar Tirreno e o rio Serchio, em terreno acidentado e rochoso, em que
teríamos de reencontrar o contato com o inimigo a fim de garantir segurança
ao flanco oeste do V Exército.
Atuando com muita prudência e certa lentidão, devido ao compreensível
nervosismo de combatentes estreantes, os dois batalhões de 1º
escalão, o 1º e o 2º do 6º RI, atingiram na jornada
de 16 de setembro de 1944 a linha Monte Comunale - Il Monte, tendo se apossado
de pequenas localidades, chamadas Massarosa, Bozzano e Quiesa, inquietados
apenas por esporádicos fogos de artilharia inimiga. Atuando com espírito
ofensivo e, aos poucos, ganhando velocidade, a tropa brasileira foi avançando
para o norte, sem maiores dificuldades, até obter seu primeiro êxito
de alguma expressão ao apossar-se, a 18 de setembro, da cidadezinha
de Camaiore, de cerca de 5.000 habitantes, sob forte oposição
de fogos de artilharia e morteiros, e levando de roldão pequenas resistências.
Avançara sobre Camaiore um destacamento especial, formado por pelotões
de fuzileiros e metralhadoras, de reconhecimento e de carros de combate norte-americanos,
comandado pelo Capitão Ernani Ayrosa da Silva.
Na jornada do dia 20, nas ações de estreitamento do contato,
fizemos os primeiros prisioneiros e sofremos nossas baixas iniciais. Depois
de perdermos cerca de seis dias diante do Monte Prano, tomamos posse da elevação
e começamos a infletir para o vale do rio Serchio, que bem se prestava
à ação retardadora realizada pelos alemães. Seguiu-se,
já na nova zona de ação, a captura das localidades de
Fornachi, Barga e Gallicano e, afinal, o ataque a San Quirico e Lama di Sotto,
realizado na jornada de 30 de outubro, e cuja posse por nossas forças
constituíra uma ameaça a Castelnuovo di Garfagnana, por onde
passava uma transversal rodoviária de importância vital para
a movimentação das reservas. Depois do ataque difícil
mas bem sucedido, sofremos, na madrugada de 31 de outubro, poderoso contra-ataque,
empreendido por forças especiais. Extenuados pelas longas marchas em
terreno montanhoso e já tendo se habituado a enfrentar adversários
sempre em retirada, nossos homens não tomaram as medidas de segurança
necessárias à consolidação de posições
recentemente conquistadas, sendo surpreendidos pela aparição
de soldados alemães que ainda não tinham visto, pois se tratava
de combatentes de elite, reservados para as ações de contra-ataque.
Além de cedermos terreno, voltando às posições
iniciais de onde partíramos, tivemos a lamentar a primeira perda em
nosso quadro de oficiais, com a morte do Tenente José Maria Pinto Duarte.
Terminavam ali as operações do Destacamento FEB, nas quais tivemos
290 baixas e conseguimos o saldo positivo de 40 km de vitoriosos avanços,
de 208 prisioneiros capturados e de uma experiência que haveria de servir-nos
para o resto da campanha.
No vale do pequeno Rio Reno
No dia 30 de outubro de 1944, o General Mark Clark, reunido no Passo de Futa
(40 km ao Sul de Bolonha), discutiu com os seus comandantes de corpos-de-exército
e divisões a situação do V Exército e as futuras
operações. Tendo em vista as enormes dificuldades que vinha
encontrando, especialmente na frente do II Corpo, pela fraqueza de seus efetivos
diante da reação ainda vigorosa do inimigo, resolvera suspender
temporariamente a investida sobre Bolonha, reajustar o dispositivo geral de
suas forças de forma a descansar as divisões do II Corpo, retirar
a divisão brasileira do vale do rio Serchio e levá-la para o
vale do pequeno rio Reno, a cavaleiro da estrada 64. Pretendendo retomar a
ofensiva ainda em dezembro, antes da chegada do inverno, atribuía ao
IV Corpo, a que pertencíamos, o encargo de realizar operações
preliminares para melhorar as condições de partida da ofensiva
geral.
Para cumprir as novas missões, o General Mascarenhas assumiu o comando
de todas as tropas de sua Divisão, a 1 de novembro, desfazendo, então,
o Destacamento FEB que, entre os dias 4 e 9, trocou a frente de combate de
Castelnuovo di Garfagnana pelo setor situado entre os rios Reno e Panaro.
