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Manchetes dos principais jornais |
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A Resenha
Diária é elaborada pelo Centro de Comunicação Social do Exército,
contendo as principais notícias de interesse para o Exército,
veiculadas pela mídia. Está disponível, na
Internet, em sua versão “on-line”, a partir das 09:00 horas, na
página oficial do Exército Brasileiro. |
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Panorama Político Ilimar Franco de Brasília Defesa x Dnit
Os ministérios dos Transportes e da Defesa estão em uma queda de braço por causa de um projeto de lei que destina 5% do dinheiro do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) para batalhões de engenharia do Exército. A Casa Civil desempatou o jogo a favor do ministro Alfredo Nascimento (Transportes), candidato a governador do Amazonas pelo PR. O projeto está em tramitação na Câmara dos Deputados.
ELEIÇÕES 2010 FH volta a comparar: 'Dilma não é líder, é reflexo de um líder'
Ex-presidente insiste na comparação entre seu governo e o de Lula; petistas dizem estar prontos para a briga Flávio Freire, Luiza Damé e Chico de Gois
O ex-presidente Fernando Henrique voltou ontem a fazer o que querem os estrategistas da campanha da candidata do PT e do presidente Lula, ministra Dilma Rousseff, e subiu o tom ao comparar seu governo e seu candidato com os do PT. Sem meias palavras, disse que Dilma Rousseff ainda não inspira confiança. Enquanto falava sobre o perfil ideal para a disputa presidencial, afirmou que a ministra não passa de "um reflexo de líder" e argumentou, sem citar nomes, que o país precisa de gente "que não roube". - O governo atual tem um líder. O meu (governo) teve um líder. O (José) Serra é um líder de São Paulo. Infelizmente, pela história da ministra Dilma, ela não teve essa oportunidade. Mas não estou aqui condenando. Simplesmente dizendo que, para mim, Serra é competente, é um líder e inspira confiança. A outra (Dilma), para mim, ainda não - disse o ex-presidente, na inauguração de biblioteca pública em São Paulo. Ele chegou antes de Serra, que se atrasou por uma hora, levando Fernando Henrique a ir embora antes de o governador chegar. Quando indagado se Serra inspiraria mais confiança que Dilma, Fernando Henrique não titubeou: - Para mim, sim. Ele (Serra) já fez, é líder, é primeiro (nas pesquisas). Ela pode vir a ser, mas por enquanto ela não é líder. Ela é reflexo de um líder. Perguntado sobre uma chapa puro-sangue do PSDB para disputar a Presidência, respondeu: - Depende das circunstâncias, no caso de ter um bom candidato a vice. Acho que o Brasil não está preocupado com as siglas. Tem que ver se a pessoa inspira confiança. Precisamos de gente competente e que não roube. E que inspire confiança. Em artigo publicado domingo no GLOBO e no "Estado de S.Paulo", Fernando Henrique disse que o presidente Lula "inventa inimigos" e "enuncia inverdades". No texto, afirma que as "eleições não se ganham com o retrovisor" e desafia o "lulismo" a fazer comparações "sem mentir". Indagado se temia a comparação com seu governo em algum tema específico, respondeu: - A mim não me preocupa nada. Porque, se não se fez alguma coisa, é porque não se conseguiu eventualmente. Acho que isso é picuinha, e eu não gosto de picuinha - disse, chamando de "mesquinharia" esse tipo de comparação. E ainda afirmou que o presidente Lula não fez muitas mudanças em relação à sua gestão: -- Se quiserem comparar, a gente compara, desde que seja no contexto. Não há o que temer. Mas o que temos que ver no Brasil é como é que vamos levar para adiante mais ainda. Quem é mais competente para avançar mais. O Lula disse que ia mudar tudo e não mudou nada, seguiu adiante tudo o que eu tinha lançado. Achei bom, ele fez bem. Porém, ao ser perguntado se considera Lula um líder, respondeu: - Sem dúvida, você acha que eu sou um bobo? Em Brasília, coube ao ministro de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, defender o governo Lula e Dilma dos novos ataques do ex-presidente. Para destacar o papel de líder da ministra no governo, Padilha disse que ela comandou a elaboração do atual modelo energético. E afirmou que não se pode confundir fidelidade com falta de liderança. - A ministra Dilma demonstrou sua capacidade de liderança ao construir o novo modelo energético, que resolveu o problema do apagão. Que não se confunda fidelidade com ausência de protagonismo - afirmou Padilha. O ministro da Justiça, Tarso Genro, disse achar positivo para o governo a iniciativa do ex-presidente de comparar as duas gestões: - É bom para nós que ele ( FH) compare as duas administrações. Esse debate nos interessa. Presidente do PT até o dia 18, o deputado Ricardo Berzoini (SP) disse ter dúvida se o governador José Serra, que tem evitado debate público sobre a campanha, vai na mesma linha: - Se for, teremos um embate de projetos, permitindo ao povo saber o que se propõe para o Brasil - disse Berzoini, no Twitter. - Gostei muito do artigo do Fernando Henrique. Quando ele assume que não tem medo de comparar, abre o espaço para um debate verdadeiro.
'Há um vácuo na campanha tucana' Wagner Gomes e Carolina Benevides
SÃO PAULO e RIO. Ao criticar a capacidade de liderança da ministra Dilma Rousseff, o ex-presidente Fernando Henrique assume um vazio na articulação do governador José Serra (PSDB) para a campanha presidencial deste ano, analisaram especialistas ouvidos pelo GLOBO. Roberto Romano, professor de ética e política da Unicamp, diz que FH parte para o ataque para cobrir uma falha de estratégia do PSDB nesta campanha. Segundo ele, Fernando Henrique tenta proteger o partido e seus dois governos ao perceber a falta de coordenação dos tucanos. - Há um vácuo na campanha tucana que acaba sendo assumido por Fernando Henrique, até porque ele precisa defender o seu governo, sempre muito criticado por Lula. FH não é político de fulanizar, ele prefere o discurso teórico e intelectual. O problema é que falta alguém no PSDB pronto a polemizar com o presidente Lula - diz Romano. O professor da Unicamp diz que é de se esperar "novos ataques de fúria" de Fernando Henrique, até que José Serra se decida oficialmente pela candidatura e passe a fazer críticas duras ao atual governo. Para Romano, caso Serra continue silencioso diante das críticas de Lula, pode parecer que o candidato do PSDB à sucessão não tem tanta força para assumir uma campanha como esta. - É preocupante o padrinho de Serra ter que vir constantemente a público defender o seu governo. O tempo pode passar, e o PSDB pode não conseguir revidar os ataques do atual governo. O pescador precisa saber o momento exato para lançar a rede e fisgar o peixe -- diz Romano. Para Marco Antonio Vila, historiador da Universidade Federal de São Carlos, desde que deixou o governo, Fernando Henrique não encontrou uma pessoa que pudesse defendê-lo dos ataques do PT: - O presidente Lula, desde o início do seu governo, diz que recebeu uma herança maldita de Fernando Henrique. Ele falou o que quis sem nunca ter uma resposta à altura da oposição. Lula encontrou uma oposição que não sabe se defender e voou em céu de brigadeiro durante todos esses anos. Para o professor de sociologia da Unicamp Ricardo Antunes, o PSDB se mostrou com pouca capacidade de se defender das críticas do atual governo, o que levou Fernando Henrique a tomar uma postura mais agressiva em relação a Lula. - Fernando Henrique sabe que a ausência de um candidato oficial do PSDB só fortalece a ministra Dilma. A prova disse é que a candidata de Lula cada vez mais sobe nas pesquisas eleitorais - afirma Antunes. Outros vêem um fato positivo para a campanha de Serra: - FH ajuda a construir a imagem de Serra e permite que o governador de SP continue esperando o melhor momento para aparecer. Ele vem sendo poupado porque todos sabem que a artilharia vai ser pesada na hora em que assumir que é candidato - diz Ricardo Ismael, professor de Ciência Política da PUC-RJ. Para Ricardo, Serra corre o risco de já ter perdido o momento certo de assumir que concorrerá à sucessão: - A imagem da Dilma como estadista está sendo construída. A estratégia de poupá-lo é boa, já que Serra lidera as pesquisas, mas o partido não pode esquecer que a campanha começou.
Mercado prevê inflação próxima de 5% e teme alta de juros já em março Alimentos pressionam taxa. Cesta básica sobe em 10 de 17 capitais do país Patrícia Duarte e Eliane Oliveira
BRASÍLIA e SÃO PAULO. O susto com a inflação de janeiro está levando o mercado a aumentar as expectativas para o ritmo da variação dos preços este ano, aproximando o IPCA de 5%. Como consequência, fica cada vez mais forte a possibilidade de o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) voltar a subir os juros no mês que vem, quando se reúne novamente. Por enquanto, a média das apostas continua sendo de que o movimento ocorrerá apenas em abril. A pesquisa Focus do BC, divulgada ontem, mostrou que o mercado calcula o IPCA agora em 4,78%, acima dos 4,62% registrados anteriormente. É a terceira semana seguida de elevação nas projeções, distanciando-a mais ainda do centro da meta do governo, de 4,5%. Para o IGP-DI, as contas já ultrapassaram os 5% e estão a 5,13% este ano. - O IPCA de janeiro explica esse aumento na projeção - resumiu o economista-chefe do Santander, Alexandre Schwartsman, para quem o Copom volta a puxar a Selic (hoje em 8,75% ao ano) já em março, encerrando o ano a 12%. Na semana passada, foi anunciado que o IPCA de janeiro ficou em 0,75%, muito acima do 0,37% de dezembro, o que acabou levando a revisão do indicador pelo mercado. O problema maior são os preços dos alimentos, que têm subido sistematicamente.
