Notícias - Verde-Oliva
 

Brasília - DF - Ano XXXI - Nº 182

“...E, considerando que nenhum vestido (traje) pode haver mais nobre nem mais digno de entrar na minha Corte do que os uniformes militares, ordeno que nenhum general, oficial de patente, subalterno e soldado, ou pessoa de qualquer qualidade ou condição que seja, possa vir à minha real presença com outros vestidos que não sejam os seus respectivos uniformes ou fardas, sob pena de perdição do posto ou praça que tiverem.”

O Exército Brasileiro, por meio do Regulamento de Uniformes do Exército (RUE), estabelece prescrições sobre os uniformes da Força, peças complementares, insígnias, distintivos e condecorações. Regula, ainda, a posse, a composição e o uso das diversas indumentárias militares descritas.

O artigo 2º do mencionado Regulamento preceitua que “o uso correto dos uniformes é fator primordial na boa apresentação individual e coletiva do pessoal do Exército, contribuindo para o fortalecimento da disciplina e do bom conceito da Instituição perante a opinião pública”.

Generalidades

As Forças Armadas, em qualquer parte do mundo, embasam-se, institucionalmente, nos princípios de disciplina, hierarquia e autoridade; e na existência de um cerimonial peculiar.

Quando das formaturas, desfiles e solenidades, as tropas exibem, com orgulho, os seus fardamentos. A correta apresentação é um dever dos militares em toda a cadeia hierárquica, uma vez que “o uniforme espelha o moral da tropa”, como nos ensina o RUE.

Alguns uniformes, por terem sido envergados em memoráveis campanhas e batalhas, são considerados históricos. Também o são as fardas dos heróis nacionais e daqueles militares de coragem indômita, que não vacilaram em sacrificar a própria vida ou verter o generoso sangue pela honra da Pátria. Igualmente históricos são os uniformes das primeiras tropas constituídas no País, para que a sua evocação sirva de estímulo ao culto dos tradicionais valores castrenses pelos militares mais jovens.

Origem e evolução dos uniformes

Consoante o renomado heraldista e historiador José Wasth Rodrigues, in “Dicionário Histórico – Militar”, volume 82, em uma conotação estritamente militar, “uniforme, s. m., é fardamento, farda, vestes impostas pelo regulamento e que são as mesmas para uma categoria de indivíduos, tais como os militares”.

Ainda com base nos ensinamentos desse autor, o “uniforme militar” foi instituído na França em 1670. Até então, cada chefe local daquele País estabelecia, a seu critério, os uniformes para as próprias tropas. Naquele ano, todos os militares franceses decidiram-se pela “uniformização” (daí a origem do vocábulo) – abandonaram as cores de seus comandantes e adotaram o uniforme determinado pelo rei.

Em Portugal, de onde vieram os fardamentos utilizados no Brasil-Colônia, o uniforme militar foi estabelecido pelo Alvará de 31 de maio de 1708, quando foram criados “os trajes dos oficiais e praças” para todo o Exército Português. Tal era a dignidade e pompa desses uniformes que, em Alvará de 27 de abril de 1761, o Rei D. José I estabelecia: “...E, considerando que nenhum vestido (traje) pode haver mais nobre nem mais digno de entrar na minha Corte do que os uniformes militares, ordeno que nenhum general, oficial de patente, subalterno e soldado, ou pessoa de qualquer qualidade ou condição que seja, possa vir à minha real presença com outros vestidos que não sejam os seus respectivos uniformes ou fardas, sob pena de perdição do posto ou praça que tiverem.”

O Brasil adotou os uniformes militares portugueses até a sua Independência, quando D. Pedro ordenou a criação de novos uniformes e distintivos, diferentes dos de Portugal e caracteristicamente nacionais.

A obra referencial, que contém a descrição de cada uniforme de nosso Exército e suas pranchas iconográficas, é o livro “Uniformes do Exército Brasileiro”, de autoria de José Wasth Rodrigues e Gustavo Barroso. Editado em 1922, nas comemorações do centenário da Independência, abrange um largo período histórico, com início no Século XVI.

Uma das curiosidades da obra é o primeiro plano de uniformes, lançado após a Proclamação da República e aprovado em 28 de novembro de 1889, em que a cor azul-ferrete dos uniformes do Império foi mantida nos fardamentos de todas as Armas. Entretanto, foram introduzidas substanciais modificações. As cores das Armas, à época, eram: Infantaria – vermelho, Cavalaria – vermelho e branco, Artilharia – carmesim (vermelho vivo), e Engenharia – carmesim e branco.