Plantada nos contrafortes da cordilheira, entre o paredão das montanhas
e a costa do Adriático, a cidade de Bolonha é a grande porta
de acesso à riquíssima planície do Pó e caminho
para o Passo de Brenner, na fronteira com a Áustria. Conquistar Bolonha
era vencer a batalha da Itália. As forças aliadas procuravam
investir sobre aquele importante nó rodoferroviário por três
direções: a leste, a rota 9, a cargo dos ingleses do VIII Exército,
investindo-o frontalmente; e, por oeste, o V Exército com o II e o
IV Corpos, respectivamente, a cavaleiro das estradas 65 e 64. Havia já
três meses que americanos e ingleses acometiam Bolonha inutilmente,
suportando rigorosos contra-ataques e sofrendo as mais severas perdas. Esse
era o quadro da frente italiana quando a FEB começou a atuar totalmente
reunida: ataques dizimados, divisões inteiras necessitando de descanso;
frio, lama e sangue, desalento e dor.
As posições brasileiras no rio Reno, por onde corria a rota
64, ficavam nas encostas de um arco de elevações, em cujas partes
dominantes os alemães possuíam posições fortificadas:
Belvedere, Gorgolesco, Monte Castelo, Della Torracia, Torre di Nerone, Soprassasso.
Oblíquas em relação à estrada, as elevações
descortinavam e dominavam todos os nossos movimentos, sendo necessário
manter geradoras de fumaça em permanente funcionamento para proteger-nos
das vistas e dos fogos do adversário. Nessa privilegiada situação
topográfica e tática, em que o Monte Castelo era a parte mais
sensível, funcionando como uma espécie de charneira, combatia
a aguerrida 232ª Divisão de Infantaria Alemã.
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| Pilotos do último contingente do 1º Grupo
de Caça rumam para a frente. |
Guarnecendo uma frente que variou entre 15 e 20 km de largura, já
de si bastante para a defesa por uma só divisão, teríamos
também que atuar ofensivamente, não só para melhorar
as condições de partida da futura ofensiva, mas também
para aliviar a frente de Bolonha, onde as perdas aliadas eram alarmantes.
Tratava-se de faze-lo pressionando o adversário em outras partes da
frente, forçando-o a retirar alguns meios, que combatiam na defesa
da grande cidade, para os setores ameaçados. Impunha-se, pois, atacar
as posições fortificadas do inimigo em nosso setor; atacar incessantemente,
em um pedaço daquela frente extensíssima que também devíamos
defender. Atacar do sopé para o cume fortificado, ainda sem a necessária
experiência de combate; realizando ações frontais, sem
meios suficientes; sem o apoio de blindados, pouco próprios para o
combate na montanha e que se atolariam no lodo daqueles dias; na lama e no
frio, arrastando-se sob o castigo de pesados capotões e enormes galochas;
e sem a ajuda e o conforto da aviação, ausente daqueles terríveis
céus de novembro e dezembro de 1944. Cada soldado brasileiro tombado
nas encostas do Monte Castelo poupava o sangue de muitos combatentes de Bolonha
e permitia a recuperação de tantos outros que, desde a Sicília,
ou mesmo o Norte da África, vinham pagando o seu tributo.
Chegara a nossa vez de participar diretamente da luta pela causa da liberdade.
No quadro dessa defensiva agressiva, atacamos Monte Castelo quatro vezes
- a 24, a 25 e 29 de novembro e a 12 de dezembro - e quatro vezes fracassamos,
por insuficiência de meios para aquela larga frente e por terem sido
ataques frontais a posições fortificadas. Tendo em vista as
peculiaridades da situação, a Divisão, ao invés
de empregar centralizadamente os seus regimentos, acionava diretamente os
seus batalhões.
Assim é que, a 24 e 25 de novembro, um batalhão do 6º
RI atacou juntamente com a Task Force 45 norte-americana; no dia 29, o grupamento
de ataque estava formado por um batalhão de cada regimento; e, a 12
de dezembro, operamos com dois batalhões do 1º RI e dois do 11º
RI. Por duas vezes o soldado brasileiro chegou quase a dominar o morro sinistro,
mas não conseguiu firmar-se nas posições conquistadas.