Cesta sobe 4,6% em Goiânia e 0,19% no Rio, diz Dieese Em janeiro, o custo da cesta básica aumentou em dez de 17 capitais brasileiras. Segundo a Pesquisa Nacional da Cesta básica, divulgada ontem pelo Dieese, que monitora os preços dos gêneros alimentícios considerados essenciais, as maiores altas foram registradas em Goiânia (4,61%), Salvador (1,43%) e Florianópolis (1,1%) na comparação com o mês anterior. O custo médio da cesta básica, no Rio de Janeiro, foi de R$213,77, ficando praticamente estável em relação a dezembro, alta de 0,19%. Nas 17 capitais, em comparação a janeiro de 2009, a variação foi negativa. As maiores quedas em Belo Horizonte (-11,35%) e Goiânia (-9,38%). No Rio, o recuo nesta comparação foi de em 4,88%. Apesar de algumas visões serem de que a alta de inflação levará a autoridade monetária a subir os juros básicos logo, a pesquisa Focus ainda mostra que a maioria dos analistas consultados acredita que a elevação virá em abril. No fim do ano, eles projetam a Taxa Selic em 11,25%. E mesmo os que acreditam numa alta mais cedo, mantêm a projeção. Ou seja, a alta acontecerá antes, mas não será maior. Schwartsman, que já foi diretor do BC, apesar de ter antecipado de abril para março a previsão do aumento da taxa, manteve em 3,25 pontos percentuais o movimento integral. O Focus mostrou ainda que o mercado elevou as estimativas sobre o câmbio ao fim do período, de R$1,76 para R$1,80, o que pesa na inflação. Para 2011, a conta continua em R$1,85. O mercado manteve a projeção de Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país) em 5,35% neste ano e em 4,50% para o próximo. A balança comercial brasileira registrou um déficit de US$172 milhões na primeira semana de fevereiro, resultado da diferença entre US$2,928 bilhões em exportações e US$3,1 bilhões em importações. O saldo negativo se deveu ao crescimento de 42,6% das compras externas em relação ao mesmo período do ano passado. A média diária importada, de US$620 milhões, foi a maior já registrada até agora. Com isso, no ano, a balança está deficitária em US$338 milhões.
Déficit comercial: alta de até 428% nas importações Nas importações, as maiores altas foram nas aquisições de adubos e fertilizantes (428,2%); cobre e obras (179,2%); siderúrgicos (126,1%); combustíveis e lubrificantes (91,2%); equipamentos elétricos e eletrônicos (67,9%); e instrumentos de ótica e precisão (47,3%). Em comparação a fevereiro de 2009, houve alta dos embarques das três categorias de produtos: básicos (16,3%), semimanufaturados (9,3%) e manufaturados (3,5%). A média diária exportada foi de US$585,6 milhões.
Nova classe média
O Brasil, felizmente, está se tornando um país de classe média. E com predominância da chamada classe C: cerca de 91 milhões de brasileiros, com rendimentos mensais entre R$ 1.115 e R$ 4.807, já respondem pela maior fatia (46%) da renda nacional referente à participação das pessoas físicas. Sob esse conceito, a participação das classes A e B na renda nacional recuou para 44%, conforme estudos da Fundação Getúlio Vargas. Os brasileiros da classe C deixaram de ser classificados como pobres porque a melhoria do nível de renda lhes proporcionou acesso a uma série de comodidades do mundo moderno típicas de classe média. O fato se deve a uma conjugação de fatores positivos. No plano macro, o Brasil passou a ter uma economia com relativa estabilidade monetária, que assegura a manutenção do poder aquisitivo da imensa maioria da população. Na prática, isso se traduziu em aumento de consumo, inclusive porque as famílias ampliaram sua capacidade de endividamento. Essa expansão de demanda viabilizou investimentos que antes estavam calcados apenas na possibilidade de exportações, muitas das quais dependentes de um câmbio desvalorizado para serem competitivas. Dessa forma, esse crescimento da classe média alargou horizontes de investimentos no Brasil, pois já se pode contar no futuro com um grande mercado interno. Há, sem dúvida, muitos desafios pela frente. Essa nova classe média só continuará ascendendo se aproveitar as oportunidades que o crescimento econômico proporcionar nos próximos anos, e para tal precisará de boa qualificação profissional. Essa qualificação, por sua vez, está associada a um bom sistema de ensino, ao qual só alcançaremos com esforço de toda a sociedade, e especialmente do setor público, que responde pela maior parte das matrículas. É por esse caminho que o país precisa seguir. Como tem sido demonstrado na prática, não é pela via do assistencialismo que se construirá essa classe média que vem se tornando a base social do Brasil. O assistencialismo só se justifica como instrumento de caráter transitório, enquanto as mudanças estruturais não atingem os objetivos propostos. O problema é que os governantes se sentem tentados a seguir por esse rumo porque o assistencialismo pode render dividendos políticos de curto prazo. No entanto, não é o que garante a construção de uma sociedade mais equilibrada. O processo de ascensão social por esforço próprio poderia ser facilitado se o Estado mudasse as prioridades de gastos.
'O único caminho que resta' EUA e França aumentam pressão por sanções após Irã anunciar novo passo em programa nuclear TEERÃ
Os Estados Unidos e a França afinaram ontem o discurso em relação ao Irã, indicando que as sanções podem ser o único caminho que restou para frear o programa nuclear do país. As declarações vieram depois de o Irã comunicar formalmente ontem, em carta à agência nuclear da ONU, que inicia hoje o enriquecimento de urânio a 20%. O país anunciou ainda a construção de dez novas usinas para 2011. As medidas alarmaram a comunidade internacional, que teme que o material seja usado para a produção de bombas nucleares. Além disso, o Irã está reforçando a sua capacidade militar: dois dias depois de anunciar a fabricação de dois novos mísseis, o governo declarou que vai construir um sistema de defesa antiaérea superior ao da Rússia, que tem se negado a vender armamento ao antigo parceiro comercial. - A única coisa que podemos fazer, lamentavelmente, é aplicar sanções, já que as negociações não são possíveis - disse o ministro do Exterior francês, Bernard Kouchner, que classificou o anúncio iraniano como "uma chantagem". - O único caminho que nos resta, me parece, é o da pressão. Isso requer que toda a comunidade internacional aja junto - declarou o secretário da Defesa dos EUA, Robert Gates, que se reuniu em Paris com Kouchner.
Nível seguinte levaria um semestre Numa trajetória marcada por discursos contraditórios, a decisão iraniana veio após um fim de semana em que o país se dizia otimista com as conversas com a Agência Internacional de Energia Nuclear (AIEA). Mas, ontem, o chefe da Organização de Energia Atômica do Irã, Ali Akbar Salehi, contou que comunicara à AIEA que o país começará a enriquecer urânio a 20% para um reator de uso médico. - Até agora não recebemos resposta de nossa proposta. Não podemos deixar hospitais e pacientes que esperam desesperadamente os isótopos radioativos - disse. O Irã já enriquece urânio a 3,5%. Embora o material para uma ogiva nuclear tenha que ser enriquecido a 90% ou mais, chegar a 20% marca um grande passo. Enquanto enriquecer a 20% levaria um ano usando as duas mil centrífugas da usina de Natanz, um passo seguinte, como passar de 20% para 90%, levaria apenas um semestre e utilizaria de 500 a mil centrífugas, dizem especialistas. - Seria boa parte do caminho para urânio em nível de armamento - afirmou David Albright, do Instituto para Ciência e Segurança Internacional, em Washington. O anúncio aumentou a pressão por sanções mais fortes por parte dos governos de EUA, França e Rússia. Em Paris, Gates disse que os dois países "concordavam completamente" na posição a adotar. Uma fonte afirmou ainda que Gates e o presidente Nicolas Sarkozy defenderam sanções mais fortes. Em Moscou, o presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara baixa do Parlamento, Konstantin Kosachyov, disse que a comunidade internacional deveria se preparar para "medidas sérias". Entre as principais potências, apenas a China - que tem poder de veto no Conselho de Segurança da ONU - se opõe claramente às sanções. Ao mesmo tempo, o Irã tenta aprimorar a capacidade militar, incluindo um sistema antiaéreo - "tão poderoso quanto o S-300" russo - e a fabricação de aviões não tripulados. - Os dois aviões não tripulados, o Raad e o Nazir, são capazes de vigilância, detecção e ataques de alta precisão - anunciou, ontem, o ministro da Defesa, Ahmad Vahidi. Alguns especialistas, porém, mostraram dúvidas sobre a possibilidade da construção das dez usinas, destacando a dificuldade de obter componentes com as sanções já existentes.
Subjugação
Na terceira versão do programa de defesa dos direitos humanos, foi aplicado o método de se convocar assembleias país afora para colher sugestões; e, quando veio a reação contra a revogação da Lei da Anistia, a instituição de sistema de coerção sobre a imprensa, entre outras aberrações contrabandeadas para o programa, o assembleísmo terminou defendido no governo como capaz de dar grande legitimidade às propostas. Um engano, pois estas assembleias e conselhos servem apenas para congregar companheiros de mesma ideologia, em busca de canais de pressão não institucionais. Sabem que são minoritários na sociedade, por isso tentam atuar de forma direta nos centros de decisão — manobra facilitada quando há aliados nestes centros. Padece do mesmo vício a proposta do PT de criação do Conselho Nacional de Política Externa, pelo qual ONGs, “movimentos sociais” e similares passariam formalmente a influenciar a diplomacia brasileira. É um passo a mais na cultura do assembleísmo e da subordinação do Estado a interesses partidários, de grupos, de corporações sindicais e lobistas de toda ordem. A ideia parece ser instituir o que na gestão Lula já acontece por meio do assessor presidencial para política externa, Marco Aurélio Garcia, uma espécie de “Itamaraty do B”, um braço autônomo ligado a frações do PT e ao qual se subordina, em certa medida, o Ministério de Relações Exteriores. Deste núcleo, ao qual se alinha o novo ministro de Assuntos Estratégicos, Samuel Pinheiro Guimarães, secretáriogeral do Itamaraty até há pouco, emanam as temerárias ações de pedigree chavista e terceiromundista, causa de embaraços diplomáticos junto ao Primeiro Mundo. Criado o tal conselho, firma-se a subjugação do Itamaraty a grupos políticos organizados, e extingue-se a capacidade de influenciar de um dos segmentos historicamente mais profissionais do Estado brasileiro. E avançará o projeto de criação de mecanismos de democracia direta, maneira de marginalizar o Congresso e revogar na prática o regime de democracia representativa, estabelecido na Constituição. Em outras palavras, um golpe — desfechado de forma lenta, mas um golpe.