Fotos ilustrativas

Nessa breve recorrência histórica, merecem registro duas significativas alterações nos planos de uniformes do Exército, ocorridas em 1920 e 1931, como veremos a seguir.

Pelo Decreto nº 14.327, de 25 de agosto de 1920, foi estabelecida a coloração cáqui para a maior parte dos uniformes, o uso de “cintos-talabartes”, botas com esporas e perneiras.

O Decreto nº 20.754, de 04 de dezembro de 1931, tinha por finalidade “distinguir o Exército de qualquer outra coletividade e evitar a maior ou menor semelhança de seus uniformes com o de outras corporações, prejudicial ao prestígio do Exército e perniciosa à sua boa disciplina”. A semelhança aludida era referente ao fardamento das Forças Públicas Estaduais – atuais Polícias Militares – também cáqui. Nascia, assim, a cor verde-oliva para os uniformes do Exército. Os galões (“laço húngaro”) dos uniformes dos oficiais foram substituídos por estrelas. Naquele mesmo ano, os uniformes do Corpo de Cadetes da Escola Militar do Realengo foram modificados, em vista de sugestões apresentadas pelo Comandante, Cel José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque – idealizador da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Os uniformes e seus complementos, desenhados por José Wasth Rodrigues, baseavam-se nas fardas dos batalhões de 1851 e 1852, caracterizando a ligação entre o Exército Imperial e o Exército Republicano, na recordação das vitoriosas campanhas externas do II Império. Tais uniformes são, até hoje, utilizados na AMAN.

Os uniformes verde-oliva para distinguir nosso Exército permanecem em vigor, mesmo com as alterações efetuadas por ocasião da participação do Exército na Força Expedicionária Brasileira, sob o comando do Exército dos Estados Unidos da América. No atual 4º A-2 (camuflado), previsto no RUE, a cor predominante também é a verde-oliva.

Os uniformes históricos

Como assinalado no início deste trabalho, são considerados “históricos”, para o Exército Brasileiro, tão somente os uniformes de tradicionais Organizações Militares (OM), além daqueles destinados a Estabelecimentos de Ensino – denominados “especiais” – como os da AMAN e os dos Colégios Militares. Esses uniformes têm, outrossim, a finalidade de rememorar feitos heróicos, locais, datas, tradições ou personagens já falecidos, consagrados na História do Brasil, fundamentados em registros de historiadores renomados.

Os uniformes históricos visam ainda aos seguintes objetivos:

• manter viva e constante, no Exército do presente, as tradições de seu passado;
• ressaltar a necessidade e a importância do culto aos mais caros valores da Força, com vistas à emulação de seus integrantes;
• preservar a História, promovendo o resgate de tradições de Organizações Militares, algumas das quais remontam ao Período Colonial;
• evocar, permanentemente, junto à OM agraciada, a bela história militar da Instituição, que deita raízes em Guararapes – berço da nacionalidade e do Exército Brasileiro.

O artigo 5º do RUE traz a relação das Organizações do Exército possuidoras de uniformes históricos, tais como o Batalhão da Guarda Presidencial – Batalhão Duque de Caxias; o 1º Regimento de Cavalaria de Guardas – Dragões da Independência; o 3º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado – Regimento Mallet; o 62º Batalhão de Infantaria – Batalhão Francisco de Lima e Silva, entre outras.

Como conclusão, é importante lembrar as sábias palavras do consagrado historiador Gustavo Barroso:

"Pode-se afirmar, sem receio de exagero, que a História Militar do Brasil é uma das mais brilhantes do mundo, porque, de fato, é a mais brilhante da América. Ela possui vultos e glórias fora do comum e está repleta de grandes ensinamentos técnicos e políticos. É rica de altas lições de sacrifício e de patriotismo. Ilustra-se de belos exemplos. Sua tradição de episódios, praxes, indumentária, instituições e organizações pode ser invocada constantemente como base irremovível e inspiração fecunda de novas construções exigidas pelos novos tempos."

Colaboração do Cel Manoel Soriano Neto, Chefe do Centro de Documentação do Exército.

 

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