De ataque para ataque crescia a soma de nossas perdas e sacrifícios
e, também, de nosso heroísmo e valia. Monte Castelo não
caíra, mas a missão estava sendo bem cumprida, pois, pressionados
no vale do Reno, os alemães traziam, apressadamente, da área
de Bolonha para a nossa frente, a 114ª Divisão Ligeira. O preço
dessa contribuição era o grande passivo de mortos e feridos,
a crescente fama da inexpugnabilidade de Monte Castelo e o visível
declínio do poder combativo e do estado moral de nossa tropa. Em um
dos batalhões do 1º RI que não conseguira firmar-se nas
posições conquistadas, surgira uma questão disciplinar
entre um comandante de companhia e seu comandante de batalhão, que
o processaria pelo "não cumprimento do dever em presença
do inimigo". Esse estado de espírito chegou a contagiar e a alastrar-se
a outras unidades. Substituído o batalhão do 1º RI por
um outro do 11º, este não resistiu, emocionalmente, ao assédio
de uma patrulha de combate alemã, em sua primeira noite na frente de
operações, de 2 para 3 de dezembro; foi acometido pelo pânico
e abandonou suas posições, reocupadas, na manhã seguinte,
por um batalhão do já experimentado 6º RI. Diante do ocorrido
com o 1º e o 11º RI, o General Mascarenhas decidiu afastar três
de seus capitães, e, em decisão exemplar, fazer a unidade que
sofrera pânico participar do próximo ataque a Monte Castelo.
Isso aconteceu a 12 de dezembro, quando o ataque uma vez mais fracassou, por
diversas circunstâncias, apesar do bom desempenho da tropa.
Os comandos brasileiro e americano bem souberam compreender o desgaste de
nossas tropas que, em circunstâncias normais, seriam retiradas da frente,
a fim de preparar-se, à retaguarda, para as futuras missões.
Mas isso não poderia se passar com a única Divisão brasileira,
porque seria retirar o Brasil do campo da luta. Com a chegada do inverno,
estabilizaram-se as operações, devendo a 1ª DIE defender
seu setor mantendo agressivo contato com o inimigo. Foi a fase vivida de 13
de dezembro a 18 de fevereiro, de extraordinária importância
para os destinos da FEB. Era a pausa de que necessitavam os comandos para
reorganizar e instruir. Era a hora dos Capitães, inexcedíveis
em seu papel de verdadeiros condutores da tropa. Eles puderam realizar, afinal,
na própria frente de combate, nossa verdadeira preparação
para a guerra, que não se concretizara nas áreas de treinamento
da Itália e muito menos no Brasil. Nas longas vigílias geladas,
repelindo investidas, suportando o castigo da experimentada artilharia alemã
ou indo, em patrulhas, às posições inimigas, nosso soldado
acreditou em si mesmo e esperou sua hora de avançar. Forjava-se, ali,
o instrumento de combate que nos levaria aos melhores dias e à vitória
final.
A ofensiva preliminar
Tão logo melhoraram as condições climáticas,
decidiu o comando da IV Corpo retomar a ofensiva para apossar-se do arco montanhoso
que dominava a rota 64, que de Pistóia ia a Bolonha por Vergato. Seria
uma operação preliminar de outra, de ampla envergadura, a ser
desfechada, quando viesse a primavera.
O nome do plano do IV Corpo, "Encore", que, se sabe, em francês,
significa ainda, bem revela as marcas deixadas pelos sucessivos ataques fracassados.
A ação ofensiva seria iniciada pelo ataque de flanco da 10ª
Divisão de Montanha sobre a crista Belvedere - Gorgolesco - Della Torracia,
devendo a 1ª DIE atacar, em um segundo tempo, sobre Monte Castelo - La
Serra, empregando, pela primeira vez, todo um regimento, o 1º RI, a quem
caberia o esforço principal, coberto o flanco direito pelo 2º
batalhão do 11º RI. A 10ª Divisão de Montanha fora
especialmente preparada para a guerra de montanha: era integrada por montanheses,
estava equipada com material especializado e realizara seu adestramento nos
Montes Rochosos americanos. Além disso, sua iniciação
na realidade da guerra fora realizada de forma lenta e gradual, com uma adequada
inoculação do combate feita ao lado de nossa 1ª DIE, participando
de patrulhas durante o inverno. Eram, assim, duas tropas extremamente solidárias
e confiantes, uma na outra.