Os gays e a farda Luiz Garcia
O general Raymundo Nonato de Cerqueira Filho é certamente um homem honesto e corajoso, e está pagando por isso. Indicado para ministro do Superior Tribunal Militar, submeteuse à sabatina de praxe e de lei na Comissão de Justiça do Senado. E fez uma declaração tão sincera quanto polêmica: para ele, homossexuais não podem integrar as Forças Armadas, porque “soldados não obedeceriam a comandantes gays”. É opinião que merece ser discutida — como, de resto, já está sendo. Se o general tivesse razão na sua premissa sobre a atitude da tropa, militares homossexuais representariam risco permanente de indisciplina numa corporação que depende de respeito integral e permanente da disciplina para funcionar. Mas a situação não é tão simples e clara quanto parece a Cerqueira Filho. Em primeiro lugar, o direito à opção sexual é reconhecido pela sociedade. Além disso — e esse talvez seja o dado crucial na avaliação das convicções do general — não existe um padrão universal, único, de comportamento homossexual. Há cidadãos que procuram ser e parecer tão femininos quanto possível. Porque prefeririam ter nascido mulheres, ou, sei lá, por sentirem necessidade de exibir, ou caricaturar, comportamentos e atitudes femininas. Seja qual for a sua motivação, parece ser inteiramente razoável admitir que essa postura seja incompatível com uma carreira militar. De resto não se conhecem casos de travestis tentando sentar praça ou se matricular nas Agulhas Negras. Os “comandantes gays” temidos pelo general (e por muitos de seus companheiros de farda) simplesmente não têm esse perfil. São homens que têm atração por homens. É uma forma de identidade sexual não melhor nem pior, mas bem diferente daquela das almas femininas aprisionadas em corpos masculinos. Tem razão o presidente do STM, Marques Soares — um civil, mas isso está longe de vir ao caso — ao dizer que não comete crime algum o militar que não praticar publicamente ato libidinoso, homo ou heterossexual. Em suma, para usar expressão antiga, o militar tem que se dar ao respeito. Vale para o recruta e para o general. O mesmo Marques Soares pode não estar certo quando diz que o general não tinha intenção de discriminar homossexuais. Cerqueira não fez outra coisa ao generalizar, afirmando que “soldados não obedeceriam a comandantes gays”. Ele parece pressupor que a opção sexual em si, e não o caráter e o comportamento público do militar, já bastaria para fazê-lo indigno da carreira militar. Toda organização militar precisa ter normas e critérios visando à preservação da disciplina. Ninguém discute isso. Mas parece ser absurda e preconceituosa a premissa de que a opção homossexual de um militar representa inaceitável risco de escândalo e desordem.
Embaixador critica 'proposta exótica' Diplomatas e acadêmicos discordam de criação de órgão sugerida pelo PT Bernardo Mello Franco
BRASÍLIA. A proposta de criação de um Conselho Nacional de Política Externa, defendida em documento oficial do PT, foi contestada por diplomatas, acadêmicos e até pelo petista Eduardo Suplicy (SP), que presidiu a Comissão de Relações Exteriores do Senado no início do governo Lula. Ele disse ser contrário à criação de novo órgão federal com poderes paralelos ao Ministério das Relações Exteriores. O Itamaraty não quis comentar o projeto, que foi antecipado ontem pelo GLOBO e será votado no IV Congresso Nacional do PT, entre os dias 18 e 21. Para Suplicy, um conselho com a participação de ONGs, sindicatos e movimentos sociais poderia servir como fórum de discussão, sem ditar linhas para a política externa: — Não pode ter caráter deliberativo. Se tiver atribuições apenas de debate e reflexão, não vejo problema. Mas o presidente da República é quem tem legitimidade para dar diretrizes para a política externa do país. O embaixador Rubens Barbosa, que chefiou as missões brasileiras em Londres e Washington, disse que a criação do conselho representaria uma interferência indevida na diplomacia. — É uma ideia exótica, que não existe em lugar algum do mundo e deve ser cortada pela raiz. A política externa deve servir ao Estado, não ao partido que está no poder. A diplomacia existe para defender interesses do país. A proposta foi criticada pelo professor Virgílio Arraes, do Instituto de Relações Internacionais da UnB: — Não vejo razão para criar novo órgão com essa finalidade. O Brasil tem um número razoável de espaços para a discussão da política externa, inclusive nas universidades públicas. A criação de um novo órgão pode dispersar esse debate. |
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Alencar topa ser o candidato Leandro Mazzini
José Alencar Gomes da Silva (PRB), topou ser lançado candidato ao governo de Minas como o nome da base governista. O anúncio pode ocorrer na segunda quinzena de março e depende de dois fatores: um clamor dos partidos aliados pelo seu nome – o que não é difícil – a ser oficializado em breve e, o mais importante, o resultado de um exame sobre o tratamento de seu câncer no abdômen, que sai dia 17 de março. Segundo amigos, o câncer hoje regrediu para 10% do que era em meados do ano passado. Nesse cenário, Alencar sai candidato ao governo. A concretizarse a hipótese, articula-se um nome do PT para seu vice. Mineirices Mineiros de todos os lados dizem que Alencar é o único capaz de fazer Hélio Costa (PMDB), hoje à frente nas pesquisas, abrir mão da candidatura. A conferir.
É a política Num papo recente com a coluna, Alencar disse que seria muito difícil para ele, pela situação da saúde, ser candidato ao governo, e que preferia o Legislativo. Ontem, um interlocutor próximo dele argumentou: a política muda. Sonho meu Não é segredo. É sonho dele governar Minas desde 1994, quando perdeu a eleição. Só a família pode demovê-lo da ideia.
Sobre Angra 3 e o programa nuclear brasileiro Odair Dias Gonçalves, Laércio Vinhas e Alexandre Gromann MEMBROS DA COMISSÃO NACIONAL DE ENERGIA NUCLEAR (CNEN)
Diferentemente do que foi afirmado, o pedido de licença de Angra3,apesardeoreatorter sido projetado há mais de 30 anos, incorpora modernos itens de segurança atualizados com base na experiência operacional de mais de 200 reatores do mesmo tipo em operação no mundo, tendo de cumprir rigorosamente os requisitos de segurança previstos em norma, não podendo ser diferente, pois caso contrário não obteria as licenças necessárias. Levantar a possibilidade de uma repetição do acidente de Chernobyl, fato tecnicamente impossível em relação ao tipo de reator usado no Brasil, é irresponsável e alarmista. Quanto ao trabalho da Cnen no licenciamento da usina, este compete em verificar a conformidade do pro jeto com as normas de segurança, não cabendo avaliações subjetivas. O único envolvimento da Cnen com o projeto de Angra 3 é o processo de licenciamento, que tem como principal foco as questões de segurança, não prohavendo portanto qualquer conflito de interesse. As diferentes funções exercidas pela Cnen, na pesquisa e desenvolvimento e regulação do setor, em outras áreas das ciências nucleares, que não a geração de energia elétrica, é comum em países com programas nucleares emergentes, como vinha sendo o caso brasileiro. A proposta de criação da Agência Reguladora Nuclear, nos mesmos moldes das outras agências reguladoras brasileiras, surge exatamente no momento em que o governo federal decide incrementar o Programa Nuclear Brasileiro. O projeto de criação da agência foi submetido e aguarda manifestação dos ministérios envolvidos no Comitê de Desenvolvimento do Programa Nuclear Brasileiro (CDPNB). Depois disso será encaminhado à Casa Civil que, caso concorde com o mesmo, o encaminhará ao Congresso, cumprindo assim com os trâmites democráticos. Odair Dias Gonçalves é presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen); Laércio Vinhas é diretor de Radioproteção e Segurança Nuclear; e Alexandre Gromann é coordenador-geral de Reatores Nucleares da Cnen.
Eletrobrás manda peritos à Venezuela
Em busca de saídas para solucionar a crise energética na Venezuela, técnicos enviados pelo presidente Hugo Chávez passaram os últimos dias reunidos em Brasília. O objetivo é resolver as dificuldades de geração de energia na Barragem de Guri, a maior daquele país. Quando atinge 240 metros, a usina passa a ter problemas para gerar energia. Peritos da Eletrobrás devem seguir para a Venezuela ainda este mês. Os brasileiros vão repassar os conhecimentos com experiência ocorrida no Pará, na Usina de Tucuruí. No passado, a usina foi alvo de dificuldades semelhantes às que ocorrem na Venezuela. Por isso, os técnicos da Eletrobrás têm experiência para lidar com a falha. A participação dos especialistas brasileiros tem a coordenação dos ministérios de Minas e Energia e das Relações Exteriores. O chefe do Departamento da América do Sul 2 do Itamaraty, ministro Clemente de Lima Baena Soares, cuida das questões políticas, administrativas e legais para a parceria entre o Brasil e a Venezuela. No final do mês passado, os presidentes Chávez e Luiz Inácio Lula da Silva definiram a parceria. Inicialmente, foram enviados para analisar a situação o secretário executivo do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, e o assessor para Assuntos Internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia. Na reunião, Zimmermann e Garcia trataram também da questão do risco de prejuízos para parte do estado de Roraima em decorrência do racionamento de energia na Venezuela, uma vez que a região é abastecida pelo país vizinho. Segundo o Ministério de Minas e Energia, a promessa da Venezuela é de que o corte para Roraima será de no máximo 20 megawatts por mês até março. De acordo com autoridades, o problema no lado brasileiro está sendo solucionado a partir da contratação de energia de produtores independentes.
