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Brasília - DF - Ano XXX - N.º 174 - Jan/Fev/Mar 2002

Treinamento Físico Militar

Uma visão global

SÍNTESE HISTÓRICA

Os primeiros registros da realização de prática física voltada para a área militar datam de 1810, com a criação da Academia Real Militar, contudo sem padronizações ou fundamentações fisiológicas.

Somente na 2ª década do século XX houve a criação, em 1929, do Curso Provisório de Educação Física, que funcionou nas instalações da Escola de Sargentos de Infantaria, na Vila Militar, no Rio de Janeiro. Em 1930, foi criado o Centro Militar de Educação Física, na Fortaleza de São João, também sediada no Rio de Janeiro, o qual veio a ser transformado na Escola de Educação Física do Exército, no ano de 1933.

A publicação, em 1934, do Regulamento de Educação Física, atendia inte-gralmente ao método francês, preconizado pela Escola Superior de Educação Física de Joinville-le-Point.

A partir da década de 30, e principalmente após a década de 70 do século passado, o Exército Brasileiro reconheceu a necessidade e a importância do Treinamento Físico Militar (TFM) – e sua avaliação – para a operacionalidade da Força Terrestre.

Atualmente, o Centro de Capacitação Física do Exército/Fortaleza de São João é o órgão responsável no âmbito do Exército, entre outras missões, por assessorar os escalões superiores quanto à doutrina do TFM e promover sua interação com as atividades de ensino, pesquisa e desporto. Para esses fins, enquadra a Escola de Educação Física do Exército (EsEFEx), o Instituto de Pesquisa da Capacitação Física do Exército (IPCFEx) e a Comissão de Desportos do Exército (CDE).

CONCEITOS

O TFM, obrigação de todo militar do serviço ativo, tem objetivos bastante sólidos:

• contribuir para a manutenção preventiva da saúde;
• desenvolver, manter ou recuperar a aptidão física ideal para o desempenho de funções;
• cooperar para o desenvolvimento de atributos da área afetiva; e
• estimular a prática de desportos.

Assim sendo, o TFM é a preparação da condição física total do militar, sistematicamente organizado, por meio de atividades físicas regulares e controladas, dentro de um processo pedagógico.

OS BENEFÍCIOS DA PRÁTICA

O treinamento regular e orientado promove diversas adaptações ao funcio-namento do organismo humano. Essas adaptações trazem benefícios para a saúde e propiciam condições para uma maior eficiência no desempenho profis-sional.

No sistema cardiopulmonar, os efeitos benéficos podem assim ser sintetizados:

• aumento das cavidades e da espessura do músculo cardíaco, com con-seqüente lançamento de maior quantidade de sangue após cada contração;
• diminuição da freqüência cardíaca, proporcionando ao coração uma menor quantidade de trabalho, contudo mantendo a mesma eficiência, devido ao aumento do volume de ejeção sangüínea;
• aumento da capacidade de transportar o oxigênio pela hemoglobina, desempenhando função importante na utilização do oxigênio pelos músculos;
• diminuição da pressão arterial, devido à menor resistência dos vasos à passagem do sangue; e
• aumento da capacidade de consumir oxigênio, tornando o músculo mais resistente à fadiga.

Quanto ao sistema neuromuscular, podemos listar os seguintes efeitos fisiológicos:

• hipertrofia muscular, em decorrência do aumento da massa muscular, tornando o músculo capaz de produzir mais força;
• aumento das amplitudes articulares, em conseqüência do treinamento de flexibilidade, acarretando maior extensibilidade dos músculos, dos tendões e dos ligamentos; e
• fortalecimento dos tendões, capacitando o organismo a suportar maiores pesos, com menor possibilidade de ruptura desses tecidos.

Por fim, no que tange à composição corporal, a prática regular do TFM acar-reta a redução da gordura corporal, quando associada a uma dieta adequada, e o aumento da massa muscular.

OS PADRÕES DE DESEMPENHO

Os padrões de desempenho físico do Exército Brasileiro representam um nível desejado de condicionamento físico e buscam atender às necessidades peculiares e conveniências da Força Terrestre, levando em consideração a situação funcional do militar – de acordo com o tipo de unidade em que está servindo e a função desempenhada – e a sua faixa etária. Dessa forma, os padrões de desempenho físico são conjuntos de objetivos individuais de instrução (OII), onde cada um corresponde a um teste físico.