A 10ª Divisão de Montanha iniciou seu ataque na noite do dia
19 de fevereiro e na manhã seguinte conquistou o Monte Belvedere surpreendendo
totalmente os alemães, que, no entanto, reagiram vigorosamente à
tomada de Gorgolesco, com poderosos contra-ataques. O ataque brasileiro iria
processar-se, desta feita, em conjunção com poderosas forças
aliadas, em direções convergentes e com apoio de blindados norte-americanos,
e de aviação, inclusive do nosso Grupo de Caça. Na noite
de 20 de fevereiro, o 1º batalhão do 1º RI, o mesmo que tivera
problemas depois do ataque do dia 29 de novembro, ultrapassou tropa norte-americana
em Mazzancana, e, juntamente, com o 3º/1º RI, à sua direita,
lançou-se sobre o Monte Castelo, enquanto o 2º/11º RI avançava
em direção a Abetaia, cobrindo o flanco do ataque principal.
Diante da obstinada reação inimiga, muitas foram as alternativas
da luta na jornada de 21 de fevereiro, caracterizadas pelas dificuldades encontradas
pelo 1º Batalhão com o atraso inicial da 10ª Divisão
da Montanha violentamente contra-atacada pelos defensores do Monte Della T
orracia devido a naturais flutuações da frente de combate. Ao
final da tarde, o 1º RI, principalmente por intermédio de seu
1º Batalhão, dominava inteiramente o Monte Castelo, encerrando
o capítulo que mais marcara a sensibilidade dos soldados brasileiros
durante toda a campanha. De posse dos Montes Castelo e Della Caselina, nossas
tropas prosseguiram seu avanço, cabendo ao 2º/1º RI o êxito
maior, com o ataque e conquista de La Serra na noite do dia 23, vindo a alcançar,
na jornada do dia 25, ao lado do 2º/11º RI, a linha Roncovecchio-Senevegli
que caracterizava, para nós, o fim da 1ª fase do Plano "Encore".
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| Na maca, o transporte de um pracinha ferido num dos
assaltos a Monte Castelo. |
Tendo em vista facilitar a continuação do avanço da
10ª Divisão de Montanha na direção de Castel D'Aiano,
a 1ª DIE reajustou seu dispositivo, tomando a si a responsabilidade de
manter um setor subdividido em duas frentes. a fim de proporcionar, no centro,
um corredor para a atuação da 10ª, cujo impetuoso avanço
pelo divisor entre o Reno e o Panaro nos imporia a continuada cobertura dos
flancos da Divisão Americana, operações de limpeza no
vale do Marano e sucessivos reajustamentos do dispositivo. A leste, no vale
do Reno, competia à 1ª DIE apoderar-se de ponto forte alemão
localizado no Monte Soprassasso, um saliente de pedra, enquistado em nossas
linhas, que, no inverno, infernizara a vida dos brasileiros, e Castelnuovo
di Vergato, que também dominava a rota 64. A manobra realizada pela
1ª DIE, taticamente brilhante, consistiu no isolamento do ponto forte
de Soprassasso e na convergência de dois ataques sobre Castelnuovo:
o principal desbordava o saliente pelo flanco oeste, audaciosa e surpreendente
investida do 6º RI ao longo das cristas, enquanto os 1º e 2º
batalhões do 11º RI realizavam a fixação frontal
do inimigo. Castelnuovo completava, assim, a 5 de março, o papel de
Monte Castelo nessa ofensiva limitada que permitira ao IV Corpo conquistar
alturas, observatórios e boas linhas de partida, indispensáveis
à grande ofensiva da Primavera.
Terminadas as operações do Plano "Encore", o IV Corpo
reajustou seu dispositivo, tendo a 1ª DIE sido substituída por
tropas americanas no eixo da estrada 64 e assumido responsabilidades de extenso
setor, compreendido entre Capella di Ronchidos e Sassomolare, com vistas sobre
o vale do Panaro e tendo em frente o baluarte de Montese, importante nó
de estradas e elevações. Aí. vivemos, de 6 de março
a 14 de abril, um período de defensiva agressiva, caracterizado por
intensa atividade de patrulhas e pelo elevado moral da tropa brasileira, já
então formada por combatentes aguerridos e experimentados. Em uma dessas
patrulhas, tivemos a lamentar a perda do 3º Sargento Max Wolff Filho,
do 1º/11º RI, que, em ações . anteriores, já
se havia consagrado como um dos maiores heróis da FEB e merecido a
promoção ao oficialato por ato de bravura, a primeira então
concedida. O Sargento Wolff morreu à frente de seus homens, comandando
um pelotão que realizava uma patrulha de reconhecimento e combate,
episódio narrado, brilhantemente, pelo jornalista Joel Silveira, um
dos feitos mais relevantes de nossos correspondentes de guerra.