Irã anuncia seu escudo antimísseis
Um dia após o Irã comunicar oficialmente à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) a decisão de começar a enriquecer urânio a 20%, provocando a ira das potências ocidentais envolvidas na tentativa de negociar um pacto nuclear com a República Islâmica, um alto funcionário da Defesa iraniana anunciou que seu país pretende desenvolver um sistema antimísseis “equivalente ou superior” ao S-300 russo, cujo contrato de entrega a Teerã foi suspenso por Moscou. O anúncio promete atrapalhar ainda mais a relação conturbada entre os aliados dos EUA e o regime dos aiatolás.
– Em um futuro muito próximo, nossos especialistas vão produzir um sistema antimísseis que terá a mesma capacidade do sistema S-300, e inclusive maior potência – declarou à agência Irna o general Heshmatola Kassiri, alto funcionário da Defesa antiaérea do país. – Produzimos nós mesmos todos os nossos equipamentos de defesa antiaérea. Em apenas um caso havíamos decidido importá-los. Era o sistema S-300, que os russos não nos entregaram por motivos injustificáveis. Os países ocidentais e Israel haviam pedido à Rússia que não entregasse o sistema antimísseis ao Irã. Moscou anunciou em 21 de outubro que o contrato estava interrompido. Apesar de possuir extensos laços comerciais com o Irã, a Rússia vem aliando-se cada vez mais às potências na condenação a Teerã pela expansão do seu programa nuclear. A comunidade internacional acusa o Irã de tentar produzir armamento atômico sob o pretexto de um programa nuclear civil, o que o governo iraniano nega. Poucas horas após o anúncio oficial de Teerã de que o país iniciaria a produção de urânio de alto grau, Estados Unidos e União Europeia expressaram sua preocupação e pediram a união da comunidade internacional na possível aplicação de novas sanções contra o regime. Afr onta Ignorando a pressão ocidental, o guia supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, endureceu o tom ontem ao afirmar, em um discurso ante membros da Força Aérea, que o 31º aniversário da revolução islâmica. a ser comemorado nesta quinta-feira, constituirá uma humilhação para os ocidentais. – A nação iraniana (...) infligirá uma humilhação para a arrogância das potências ocidentais (...) que as deixará estupefatas – declarou o aitolá Khamenei, em seu um discurso aos militares. |
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Casa Civil refaz site e ministra fica mais visível Tânia Monteiro, BRASÍLIA
A disputa presidencial está cada vez mais visível na internet. A Casa Civil reformulou seu site e passou a disponibilizar vídeos, discursos, fotografias, agendas e entrevistas da ministra Dilma Rousseff, pré-candidata do PT à Presidência. O banco de imagens do site contava até a tarde de ontem com 51 fotos e 10 vídeos da ministra em eventos oficiais pelo País. Embora a campanha de Dilma tenha sido antecipada no ano passado pelo presidente Lula, a ofensiva na internet estava atrasada. Nos últimos meses, outros presidenciáveis passaram a investir na rede. O governador José Serra (PSDB) já postou 1.400 mensagens no microblog Twitter, alcançando 163 mil seguidores. Marina Silva (PV-AC) e Ciro Gomes (PSB-CE) também entraram no Twitter. Marina ainda lançou um blog. As fotos exibidas no site da Casa Civil mostram Dilma mais descontraída. Em uma dessas imagens, ela aparece com um boné vermelho na cabeça ao lado de moradores de um bairro pobre de Porto Alegre. A imagem guarda semelhanças com fotos tradicionais de viagens de Lula pelos grotões. A Casa Civil conta agora com um fotógrafo oficial, Paulo H. Carvalho, responsável pelas imagens da ministra. Não há no site, porém, fotos de Dilma em eventos do PT. A biografia é curta. Não há referências ao período da ditadura, quando ela participou da resistência ao regime militar. O breve currículo destaca que a economista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul foi secretária da Fazenda de Porto Alegre, secretária de Estado de Energia e ministra de Minas e Energia no governo Lula.
Compras do País embalam setor bélico da França Jamil Chade, CORRESPONDENTE, GENEBRA
O governo brasileiro garantiu à França lucros importantes com as exportações de armamentos em 2009. Enquanto os gastos militares no planeta sofreram uma freada no ano passado diante da crise financeira, as vendas francesas ao mundo tiveram uma alta de 21%, atingindo 7,95 bilhões de euros. Quase metade das vendas em 2009 é referente a contratos fechados pelos franceses para as exportações de quatro submarinos ao Brasil. Para este ano, o contrato com o Brasil é mais uma vez a esperança dos franceses, que nunca conseguiram exportar a nenhum mercado seu caça Rafale, fabricado pela empresa Dassault. Os dados são da Direção Geral de Armamentos da França, entidade governamental ligada ao Ministério da Defesa. Em 2008, as vendas de Paris haviam atingido 6,58 bilhões de euros. No final de 2008, os dois países anunciaram que haviam fechado um acordo de 3,7 bilhões de euros para a compra de quatro submarinos de ataque Scorpène. O acordo foi assinado no ano passado. O governo alemão havia oferecido uma proposta com preço inferior ao que foi oferecido pela França. Para 2010, o governo francês indica que a meta é de obter exportações ainda superiores às taxas de 2009. Mais uma vez, o Brasil promete ser a grande esperança, com a compra de 36 aviões Rafale. Ontem, em uma coletiva de imprensa em Paris, o diretor-geral do órgão governamental, Jacques de Lajugie, indicou que a França espera "com serenidade" a decisão do governo brasileiro sobre os caças. Os franceses teriam oferecido um desconto. Dos US$ 8,2 bilhões (R$ 15,1 bilhões) iniciais, o contrato ficaria em US$ 6,2 bilhões (R$ 11,4 bilhões). O valor inicial era considerado muito alto e o governo brasileiro exigiu a redução para garantir a compra e confirmar que a França é seu parceiro militar estratégico. Os Emirados Árabes Unidos também negociam a compra do avião com os franceses, mas nos últimos anos a tentativa de Paris de exportar seu caça fracassou em todas as ocasiões. Ontem o governo francês indicou a compra de 60 caças de sua própria empresa, além de gastos em outros equipamentos. Em 2009, a França gastou 19,3 bilhões de euros para se rearmar. A França é hoje o quarto maior exportador de armas do mundo, superado por Estados Unidos, Reino Unido e Rússia. O país vinha perdendo espaço, mas com a retomada das vendas, a meta é atingir 10 bilhões de euros em vendas no médio prazo. A França comemora ainda as vendas para a Rússia de um navio militar anfíbio. A encomenda russa tem alarmado as ex-repúblicas soviéticas.
Brasil é pressionado por apoio ao Irã Diplomatas europeus querem voto unânime por sanções a Teerã no Conselho de Segurança da ONU, do qual País faz parte Jamil Chade, GENEBRA e Denise Chrispim Marin, BRASÍLIA
Diplomatas europeus reclamam, nos bastidores, que a posição brasileira tem dificultado a imposição de novas sanções ao Irã pelo Conselho de Segurança (CS) da ONU. A informação foi divulgada pelo jornal francês Le Monde em sua edição de ontem. Segundo a França, é necessária uma atuação em bloco dos membros do CS para que uma resolução seja aprovada. Só a unanimidade colocaria pressão sobre a China, membro permanente e com poder de veto, que não está disposta a apoiar novas sanções. EUA e França renovaram ontem a exigência de punição a Teerã, depois que os iranianos anunciaram planos para enriquecer seu próprio urânio (mais informações na página 14). Para ser aprovada, uma resolução precisa de 9 dos 15 votos do Conselho, incluindo os 5 votos dos membros permanentes - a abstenção não é considerada veto. Além do Brasil, que assumiu uma cadeira em janeiro, a Turquia e a Nigéria, países de maioria muçulmana, também membros não-permanentes, tendem a apoiar a continuação das negociações. O Líbano, cujo governo é formado por uma coalizão com o grupo xiita Hezbollah, é outro país que dificilmente votaria em favor de sanções ao Irã. O Brasil havia assumido a posição de interlocutor entre o Irã e o Ocidente. O Itamaraty ainda defende um acordo para a troca de urânio enriquecido por combustível nuclear com o Irã. A diplomacia europeia, porém, aponta a atitude brasileira como um empecilho à aprovação de novas sanções a Teerã. Paris, Londres e Nova York estariam fazendo gestões para que o Itamaraty reveja sua posição.
