O Exército e a integração nacional pelo telegráfo
A obra de Rondon
Terminada
a Guerra do Paraguai, se cuidou de aparelhar a tropa de Engenharia para atender
à formação dos especialistas necessários aos empreendimentos
públicos indicados pela experiência bélica.
Os problemas mais vivos a serem resolvidos eram o dos transportes e o das
comunicações, particularmente no Rio Grande do Sul, oeste paranaense
e Mato Grosso, o que impedia a aplicação oportuna e decisiva
do poder nacional. Surgiu o Exército como fator de integração
nacional.
Em 1880 o Batalhão de Engenheiros foi reorganizado para poder ser
empregado na construção de estradas de ferro e de linhas telegráficas.
O seu primeiro empreendimento no campo das comunicações, concluído
em dezembro de 1881, foi a ligação telegráfica entre
Alegrete e São Borja, com um ramal para Itaqui.
No ocaso do Império foi criada a Comissão Construtora da Linha
Telegráfica Franca Cuiabá, com o objetivo de romper o
isolamento de Mato Grosso, tão nefasto durante a invasão paraguaia.
A cidade paulista de Franca representava, até então, a região
mais ocidental servida pelo fio.
Proclamada a República, foram aproveitados e ampliados os projetos
de construção de linhas telegráficas do Império,
que legou 11.000 Km de linhas entre as principais cidades.
Com a concretização da ligação Franca-Uberaba,
ainda no período imperial, coube ao governo republicano a criação
de uma comissão para o prolongamento da linha até a margem direita
do rio Araguaia.
A construção em sentido contrário, Cuiabá-Araguaia,
foi confiada à chefia do Major Antonio Ernesto Gomes Carneiro. Este,
em busca de um auxiliar mato-grossense, escolheu o alferes-aluno Cândido
Mariano da Silva Rondon, nascido em 1865 nas proximidades de Cuiabá,
coincidentemente durante a invasão paraguaia do Mato Grosso. A partir
daí teria início a ciclópica obra de Rondon, síntese
das comunicações da Primeira República.
Paralelamente, o governo criou outras comissões telegráficas
chefiadas por engenheiros militares. No Rio Grande do Sul uma comissão
foi designada para interligar os principais pontos das fronteiras com a Argentina
e o Uruguai, enquanto no Paraná outra recebeu a missão de ligar
Foz do Iguaçu a Curitiba.
Em abril de 1891, com a ponta da linha já nas margens do rio Araguaia,
Gomes Carneiro retornou ao Rio de Janeiro e Rondon assumiu a chefia da comissão.
Pouco tempo depois, em 1894, Gomes Carneiro morreu heroicamente durante o
cerco da Lapa, no Paraná, episódio da Revolução
Federalista, articulado com a Revolta da Armada.
Em 1900 Rondon recebeu a missão de interligar toda a faixa fronteiriça
com a Bolívia e com o Paraguai, cumprindo-a após seis anos de
penosos trabalhos e 1.746 Km de linhas construídas. Finalmente, as
cidades de Cuiabá, Corumbá, Bela Vista, Porto Mourinho, Forte
Coimbra e Cáceres passaram a se ligar ao restante do País.
Entretanto, ainda estava longe do encerramento a sua obra civilizadora. Em
março de 1907, o Presidente Afonso Pena cria a Comissão Construtora
de Linhas Telegráficas do Mato Grosso ao Amazonas e nomeia-o, já
major, para chefiá-la.
Essa comissão fica subordinada aos Ministérios da Aviação
e da Guerra, pela natureza dos trabalhos e pelo seu enquadramento civil e
militar. Integram-se engenheiros militares, oficiais especializados e funcionários
civis da Repartição Geral dos Telégrafos. O 5º Batalhão
de Engenharia participa como núcleo principal da tropa a ser empregada.
A linha partiria de Cuiabá para atingir a cachoeira de Santo Antônio
do Madeira, no rio Madeira, e daí até a estrada de ferro Madeira
Mamoré. Desse ponto alcançaria as sedes das prefeituras
do Acre, Purus e Juruá, enquanto ramais atingiram a cidade de Mato
Grosso (Vila Bela), Forte Príncipe da Beira e Manaus.
O
trabalho era, portanto, de extrema magnitude e imperativo, em função
da incorporação do Acre pelo Tratado de Petrópolis, firmado
com a Bolívia em 1903.
No Natal de 1909, após toda sorte de adversidades, é atingido
o rio Madeira na expedição e o corneteiro do 5º Batalhão
de Engenharia, origem do atual Batalhão Rondon, saúda o fato
com o toque da vitória.
Fisicamente se rompera a Amazônia Ocidental, mas os trabalhos ainda
continuariam até 1º de janeiro de 1915, com a inauguração
da estação de Santo Antônio do Madeira. Foram instaladas,
ao todo, 32 estações nos 1.497 Km da linha principal e nos 763
Km dos ramais de Cáceres a Mato Grosso, de Parecis a Barra dos Bugres
e de Santo Antônio e Guajará-Mirim.
O objetivo de levar o fio até Manaus foi abandonado, como consequência
da evolução da radiotelegrafia descoberta por Guglielmo Marconi,
mas nem por isso tornou menos importante a obra de Rondon, que já havia
cumprido um papel de extrema relevância para o País. Não
só na integração de pontos afastados do território
nacional, mas, ainda, no avanço dos conhecimentos contemporâneos
de etnografia, zoologia, botânica e mineralogia, no aperfeiçoamento
da cartografia nacional e na proteção do indígena.
O pioneirismo do Marechal Rondon nas atividades de comunicações
o credenciaria para Patrono da Arma de Comunicações, através
do Decreto nº 51.960, de 26 de abril de 1963.