A Ofensiva da Primavera
A Ofensiva da Primavera, na Itália, começaria, a 10 de abril,
com uma ação preliminar, do VIII Exército, para limpar
a planície existente a leste do Bolonha. O ataque principal, a cargo
do V Exército, previsto para iniciar-se no dia 12, mas retardado pelo
mau tempo para 14, desembocaria das montanhas e capturaria ou isolaria Bolonha.
De posse de Bolonha, os dois exércitos cercariam todas as forças
do sul do rio Pó, transporiam o rio e conquistariam Verona.
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| Montese foi conquistada. As tropas vitoriosas fazem
uma pausa na pequena cidade semi-destruída. |
No âmbito do V Exército, o esforço principal caberia
ao nosso IV Corpo, com a 10ª Divisão de Montanha irrompendo pelo
divisor entre os rios Reno e Panaro, tendo à direita a 1ª Divisão
Blindada, que, pela estrada 64, avançaria sobre Bolonha, e, à
esquerda, a 1ª DIE, a quem competiria cobrir o flanco da 10ª e estar
preparada para perseguir o inimigo em retirada.
A participação da 1ª DIE a 14 de abril, dia inicial da
ofensiva, compreendeu uma fase inicial, com o lançamento de fortes
patrulhas destinadas a capturar a linha Casone - II Cerro-Possessione-Cota
745, e uma segunda fase, de ataque propriamente dito, que pretendia romper
a posição inimiga e conquistar a região de Montese-Cota
888-Montelo. O esforço principal coube ao 11º RI, em seus 3º
e 1º batalhões em 1ºescalão, coberto, à direita,
pelo 1º RI.
Coube a uma das companhias do 1º Batalhão do 11º RI, aquele
que vivera o episódio do pânico na noite de 2 para 3 de dezembro,
o audacioso feito de assaltar Montese, levando o êxito a todo no nosso
dispositivo de ataque, naquele terrível primeiro dia de ofensiva, em
que os resultados alcançados pelos brasileiros foram bem mais favoráveis
que os das outras Divisões do IV Corpo.
Registre-se, a propósito, fato bem comprovador do senso de humor dos
brasileiros. Havendo, no tempo da guerra, um samba popular com um verso que
dizia "Laurindo desceu o morro chorando", o batalhão do pânico
passou a ser conhecido, em toda a FEB, como o "Laurindo". Pois bem,
ao apossar-se de Montese, depois do mais difícil e sangrento combate
da campanha da FEB, os soldados daquele batalhão exclamavam, em desabafo
e desagravo, que o "Laurindo" tinha subido o morro.
A notável tomada de Montese custou caro aos nossos combatentes, pois,
temendo que Montese fosse a chave da ofensiva, e cuidando ver nos carros de
combate norte-americanos, que apoiavam a ação da FEB, o próprio
desembocar da Divisão Blindada, o nazista desfechou sobre Montese conquistada
a maior concentração de artilharia desde a cabeça-de-ponte
de Anzio. E livres desse castigo, argumento reservado para opor-se ao esforço
principal, e que afinal nos coube como preço de haver chegado a Montese,
lá se foram, nos dias seguintes, a Montanha e a Blindada, irresistíveis,
para o vale do Pó, enquanto mais dura e sangrenta se tornava a luta
nas alturas em volta de Montese, Montebufone, Serreto e Paravento.
O sucesso do ataque da Montanha e da Blindada, a partir de 16 de abril, acarretou
a ruptura das posições inimigas e abriu caminho para a retomada
do livre movimento, nas direções de Zocca e do médio
Panaro. Iria iniciar-se a grande perseguição empreendida pelo
IV Corpo. Rompida a frente, o comando da 1ª DIE, na tarde de 19 de abril,
lançou o 1º Esquadrão de Reconhecimento, a nossa cavalaria
mecanizada, primeiro para o vale do rio Panaro e, depois de conquistada a
cidade de Zocca, para o além-norte desse importante nó rodoviário.