RESPOSTA Na ONU, os franceses indicam que o tema vem sendo tratado entre a diplomacia europeia e a brasileira. O frequente contato entre o chanceler Celso Amorim e os diplomatas iranianos é visto como um canal de diálogo entre o Ocidente e Teerã, mas, para os europeus, o diálogo tem um "limite". Em Brasília, o Itamaraty reforçou ontem sua posição em favor do diálogo entre o Irã e o Sexteto - EUA, França, Grã-Bretanha, China, Rússia e Alemanha - sobre o acordo de troca de urânio por combustível nuclear. Amorim disse que falou na semana passada com o secretário de Estado da França para Assuntos Europeus, Pierre Lellouche. Segundo o chanceler brasileiro, apesar da posição dura da França sobre o Irã, em nenhum momento ouviu de seu interlocutor que não havia mais espaço para o diálogo. "Considero que não estão esgotadas as possibilidades de se alcançar uma posição comum entre o Irã e o Sexteto", afirmou Amorim, por meio de sua assessoria de imprensa. A posição indica que o Brasil não apoiará novas sanções no Conselho. Para o Le Monde, apesar de não ser o único país a defender a continuidade do diálogo, o Brasil está "em primeiro plano" entre os países emergentes com assento rotativo no CS contrários às sanções. "O gigante da América Latina tem uma voz distinta do Ocidente sobre a questão nuclear iraniana", afirmou o jornal. "Ele (o Brasil) quer favorecer o diálogo e julga que pressões são contraproducentes." O jornal lembra que o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, visitou o Brasil quando estava sendo alvo de ataques por ter escondido da ONU um dos locais de enriquecimento de urânio. O jornal destaca os acordos comerciais assinados entre os dois países e a visita a Teerã do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, marcada para maio. Há uma semana, o governo de Ahmadinejad afirmou ao Estado que quer o Brasil como seu "principal aliado político" nas Américas. A declaração foi dada pelo chefe do gabinete, Esfandiar Rahim Mashaie, principal assessor político do presidente. "O Brasil é um aliado estratégico e temos uma coisa em comum: ambos lutamos pela independência", afirmou Mashaie. "O ponto central da política externa do Brasil é não deixar que ela seja ditada pelos outros."
Governo colombiano prende 21 traficantes BOGOTÁ, AP
A polícia colombiana, com o apoio da DEA (agência antidrogas americana), desarticulou cinco redes de narcotraficantes e prendeu 21 pessoas ligadas ao tráfico - todas com pedidos de extradição para os EUA -, na maior operação antidrogas da última década na Colômbia. O diretor da Polícia Nacional colombiana, general Oscar Naranjo, disse que entre os capturados estão 12 pilotos e uma mulher, que seria o contato dos cartéis da Colômbia com Joaquín "El Chapo" Guzmán, suspeito de liderar o Cartel de Sinaloa e um dos homens mais procurados do México. Apesar de garantir que "não há nenhuma figura emblemática entre os detidos", Naranjo afirmou que a operação atingiu o "coração" dos cartéis, já que eram pessoas responsáveis pela distribuição da droga na região. "Foi o golpe mais duro que aplicamos contra o narcotráfico desde o início da Operação Milênio", disse Naranjo, em referência à prisão de 31 traficantes colombianos em 1999. "Estamos falando de uma operação que durou dois anos e permitiu o recolhimento de provas irrefutáveis sobre o tráfico, a identificação de rotas, o uso de aviões e de pistas de pouso em dez países da América."
Chávez decreta emergência elétrica Medida permitirá ao governo acelerar a compra de equipamentos para enfrentar a crise de escassez de energia CARACAS, AP
O presidente venezuelano, Hugo Chávez, emitiu ontem um decreto de emergência elétrica que permitirá ao governo acelerar a compra de equipamentos para enfrentar a crise na Venezuela por causa da seca da Represa Guri, que é a principal geradora de energia do país. "Aqui está o decreto", disse Chávez em um programa de rádio ao anunciar a medida que facilitará a adoção dos planos de manutenção para melhorar a capacidade de geração de energia. O governo venezuelano lançou no mês passado um plano de racionamento a nível nacional para compensar o déficit de energia. Por causa de problemas de operação na capital com a aplicação de cortes de luz escalonados de quatro horas, Chávez suspendeu a medida em Caracas, mas manteve o racionamento no restante do país. O governo também impôs uma redução no horário de funcionamento das lojas dos shopping centers e obrigou setores industriais, residenciais e comerciais a reduzir em 20% o consumo mensal de energia.
RCTV A direção e os funcionários da TV a cabo RCTV pediram ontem à Organização dos Estados Americanos (OEA) sua mediação para retomar as transmissões suspensas no mês passado. A Comissão Nacional de Telecomunicações sustenta que a RCTV não cumpriu requisitos recentes, como a transmissão de todos os discursos de Chávez em rede nacional.
China descobre reservas de petróleo e gás
Um grande cinturão de petróleo e gás foi descoberto na Província de Liaoning, nordeste da China. As reservas são estimadas em mais de 1,4 bilhão de toneladas, informou o jornal estatal People"s Daily, em seu website. É a maior descoberta de petróleo no nordeste da China em décadas. Além disso, a Comissão de Reforma e Desenvolvimento Nacional, o principal órgão planejador da China, aprovou um plano de desenvolvimento para a maior mina de carvão da província de Gansu, no noroeste do país. A mina possui reservas de 7,1 bilhões de toneladas, segundo a agência de notícias Xinhua.
A necessária reforma do comércio exterior Rubens Barbosa
Nunca houve na História deste país um momento em que a politização das decisões nas negociações comerciais externas tenha sido tão intensa, influenciada pelo Itamaraty e a reboque da política externa brasileira. A politização das decisões nas negociações comerciais, contudo, não é uma excentricidade brasileira. Até o começo dos anos 1960, por mais de uma década o Departamento de Estado, o equivalente do Itamaraty nos EUA, foi responsável pela condução das negociações relacionadas com comércio exterior e investimentos e pelo acompanhamento dos acordos comerciais. Em 1962, por razões de política externa, o presidente Kennedy pediu ao Congresso a redução das barreiras tarifárias no comércio com a Europa, em rápido processo de integração econômica. Como era de esperar, houve forte reação não só do setor produtivo e exportador, como também do Congresso, em vista da prevalência de considerações de natureza política, e não do estrito interesse comercial. Nos EUA, ao contrário de outros países, inclusive o Brasil, a competência para legislar sobre comércio exterior é do Congresso, e não do Executivo. Esse fato deriva de circunstâncias históricas relacionadas com a criação do Estado norte-americano, em função de certos compromissos comuns, aceitos pelos 13 Estados independentes, inscritos na Constituição de Filadélfia, em 1787. Dessa forma, contra a vontade do Executivo, na época presidido por John Kennedy, o Congresso aprovou o Trade Expansion Act, de 1962, determinando que o presidente nomeasse um representante especial que conduzisse as negociações comerciais, de modo não politizado e sem a influência do Departamento de Estado. O Departamento de Estado não foi afastado dos entendimentos, mas a legislação refletiu claramente o interesse do Congresso em obter um equilíbrio mais adequado entre interesses domésticos e internacionais na formulação e na execução da política de comércio exterior. Pela legislação então aprovada, o representante comercial deveria presidir um novo colegiado interministerial que se ocuparia de comércio exterior em tempo integral e faria recomendações no tocante às negociações comerciais. Em 1963, esse representante comercial ganhou mais peso e acabou vinculado à Presidência da República, ganhando status ministerial, com a criação do USTR. A partir da Rodada Kennedy do Gatt, a negociação comercial multilateral, regional e bilateral passou a ser conduzida pela Representação Comercial. Sucessivas modificações, ao longo dos últimos 40 anos, definiram a competência do órgão, que conta hoje com cerca de 200 funcionários e coordena 17 Ministérios e agências governamentais. Legislação mais recente, de 1984, atribuiu ao USTR responsabilidades adicionais para formular e coordenar a execução de políticas relacionadas com o comércio de serviços, a coordenação de políticas comerciais com outros Ministérios e para atuar como o principal porta-voz para a política de comércio internacional. Além disso, o USTR é o responsável perante o presidente e o Congresso pela gestão dos acordos comerciais e pela formulação de propostas sobre barreiras não-tarifárias e outras matérias relacionadas com acordos comerciais. Cabe-lhe também presidir o conselho interministerial que propõe medidas ao presidente na formulação e na execução da política comercial. É ainda o principal assessor do presidente para a coordenação dos interesses de outras áreas do governo nas negociações internacionais de comércio e de investimentos. O exemplo dos EUA, pelo pragmatismo das respostas dadas às distorções que existiam no processo decisório, é relevante quando se examina essa questão no Brasil. A queda de mais de 20% no comércio exterior brasileiro em 2009 não pode ser atribuída apenas à recessão internacional e à desaceleração do consumo de produtos brasileiros nos mercados. A falta de uma política voltada para o comércio exterior talvez seja a causa principal. Ao contrário de muitos países, no Brasil não há um ponto focal para a defesa dos interesses do setor exportador, que se ressente da falta de um comando unificado e de um processo de coordenação mais efetivo entre os diferentes Ministérios. A Câmara de Comércio Exterior (Camex), que seria o órgão competente para discutir e aprovar recomendação ao presidente para uma política que envolva todo o governo e seja executada de forma coordenada, não tem força política para propor, muito menos para administrar ações concretas de apoio ao setor. Não se trata de falta de competência ou de capacitação do órgão para a tarefa, mas sim de ausência de vontade política do Executivo para reformar o processo decisório, como foi feito nos EUA. As metas fixadas pelo governo não estão sendo alcançadas e o Brasil está perdendo mercado no contexto global do comércio exterior, voltando a ser responsável apenas por 1% do total das trocas internacionais. Por considerações políticas, as negociações de acordos comerciais ficaram paralisadas nos últimos oito anos. Será importante que o setor de comércio exterior se manifeste publicamente a favor de mudanças profundas no processo decisório, para fortalecer a Camex. A existência de um comando unificado com efetivo poder de coordenação, pela criação da presidência da Camex, em nível ministerial, separada do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e subordinada diretamente ao presidente da República, poderia ser uma alternativa. A campanha presidencial oferece uma ampla possibilidade para o engajamento direto dos candidatos nessa questão. Tendo em vista os interesses burocráticos envolvidos, somente a participação direta e a vontade política do presidente eleito poderão, em início de mandato, ter a força e a liderança necessária para uma reforma dessa natureza. Rubens Barbosa é presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp |
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Gênios incompreendidos ELIANE CANTANHÊDE
BRASÍLIA - Lula jogou a isca, e FHC, cansado de engolir sapos, comeu. A vaidade falou mais alto do que o pragmatismo, e o ex-presidente entrou na campanha de 2010 comparando o seu governo ao do sucessor e deflagrando o que Lula mais queria: uma campanha plebiscitária. Só falta saber o que Serra acha disso. No domingo, FHC usou um artigo para mostrar as vantagens das privatizações da Vale e das teles e os avanços na área social, além do sucesso da estabilidade econômica. No final, se disse pronto para o confronto de resultados: "A briga é boa, nada a temer". Ontem, os jornais publicavam versões de que FHC teria dito que Dilma não passa de um boneco manipulado por Lula. O Planalto e o PT adoraram. Preferem o choque Lula-FHC ao Dilma-Serra. Ainda por cima, acham que FHC ajuda a divulgar a candidata deles. Já que é hora de comparações: enquanto a campanha de Dilma fala a mesma língua, a da oposição é uma salada de posicionamentos, provocações, táticas e estratégias. Cada um por si. O presidente do PSDB, Sérgio Guerra, avisou que, se eleito, Serra vai botar a economia de ponta-cabeça. Agora, FHC cede à estratégia dos adversários. E, no meio tempo, o próprio Serra quer trocar "Polícia Militar" por "Força Pública", só para irritar os milicos. O "andar de cima" (com licença, Elio Gaspari) se assustou com Guerra, o "andar do meio" foi liberado para a batalha marqueteira de números, e os militares, que têm capacidade de multiplicação de votos no "andar de baixo" pelo país afora, passam a ter tanto medo de Serra quanto já tinham de Dilma. Tem alguma coisa errada com esses tucanos ou eles são uns gênios de eleição. Tão geniais que só eles mesmos conseguem entender. Mesmo sem se entenderem.