São três os padrões: o Básico de Desempenho (PBD); o Avançado de Desempenho (PAD); e o Especial de Desempenho (PED).

O PBD caracteriza as condições físicas necessárias para o exercício das funções em tempos de paz e serve de base para o desenvolvimento de padrões de desempenho físico mais elevados. Representa a condição física mínima do militar para o serviço ativo e é aplicado nas unidades não-operacionais e nos recrutas de todas organizações militares (OM) durante a Fase de Instrução Individual Básica.

O PAD enquadra as condições físicas necessárias para o serviço em OM operacionais e para o serviço em campanha. Deve conter todos os OII constantes no PBD, com índices maiores ou iguais àqueles.

O PED refere-se às condições físicas necessárias ou desejáveis para o serviço em determinadas OM, como o Centro de Instrução de Guerra na Selva e a Brigada de Infantaria Pára-quedista, entre outras, ou para atender a situações funcionais específicas.

O padrão especial deve, em princípio, incluir todos os OII correspondentes ao avançado, modificados convenientemente e, se necessário, os respectivos padrões mínimos, e também novos OII que caracterizem qualidades físicas julgadas necessárias à situação considerada.

Para escolas de formação, bem como para os colégios preparatórios, existem os módulos didáticos de TFM específicos, com os respectivos PED.

AVALIAÇÃO

O atual Teste de Avaliação Física (TAF) é regulado pela Portaria nº 739, de 16 de setembro de 1997, republicada em separata ao Boletim do Exército nº 17, de 30 de abril de 1999.

O TAF aplicado no segmento masculino do Exército engloba as provas de flexão de braços, abdominal (remador) e corrida de 12 minutos, realizadas num 1º dia por todos os militares com idade até 49 anos. Num 2º dia, são realizadas as provas de meio sugado, flexão na barra fixa (militares até 33 anos) e pista de pentatlo militar (somente em OM operacionais, também para militares até 33 anos).

As provas do segmento feminino guardam semelhança com as do masculino; apenas não são executadas as provas de flexão na barra e a pista de pentatlo militar.

A avaliação para oficiais, subtenentes e sargentos é realizada nos meses de março, julho e novembro, permitindo a apreciação de suficiência no padrão de desempenho físico considerado e uma conceituação, objeto de valoração na Ficha de Quantificação do Mérito dos Oficiais e nas Fichas de Conceito dos Subtenentes e Sargentos.

CONCLUSÃO

O Treinamento Físico Militar é uma ciência e deve ser tratado como tal. Sua evolução é fruto de pesquisa, aplicação, avaliação e realimentação de um sistema cujo foco é o que temos de mais precioso na Força Terrestre: o soldado, em todos os níveis, do recruta ao oficial-general. Não há Exército operacional sem que seus homens desfrutem de uma condição física compatível com a missão que devem cumprir.

O Manual de Campanha C 20-20 Treinamento Físico Militar – Edição 1990 – constitui excelente e importante fonte de consulta para aqueles interessados em aprofundar conhecimentos quanto à filosofia, metodologia e aspectos referentes aos diferentes tipos de treinamento que podem ser levados a efeito por qualquer pessoa na busca de um mente sã em um corpo são, com reflexos diretos na saúde pessoal, qualidade de vida e operacionalidade da Força Terrestre.

A leitura da Portaria nº 739, de 16 de setembro de 1997, que regula o TAF, permite esclarecimentos detalhados das condições de execução dos testes físicos e atual sistemática de avaliação da condição física dos militares de nosso Exército.

Por fim, cabe transcrever a seguinte citação do ex-presidente americano John F. Kennedy acerca do assunto:

"A aptidão física não é apenas uma das mais importantes chaves para um corpo saudável; ela é a base de uma atividade intelectual dinâmica e criadora.

Mas nós devemos saber aquilo que os gregos sabiam: que a inteligência e a perícia somente podem funcionar ao máximo de suas capacidades quando o corpo é saudável e forte; que os espíritos intrépidos e mentes rijas usualmente habitam corpos sãos."

 

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