Ao amanhecer do dia 22 de abril, a 1ª DIE recebia as missões
de avançar, sobre o vale do rio Pó, na direção
noroeste; cobrir o flanco do IV Corpo e bloquear a retirada dos alemães,
dos Apeninos para o norte e nordeste. Era a FEB de repente espalhada pelas
estradas e cidades do mapa do norte da Itália, depois de haver disputado
durante meses, com sofrimento e sangue, cada palmo do chão lamacento
ou gelado do Monte Castelo.
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| A missão da Marinha exaltada no cartaz do DIP. |
Considerando que a 1ª DIE, ao contrário das outras divisões,
não era totalmente motorizada e que o IV Corpo não tinha como
suprir suas necessidades de transportes, o General Mascarenhas decidiu aproveitar
as viaturas orgânicas da artilharia divisionária no transporte
das tropas de infantaria. Com o Esquadrão de Reconhecimento realizando
a missão típica de cavalaria mecanizada e a infantaria bem impulsionada
pelo comando da 1ª DIE, a 23 alcançou-se o rio Serchio; a 24 e
25 o rio Enza; a 26 e 27 a região de Colecchio; e finalmente, a 28,
Fornovo di Taro, onde se travou um pequeno combate, resultado no feito espetacular
da rendição da 148ª DI alemã, de remanescentes da
90ª Divisão Panzer e da Divisão Bersaglieri Itália,
no dia 29 de abril de 1945. As glórias maiores desse episódio
couberam ao Esquadrão de Reconhecimento e ao 6º RI. Aquele pequeno
esquadrão de cavalaria detectou o inimigo em Collechio e, audaciosamente,
exigiu sua rendição, até que o comandante do 6º
RI, como vanguarda da 1ª DIE, antes de desferir o ataque final a Fornovo
di Taro, enviou um ultimatum ao comando alemão para que se rendesse
incondicionalmente ao comando das tropas regulares do Exército Brasileiro,
que estavam prontas para atacar mas que desejavam poupar inúteis sacrifícios.
Na noite do dia 29, o chefe do Estado-Maior da 148 chegava ao posto de comando
brasileiro para os entendimentos finais da rendição de quase
15.000 homens com todo o equipamento de suas divisões. Nesse feito
espetacular, os soldados do 6º RI reviam os adversários que haviam
infligido seu primeiro revés, no terrível contra-ataque da madrugada
de 30 de outubro, melancólicos remanescentes do famoso "Afrika
Korps" de Rommel.
Ao tempo em que o avanço da 1º DIE cercava o inimigo, que procurava
se retirar para o norte, na vasta área compreendida entre os Apeninos
e o mar Tirreno, unidades do IV Corpo. aprofundaram, na jornada de 25 de abril,
sua cabeça-de-ponte no rio Pó e se lançaram na direção
de Verona. Os êxitos do IV Corpo resultaram no recrudescimento das atividades
dos "partigiani", os "maquis" italianos, que deflagraram
a insurreição final, e, nos últimos dias de abril e primeiros
de maio, levaram o terror às cidades do norte da Itália, principalmente
a Milão, na impiedosa caça aos fascistas, culminando na eliminação
do próprio Mussolini.
Nos últimos dias de abril, enquanto o 6º RI ainda estava às
voltas com os problemas da rendição das divisões inimigas,
o restante da 1º DIE ocupava a região de Alessandria e daí
se lançava para o norte e noroeste articulado em grupamentos táticos.
O GT 1, substituindo tropas da 34ª DI americana, ocupou Piacenza e Castelvetro.
O GT 11, precedido pelo Esquadrão de Reconhecimento, chegou a Turim.
no dia 2 de maio, encontrando-a convulsionada pelo terror desencadeado pelos
"partigiani", e se lançou, no mesmo dia, à ligação,
em Susa, na fronteira franco-italiana, com a 27ª Divisão do Exército
Francês.
O fim da guerra na Itália, a 2 de maio, lá os encontrou. Nesse
ponto, o mais na vanguarda de todas as forças brasileiras, estavam
os soldados daquela companhia do 1º/11º RI, que mais sofrera a noite
do pânico em difícil momento da campanha, os "Laurindos"
que haviam aprendido a subir o morro. Espalhados pelo mapa do norte da Itália,
todos os combatentes da FEB sentiam haver bem cumprido o mandato que o povo
lhes confiara para o desagravo de nossos navios afundados e das vidas perdidas
no mar.
Ocupação militar e retorno ao Brasil.