China passa UE e vira maior parceira comercial de Teerã DO "FINANCIAL TIMES"
A China superou a União Europeia e se tornou o maior parceiro comercial do Irã, de acordo com uma análise dos elos comerciais entre os dois países. O relacionamento econômico cada vez mais forte entre Pequim e Teerã é um dos motivos subjacentes da relutância da China a reforçar as sanções econômicas impostas ao Irã, enquanto os países ocidentais ampliam campanha para conter a ambição nuclear de Teerã. Dados oficiais ainda retratam a UE como maior parceria comercial de Teerã, com US$ 35 bilhões em 2008, ante US$ 29 bilhões para a China. Mas esses números disfarçam o fato de que boa parte do comércio iraniano com os Emirados Árabes Unidos consiste de bens canalizados de ou para a China. Majid-Reza Hariri, vice-presidente da Câmara de Comércio Irã-China, disse que trasbordos à China respondiam por mais de metade dos US$ 15 bilhões anuais em comércio entre Teerã e os emirados. Se esse dado for levado em conta, o comércio chinês com o Irã totaliza no mínimo US$ 36,5 bilhões, mais que o total de todo o bloco europeu. Não é possível chegar a uma conclusão definitiva porque não está claro que fatia do comércio iraniano com a UE é canalizada via Emirados Árabes Unidos. O Irã importa bens de consumo e maquinaria da China e exporta ao país petróleo, gás natural e petroquímicos. Hoje, a China depende do Irã para 11% de suas necessidades energéticas, de acordo com a câmara de comércio. No passado, a China permitiu a aprovação de três resoluções da ONU impondo sanções ao Irã. Mas o embaixador do país enfatizou a necessidade de negociações. "Nossa abordagem é a de que o diálogo e as negociações sempre produzem resultados melhores", disse Xie Xiaoyan, embaixador chinês em Teerã. "As sanções não produzirão os resultados almejados [pelo Ocidente], por mais paralisantes que sejam". Mas alguns analistas enfatizam que essa posição possa mudar. Yin Gang, especialista em assuntos do Oriente Médio na Academia Chinesa de Ciências Sociais, disse que "a China é extremamente cautelosa em seus tratos com o Irã, mesmo no comércio e energia. Os chineses não mantêm relacionamento estreito demais com o Irã porque poderia prejudicar suas relações com muitos outros países." Caso a China impeça o Conselho de Segurança de aprovar as sanções na ONU, EUA e UE ainda teriam a opção de impor medidas unilaterais. A questão é determinar se os elos entre Irã e China atenuariam o impacto dessas medidas.
Medo do Irã acelera corrida às armas entre os vizinhos Para líderes do golfo, Teerã com ogivas nucleares e arsenal de mísseis significaria uma ameaça direta à ordem regional Relações entre Irã, berço do islã xiita, e o mundo árabe, cuja maioria é sunita, são marcadas por profunda e histórica desconfiança MARCELO NINIO DE JERUSALÉM
Com exceção da Síria, que mantém uma aliança estratégica com Teerã, todos os regimes árabes deixam clara sua preocupação com as ambições nucleares iranianas. Para os líderes árabes, um Irã armado com ogivas nucleares e um arsenal de mísseis de médio e longo alcance significaria uma ameaça direta à ordem regional e à própria estabilidade de seus governos. A perspectiva mantém a vizinhança em permanente alerta, diante da declarada ambição do regime iraniano de alcançar a hegemonia regional. Isso também deflagrou uma corrida armamentista. Em seu balanço sobre o setor de defesa mundial em 2009, o respeitado centro britânico Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS, na sigla em inglês), afirma que a preocupação com o Irã levou a maioria dos países do golfo Pérsico a "buscar silenciosamente formas de garantia estratégica dos Estados Unidos e adquirir os mais modernos equipamentos militares". Dois exemplos citados pelo anuário são os bilionários gastos em armas anunciados em 2008 pelo governos dos Emirados Árabes Unidos (R$ 17,4 bilhões) e da Arábia Saudita (R$ 15,6 bilhões). Além disso, os EUA aceleraram a instalação de um sistema de defesa na região, com o envio de mísseis antimísseis Patriot a quatro países do golfo e dois navios equipados com armamento semelhante para patrulhar a costa do Irã. Um estudo publicado pelo Instituto Washington para o Oriente Médio (EUA) sobre as possíveis reações do mundo árabe a um Irã atômico afirma que os regimes da região compartilham a convicção de que o programa nuclear civil de Teerã é apenas um pretexto para construir a capacidade militar. Para o estudo, embora não haja motivos para prever que os EUA deixem de atuar como "guardiães da segurança no golfo", os países da região poderão apostar em outros tipos de armas de destruição em massa, como armas químicas, para compensar sua falta de capacidade nuclear. As relações entre o Irã, berço do islã xiita, e o mundo árabe, em sua maioria sunita, são tradicionalmente marcadas por uma profunda desconfiança, que tem origem em séculos de disputa política e religiosa. A rivalidade se acentuou após a instalação do regime teocrático em Teerã, em 1979, e a ambição iraniana de exportar a Revolução Islâmica. Em grande parte da imprensa do mundo árabe e muçulmano, o anúncio de que o Irã dará mais um passo em seu programa nuclear, com o enriquecimento do urânio a 20%, foi retratado ontem como um ato deliberado para sabotar as negociações com o Ocidente. "Ahmadinejad desafiador", foi a manchete do jornal "Hurryet", um dos mais importantes da Turquia. Para o libanês "L'Orient Le Jour", o Irã subiu mais um degrau "em sua escalada contra o Ocidente". Em editorial, o "The Peninsula", do Qatar, onde deve ser instalada uma bateria de mísseis Patriot, manifesta preocupação também com avanço do programa balístico iraniano. Ao mesmo tempo, a mídia árabe não para de publicar supostos indícios de que um ataque israelense às instalações iranianas pode ser iminente. Há poucos dias, a imprensa do Egito divulgou que dois navios de guerra israelenses teriam passado recentemente pelo canal de Suez, navegando em direção ao golfo Pérsico. A passagem, segundo fontes oficiais, teria sido cercada de cuidados de segurança por parte do governo egípcio, um dos maiores rivais do Irã na região.
Sem Lula, Unasul debate hoje ajuda ao Haiti Brasil, que comanda missão de paz no país e defendeu plano próprio para reconstrução, será representado por assessor do presidente Planalto atribui ausência de brasileiro a compromissos pré-agendados em Minas Gerais; chanceler Celso Amorim também não vai FLÁVIA MARREIRO DA REPORTAGEM LOCAL
O Brasil, que tem pretensões de liderança regional e pregou um "plano Lula" para a reconstrução do Haiti, não enviará nem seu presidente nem seu chanceler para participar hoje de uma cúpula de chefes de Estado da Unasul (União de Nações Sul-Americanas) em Quito que tratará justamente de planos de auxílio da região ao país caribenho, devastado por um terremoto no último dia 12. No encontro convocado pelo presidente equatoriano, Rafael Correa, que tem a chefia rotativa do órgão multilateral, a Unasul deve insistir num ponto: as ações de ajuda não podem solapar a soberania haitiana. A defesa da soberania e a necessidade de reforçar instituições do governo do Haiti têm sido a tônica do discurso dos países da região, em especial do Brasil, desde a tragédia. A mensagem costuma ser acompanhada de críticas, veladas ou não, à presença de 20 mil militares americanos envolvidos em ações humanitárias no Haiti, sem integração total à missão de paz da ONU no país. O Brasil tem o comando militar da Minustah -com total soldados e policiais que não alcança a metade do contingente dos EUA- e defende a participação ativa dos países da região na reconstrução. O chanceler Celso Amorim sugeriu que os esforços de ajuda sejam batizados de Plano Lula. O Palácio do Planalto diz que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não irá ao Equador por motivos de agenda. O presidente, que deve visitar o Haiti no dia 25, passará o dia em Minas Gerais, onde inaugurará obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e terá encontros com políticos locais. Já o Itamaraty diz que compromissos em Brasília impediram a participação de Amorim. O Brasil será representado pelo assessor especial da Presidência, Marco Aurélio Garcia, e por uma comitiva do Itamaraty chefiada pelo embaixador Antonio Simões, subsecretário para a América do Sul. O presidente Correa afirma que o encontro de hoje irá além da questão humanitária. "Sem governo e sem instituições, o país não poderá seguir adiante, a não ser como colônia, e isso nós não vamos permitir", disse. O ministro equatoriano da Segurança, Miguel Carvajal, disse à Folha que a intenção é delinear uma linha de ação complementar à da Minustah, que tem foco principal na segurança. "Quando pregamos a cooperação Sul-Sul também falamos da cooperação com os demais países da região", diz. O presidente do Haiti, René Préval, abrirá a reunião de hoje, expondo "as necessidades e prioridades" de seu país agora. Entre os participantes da cúpula estará o presidente venezuelano, Hugo Chávez, que tem atacado duramente a presença americana no Haiti. Chávez tampouco endossou o envio da Minustah após a derrubada do presidente Jean-Bertrand Aristide, em 2004. Na crítica à missão, porém, Caracas está isolada. Metade do contingente da Minustah é de latino-americanos. Até a aliada irrestrita Bolívia, de Evo Morales, contribui com soldados e policiais. |
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SEGURANÇA Combate à criminalidade na fronteira Programa de policiamento especializado pretende apoiar estados para qualificar policiais e repassar equipamentos Renata Mariz
Oito dos 11 estados brasileiros que fazem fronteira com países vizinhos selarão um compromisso, hoje, com o Ministério da Justiça, visando ao combate da criminalidade nessas áreas problemáticas. Secretários de segurança pública ou seus representantes virão a Brasília para assinar um acordo de cooperação federativo no sentido de implementar o Projeto de Policiamento Especializado na Fronteira, denominado pela sigla Pefron. Gestado desde março de 2008, o programa pretende apoiar os estados na construção de bases para suas ações, qualificando policiais e repassando equipamentos, como embarcações e viaturas especiais. Para tanto, estão previstos R$ 55 milhões para o Pefron vindos tanto do orçamento do Fundo Nacional de Segurança Pública quanto do Programa Nacional de Segurança com Cidadania (Pronasci). No total, espera-se que ao menos 900 homens treinados no âmbito do Pefron estejam atuando nos 16,8 mil quilômetros de fronteiras brasileiras com 10 países em 2010. “É uma gota no oceano, mas temos certeza de que fará uma grande diferença”, afirma Daniel Rocha, chefe de gabinete da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) do Ministério da Justiça. Hoje, somente unidades da Federação localizadas no Centro-Oeste e no Norte assinarão o acordo. Posteriormente, os estados do Sul do país serão incluídos. “Alguns estão analisando o acordo, propondo mudanças. Mas logo todos estarão trabalhando conosco”, destaca Daniel.
Evasão A ideia é montar programas de policiamento bem alinhados com a realidade regional de cada lugar. Dos 13 crimes que ocorrem em áreas de fronteira listadas pela Senasp, o tráfico de drogas é o mais comum, presente em todos os estados. Roubo de cargas e veículos aparece em segundo lugar — só não ocorre no Amapá. Tráfico de armas e munições, crimes ambientais, refúgio de criminosos e contrabando são delitos que também castigam grande parte das fronteiras. Tráfico de pessoas e exploração sexual, entre outros crimes, são mais localizados. A ocorrência de evasão de divisas, por exemplo, é verificada apenas no Amapá e no Rio Grande do Sul. Para tentar reverter o quadro de 86% dos profissionais de segurança sem curso de nível superior no país, o Ministério da Justiça e o Ministério da Educação oficializaram ontem a inclusão dos cursos tecnológicos (que têm duração menor que uma graduação tradicional) em Segurança Pública, em Serviços Penais e em Segurança do Trânsito no Catálogo Nacional de Cursos Superiores do Ministério da Educação (MEC). As faculdades interessadas em oferecer os cursos podem iniciar os vestibulares a partir do segundo semestre deste ano. O ministro Tarso Genro considerou a criação dos cursos “uma grande e profunda modificação” que foi concebida após um longo caminho de debate. “Os cursos não vão só enriquecer a estrutura de segurança ao qual eles (agentes de segurança) pertencem, como também credenciá-los para atuar em outras áreas de formação, reproduzindo o ensinamento que eles receberam”, disse Tarso.
Visão do Correio Alerta nuclear
O programa nuclear iraniano causa preocupação crescente à comunidade internacional. O anúncio confirmado ontem de que o país começará a processar urânio enriquecido a 20% aumentou a apreensão do mundo. Até agora, a percentagem ficava entre 3% e 5%, taxa adequada para uso civil. O salto abrirá as portas para emprego medicinal. A fabricação de bomba nuclear exige 90% de enriquecimento. Serviços de inteligência dos Estados Unidos e de países da União Europeia calculam que Teerã tem possibilidade de atingir esse patamar em meses e de chegar à bomba em menos de cinco anos. Tudo indica que a intenção de Hahmoud Ahmadinejad é ter condições de dominar o ciclo de feitura do artefato atômico. Ele nega. Insiste que a produção nuclear tem fins apenas pacíficos — para gerar energia elétrica. Mas o comportamento errático eleva as suspeitas. Ele cerceia a ação de inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) embora seja signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear. Em outubro, negociou com seis países — Estados Unidos, China, Rússia, Alemanha, França e Grã-Bretanha — acordo de transferência para o exterior do processamento de urânio. Na semana passada, voltou atrás. Há quem preveja que, até o fim do ano, Washington venha a enfrentar alerta nuclear. Trata-se da percepção de investida militar iminente. Israel atacaria o Irã. Há antecedentes. Telavive bombardeou instalações nucleares do Iraque de Saddam Hussein. Resta saber se a Casa Branca dará o apoio indispensável (mesmo que implícito) à iniciativa. Autoridades americanas e da União Europeia propõem intensificar as sanções para evitar que o caso caia nas mãos de Telavive. China e Rússia, membros do Conselho de Segurança da ONU e, por isso, com poder de veto, não concordam com o aperto do garrote. A negativa, porém, não impede que os EUA e o bloco europeu imponham restrições unilaterias, sobretudo na área financeira. Apesar de a cautela não ser a marca de Ahmadinejad, causa estranheza o comportamento provocador que exibe. Ele poderia agir com discrição, especialmente quando tem consciência da repercussão negativa das declarações bombásticas que não se constrange de fazer. O fato permite inferir que o destinatário das mensagens seja o público interno, não o externo. O regime dos aiatolás sofre forte pressão dos iranianos. Nada melhor, para procrastinar enfrentamentos intestinos, que recorrer à velha e conhecida receita de atacar inimigos fora de casa. É importante, porém, não pagar para ver. A ONU deve endurecer com sanções capazes de impedir o acesso de Teerã a armas nucleares. Novo conflito armado no Oriente Médio é cenário que assusta os cinco continentes. Direta ou indiretamente, todos pagarão por ele. O preço, alto demais, está acima das possibilidades do mundo.
HAITI Agora, a segunda onda de feridos
Praticamente um mês depois do terremoto que devastou grande parte do Haiti, as equipes médicas mobilizadas em Porto Príncipe, a capital do país, estão lidando com uma nova onda de pacientes, que sofrem com ferimentos menos aparentes, mas também ligados à catástrofe de 12 de janeiro. Anne Setoute, 53 anos, por exemplo, não dorme há três dias devido a uma dor nas costas que a impede de respirar. Algo caiu em suas costas no dia do tremor. A casa onde morava desabou no terremoto, e ela hoje mora na rua. Ao lado dela, Jean-Baptiste André, 55 anos, também está no hospital pela primeira vez. Ele não foi ferido no terremoto, mas sente os dois pés “quentes” e revela ter uma dor no estômago. “A primeira onda de feridos veio com traumatismos, fraturas e queimaduras. Desde a semana passada, voltamos a uma medicina mais clássica”, comenta Christian Riello, tenente-médico responsável pela unidade da segurança civil no hospital de Diquini, em Carrefour, na periferia oeste de Porto Príncipe. Hoje, além dos partos, as equipes médicas também tratam muitos bebês “que vivem em condições precárias de higiene”. A notícia da presença de uma equipe médica internacional em um bairro se alastra muito rapidamente pelas ruas, e longas filas não demoram para se formar. Os feridos atendidos nos primeiros dias depois da tragédia aparecem agora para trocar os curativos e verificar a evolução dos problemas. Muitos se instalam nos jardins dos hospitais, sob as tendas dos chamados “serviços pós-operatórios”. Há ainda alguns feridos graves, que demoraram para vir ao hospital por não terem conseguido chegar antes à capital por seus próprios meios — mas eles são cada vez mais raros. “O problema mais sério que temos agora são as infecções, principalmente as ligadas à falta de higiene ou a ferimentos que não cicatrizaram”, explica Danielle Laporte Chastes, 23 anos, enfermeira na República Dominicana que se tornou a coordenadora adjunta de um hospital móvel instalado em uma zona industrial de Porto Príncipe. Outros problemas são as dores de barriga — como as de Jean-Baptiste André — ou nas costas, decorrentes de uma somatização da ansiedade provocada pela catástrofe e pelos múltiplos tremores secundários que se seguiram. “A primeira equipe de psicólogos cuidou principalmente dos socorristas”, admite Damien Deluz, psicólogo da segurança civil. “Nesse tipo de tragédia, a fase de choque inicial é seguida por uma etapa de estresse pós-traumático, quando a pressão começa a cair”, explica Deluz. Em Diquini, pacientes com braços e pernas enfaixadas se amontoam em um caminhão. “Fiquei sabendo há uma hora que um cirurgião especialista em enxertos de pele estaria no hospital de Canapé Vert hoje à noite e amanhã, então, estou enviando o maior número possível de pessoas para lá. Essa é a chance da vida delas”, diz Riello. |