Cessadas as hostilidades, a 1ª DIE participou da ocupação
militar até 20 de junho, com o GT 1 em Piacenza, o GT 6 em Tortona-Voghera
e o GT 11 em Salvatore, Alessandria e Solero.
A 4 de maio, o General Truscott, que sucedera Mark Clark no comando do V
Exército, ofereceu um almoço, em Verona, aos seus generais comandantes,
em regozijo pela vitória. No dia 7, em Milão, foi a vez do General
Mark Clark, que terminou a campanha como comandante do XV Grupo de Exércitos,
reunir-se com os mais altos chefes militares aliados.
No dia 11 de maio, a FEB fez rezar, na Catedral de Alessandria, solene missa
em homenagem aos combatentes tombados no cumprimento do dever. Também
em Alessandria realizou-se, no dia 13, um grande almoço de congraçamento
da FEB e, a 19, na Praça Garibaldi, a cerimônia militar de entrega
de condecorações brasileiras e americanas aos nossos heróis,
com as presenças dos comandantes do V Exército e do IV Corpo,
General Willis Crittenberg.
Terminada a missão de ocupação militar, a 1ª DIE
deslocou-se para a área de Francolise, onde estacionou aguardando o
embarque de regresso ao Brasil. O General Mascarenhas regressou da Itália,
em avião americano, chegando ao Rio de Janeiro em 11 de julho de 1945.
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| Nas ruínas de um edifício, em Zocca, pracinhas
buscam alemães escondidos. |
O 1º escalão de retorno, comandado pelo General Zenóbio
da Costa, e formado pelo GT 6, o mesmo que compusera o Destacamento FEB, chegou
ao Rio de Janeiro, a bordo do "General Meigs", a 18 de julho de
1945, e foi recebido com a maior manifestação cívico-popular
de toda a nossa história. Desfilou, pelas principais ruas da antiga
capital, por entre a multidão entusiasmada. Especialmente convidados,
participaram dessa extraordinária consagração dos nossos
combatentes os Generais Mark Clark, Willis Crittenberg e um grupo de soldados
da 10ª Divisão de Montanha.
O GT 1 chegou no "Mariposa" a 22 de agosto, o GT 11 no "General
Meigs" a 19 de setembro, e o Depósito de Pessoal retornou pelo
"Duque de Caxias" e pelo "James Parker", que chegaram
ao Rio a 22 de agosto e 3 de outubro.
Preocupado com as possíveis consequências da presença
da Força Expedicionária Brasileira, vitoriosa e prestigiada,
na estrutura de tempo de paz do Exército Brasileiro, assim como suas
eventuais repercussões políticas, cuidou logo o Governo de providenciar
sua imediata dissolução. Isso aconteceu antes mesmo de seu retorno.
Pelo Aviso Ministerial 217-184, de 6 de julho de 1945, o Ministro da Guerra
determinou que as unidades da FEB ficassem, desde sua chegada ao Rio de Janeiro,
subordinadas ao general comandante da 1ª Região Militar. Assim,
à medida que desembarcaram, os integrantes das unidades expedicionárias
foram tomando novos destinos, retornando às atividades do tempo de
paz, adaptadas algumas unidades e desincorporados os reservistas.
Da Força Expedicionária Brasileira, ficaram sua legenda e seu
espírito; seus mortos em Pistóia, e, depois no Monumento Nacional
aos Mortos da II Guerra Mundial; seus ex-combatentes, para sempre marcados
pela guerra; e seu comandante, General Mascarenhas de Moraes, enquanto viveu,
que dedicou o resto de sua existência a escrever sua história,
a cuidar de seus mortos e a ajudar a reintegração dos "pracinhas"
à vida Normal, num exemplo, de desambição, de desprendimento
e de fidelidade a seus homens, sem paralelo entre chefes militares vitoriosos
na guerra, em qualquer outro tempo ou país.
O valor da participação brasileira
A participação do Brasil na 2ª Guerra Mundial foi reconhecida
por estadistas, como Roosevelt e Churchill, e por chefes militares, como Marshall,
Mark Clark e Crittenberg. Se o Brasil houvesse formado ao lado das potências
do Eixo e dado aos nazi-fascistas o apoio de seus recursos naturais e de suas
áreas estratégicas, possivelmente se teria aberto em nosso território
uma outra frente de operações e, de certo, teriam sido imensamente
maiores as dificuldades enfrentadas pelos aliados.
Em 2 anos, 8 meses e meio de guerra declarada, a presença do Brasil
no conflito foi de extraordinária importância, pela cessão
de seu território ao livre trânsito das forças aliadas,
que tiveram no Nordeste o trampolim para o salto sobre o Norte da África,
em uma época em que a autonomia dos meios aéreos e navais estava
muito longe de ser o que hoje é. Acrescente-se a essa contribuição
de ordem estratégica os recursos materiais postos à disposição,
sobretudo o cristal de rocha, então indispensável para os instrumentos
de comunicação.
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| No seu posto de observação, o general
Mascarenhas acompanha o ataque a Montese. |
Extraordinária foi a participação de nossa Marinha de
Guerra na proteção do tráfego marítimo no Atlântico
Sul, assim como a ajuda de nossa iniciante Força Aérea Brasileira
na vigilância de nosso litoral.
Ininterruptamente empenhada em combate durante 227 dias, a Força Expedicionária
Brasileira muito contribuiu para derrotar as forças nazistas na península,
avançando mais de quatrocentos quilômetros, libertando meia centena
de vilas e cidades e aprisionando mais de vinte mil combatentes inimigos.
Foi também expressiva a participação da Força
Aérea Brasileira, através do 1º Grupo de Aviação
de Caça. Em seis meses de sua direta participação em
operações de guerra, cumpriu 445 missões, voou 6144 horas,
lançou 4442 bombas, tendo destruído 2 aviões, 13 locomotivas,
1304 transportes motorizados, 250 vagões e carros-tanque, 8 carros
blindados, 25 pontes, 85 posições de artilharia, 31 depósitos
de combustíveis e munições e 3 refinarias. Dos 48 oficiais
que realizaram missões de guerra, teve 16 baixas, sendo 5 abatidos
pela artilharia antiaérea, 8 saltaram de pára-quedas em território
inimigo e 3 faleceram em acidentes.
Sintetizando essa admirável campanha, ficaram os nomes inapagáveis
dos combates vitoriosos - Monte Castelo, Castelnuovo e Montese - e do cerco
e rendição final - Colecchio e Fornovo di Taro.
Monte Castelo, a 21 de fevereiro, é a vitória do valor moral,
da tenacidade e da constância dos nossos "pracinhas", vingando
o sacrifício de quatro tentativas fracassadas e quebrando o tabu do
baluarte que já parecia ser inexpugnável.
Castelnuovo, a 5 de março, é o combate de maior expressão
tática, hábil manobra de isolamento do ponto forte de Soprassasso
e de convergência de dois ataques sobre o lugarejo.
Cabe a Montese, a 14 de abril, ter sido o mais sangrento e o de maior valia
no âmbito geral da ofensiva, pela terrível reação
oposta pelos nazistas e por abrir-se, naquele maciço, uma das portas
que levariam à terminação da guerra na Itália.
Fornovo, a 29 de abril, é a consagração da manobra estratégica
e a colheita final da tenacidade e do silencioso heroismo, dos sofrimentos
e das angústias, de mais de sete meses de continuada luta.
As grandes conseqüências
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Habitantes de Massarosa, primeira cidade ocupada pela
FEB, saudam os pracinhas.
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As grandes transformações operadas no Brasil depois de 1945
têm suas sementes em nosso esforço de guerra, na contribuição
estratégica do Nordeste brasileiro para a vitória aliada, e
no sangue de marinheiros, aviadores e soldados sacrificados no cumprimento
do dever.
Nossa participação no conflito e especialmente o envio da FEB
contribuíram para o restabelecimento da liberdade de imprensa; para
integração nacional, pela completa eliminação
das minorias nazi-fascistas; para a queda da ditadura e conseqüente retomada
de nossa evolução democrática.
Nossa colaboração para a vitória aliada ensejou a oportunidade
histórica para a realização.do grande projeto siderúrgico
de Volta Redonda - alicerce do surto de industrialização e da
iniciação de irreversível processo de desenvolvimento
nacional.
Combatendo, de igual para igual, com os melhores soldados do mundo, e assistindo,
de perto, aos dramas de outros povos, o homem brasileiro aprendeu a confiar
em suas próprias possibilidades e na valia de sua fraternidade, de
sua democracia vivencial e da maneira brasileira de ser e de viver.
(Texto "Jornal da Guerra" do General Octavio Costa, extraído
da Revista O Globo Expedicionário - Agência Globo)