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Há quase 50 anos responsável pela manutenção do armamento da polícia carioca, Sérgio Mouta acompanhou a evolução bélica do violento conflito do Rio de Janeiro com os traficantes Wilson Aquino
Há 46 anos, o comissário Sérgio Romero Mouta desempenha uma tarefa que exige extrema habilidade manual e profundo conhecimento de mecânica. Com a delicadeza de um ourives, ele desmonta o artefato de trabalho para limpar os pequenos elementos da engrenagem, trocar partes desgastadas, lubrificar molas, varrer a poeira com minúsculos pincéis, desempenar os pedaços amassados com suaves marteladas e até se arrisca a criar, adaptando peças de objetos semelhantes, quando não há sobressalentes para substituir as originais danificadas. Um trabalho artesanal, meticuloso e da maior importância, já que o resultado é uma questão de vida e morte. Sérgio Mouta, ou simplesmente Serginho, é o primeiro armeiro da história da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Seu trabalho é cuidar de fuzis, pistolas, revólveres e tudo o mais que usa bala e pode matar. Testemunha viva da evolução bélica das forças de segurança e do crime organizado, Serginho recorda que quando começou na antiga Polícia Municipal do Distrito Federal, em 1963, a polícia usava armas hoje consideradas rudimentares, como o revólver Smith & Wesson, calibre 38, e carabinas Reising, de 12 tiros. Menos mal, porque à época muitos bandidos não passavam de punguistas, golpistas e malandros, que rendiam suas vítimas com canivetes earmas de pequeno porte, como revólveres calibre 22 ou 32 e fugiam ao ouvir a sirene das patrulhas. “Arma é tudo igual, desde os tempos do Colt. Ela tem é que funcionar” Sérgio Romero Mouta, armeiro da Polícia Civil do Rio Já na década de 70, a polícia passou a encomendar submetralhadoras Walther, além de pistolas Taurus e espingardas de repetição Mosberg e Remington, ambas americanas, calibre 12. Nessa ocasião, o crime já começava a se organizar, e no mercado negro, os bandidos tinham acesso às pistolas calibre 45, de uso restrito das Forças Armadas, bem como as escopetas calibre 12. Porém, foi na década de 80 que Serginho viu que no paiol da polícia já não se encontrava armamento capaz de competir com o poder de fogo do crime organizado, que passou a contrabandear, junto com drogas como cocaína e maconha, metralhadoras Ina e Uzi de fabricação israelense, calibre 9 mm com carregadores de até 40 tiros. Nos anos 90, com os bandidos dominando territorialmente a maior parte das quase 500 favelas da cidade e defendendo seus bunkers com a força letal dos fuzis AK- 47 e M-16, a polícia se viu acuada. Subir o morro para prender traficantes exigia um planejamento e um contingente muito grande de agentes, porque então os criminosos já não corriam mais dos homens da Lei. Enfrentavam. Para fazer frente ao arsenal do crime e ao mesmo tempo driblar a burocracia imposta para a aquisição de armas, a polícia do Rio teve que pedir autorização à Justiça para fazer uso do armamento apreendido com os próprios criminosos. Serginho acompanhou o avanço tecnológico das armas, mas, com a objetividade que aprendera na profissão, decreta: “Arma é tudo igual, desde os tempos do Colt. Ela tem é que funcionar.
EXPERIÊNCIA Sem ter quem fizesse seu trabalho, Mouta teve que abandonar a aposentadoria, voltar e treinar policiais mais jovens em seu ofício ” O Colt em questão é o industrial americano Samuel Colt, que, em 1835, inventou o revólver mais famoso do mundo, o Colt 45. Filho do sargento do Exército José Mouta, um dos fundadores da polícia de Vigilância do Rio, em 1934, Serginho entrou para a área de segurança pública como mecânico em 1963 – quando nem existia a profissão de armeiro na instituição e a manutenção era feita pelas Forças Armadas. “O armamento ia para o Exército e às vezes demorava um ano para voltar”, lembra ele, que assumiu a missão em 1965. Ao longo de tantos anos, estima que tenha manuseado mais de 100 mil armas, entre as oficiais da polícia e as apreendidas com criminosos. A importância do comissário para a instituição policial ficou clara quando ele anunciou a aposentadoria no início de 2009. “Sem o Serginho, a situação ficou tão grave que tive que criar cursos de armeiros para formar gente para substituí- lo”, revela o chefe da Polícia Civil, delegado Allan Turnowski, afirmando que Sérgio Mouta é um dos profissionais mais respeitados da polícia. O comissário, que como mestre na matéria hoje dedica boa parte de seu tempo repassando o conhecimento adquirido através de décadas de prática, garante que a manutenção correta é o grande segredo para o funcionamento perfeito da máquina de matar. “Ocerto é o policial fazer a limpeza e lubrificação, com óleo próprio, da arma que usa. Mas, infelizmente, tem gente que não sabe nem desmontar uma pistola”, adverte Serginho, apontando a qualidade das munições como outro causador de defeitos nos armamentos. Para Serginho, uma boa arma pode fazer a diferença, mas o ator principal da ação, desde os remotos tempos das garruchas, continua sendo o dono do dedo que aperta o gatilho. Embora admire os objetos de seu trabalho, ele lamenta a invenção de Colt. “Isso não era para existir.”
EM BUSCA DE UM CANDIDATO Pela primeira vez os movimentos sociais vão divididos para uma eleição e alguns até defendem voto nulo Hugo Marques e Sérgio Pardellas NOVO RUMO - MST já não marcha mais unânime a favor do PT
Desde 1989, era fácil para os movimentos sociais escolherem um candidato a presidente. O nome de Luiz Inácio Lula da Silva reunia todas as expectativas daqueles que defendem as bandeiras socialistas ou lutam por questões caras às minorias. Depois de dois mandatos, porém, o PT – pela primeira vez na história do País – já não forma mais o consenso justamente entre aqueles que, há 30 anos, desenharam o mapa de seu DNA. Se algum dado pode mitigar esse desgaste da legenda, lá vai: nemo PT nem qualquer outro partido. Os movimentos sociais iniciam a campanha de 2010 divididos. Dirigentes de várias organizações ouvidos por ISTOÉ reclamam de falta de diálogo em torno de propostas para o País e do distanciamento dos candidatos ao Palácio do Planalto. “Muita gente está defendendo o voto nulo”, revela dom Tomás Balduíno, representante da Comissão Pastoral da Terra (CPT) – entidade que, desde sua origem, é quase um sinônimo de PT. Dom Tomás é avesso aos projetos do PSDB de José Serra, mas também não vê sentido em se alinhar à candidatura da ministra Dilma Rousseff. “A posição do pessoal é não votar na candidata do Lula, pois não há diferença com o governo do Fernando Henrique Cardoso”, diz. Além da decepção por assistir Lula sustentar o que consideram o mesmo programa econômico “neoliberal” de FHC, os movimentos sociais têm pouca identificação com Dilma – coisa que com Lula ocorria de forma natural. No Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), muitos que sempre estiveram abraçados a Lula não têm nenhum diálogo com Dilma. “Não conheço a Dilma pessoalmente”, diz Gilmar Mauro, um dos principais ideólogos do MST. “Nas reuniões com o Lula, ela nunca participava.” O coordenador nacional, João Pedro Stédile, deve participar da elaboração de uma pauta única de reivindicações dos movimentos sociais e das centrais para ser entregue aos candidatos. Entre alguns militantes do MST, há muitos que votam em Marina Silva. O descontentamento na CPT, no MST e no Movimento de Atingidos por Barragens (MAB) tem origem nas obras do PAC, principalmente nas hidrelétricas, que segundo eles expulsam ribeirinhos, índios e sem-terra. A autorização para a construção da usina de Belo Monte, no rio Xingu, por exemplo, foi comparada nos sites do MST e do MAB a “mais um presente” do governo Lula para as construtoras. O MST também reclama do pouco avanço da reforma agrária e da disseminação dos transgênicos. Nas centrais sindicais, o quadro é semelhante. No dia 27 de janeiro, Lula reuniu-se com a cúpula do PDT e ouviu reclamações. “Dilma, você não é o Lula, você tem que se aproximar dos trabalhadores, você está distante dos trabalhadores, dos movimentos sociais”, pediu o deputado Paulo Pereira da Silva, presidente da Força Sindical, que reúne 12 milhões de trabalhadores. “Mas eu já fui à Força Sindical”, respondeu Dilma. “Pôxa, já faz mais de um ano.” A ministra fez um mea-culpa: “Eu estou longe do movimento social mesmo.” Ela prometeu que após o Carnaval vai visitar as centrais e as sedes dos movimentos sociais. Há dificuldade de unificar a Força porque o vice-presidente, Melquíades de Araújo, é ligado ao tucano Geraldo Alckmin e defende o apoio a Serra. Na União Geral dos Trabalhadores, o presidente Ricardo Patah, que no passado chegou a ser vaiado entre os pares por apoiar Lula abertamente, agora prega uma consulta a todos os candidatos. “Vamos conversar com o Serra e a Dilma, em torno de um projeto de inclusão social e uma revolução na educação”, diz Patah. “Queremos discutir política de salário mínimo, terceirização e lucro de resultados.” A única central que defende voto só em Dilma abertamente é a Central Única dos Trabalhadores (CUT), com sete milhões de filiados. “Sabemos quem não queremos de volta”, diz o presidente da CUT, Artur Henrique da Silva Santos. Com a intenção de atrair seus tradicionais aliados, o governo abriu o saco de bondades. O Incra fechou convênio com a Confederação de Cooperativas de Reforma Agrária do Brasil, investigada por desvio de recursos públicos. O vencimento do convênio é só em 2012. O Ministério da Saúde presenteou o MST com uma participação no Grupo da Terra, para formular políticas para o campo. Detalhe: mesmo sem CNPJ, o MST está na portaria publicada em dezembro no “Diário Oficial da União”.
ATÉ QUANDO SERRA AGUENTA? Crescimento da candidatura de Dilma Rousseff faz com que PSDB e partidos aliados aumentem a pressão para que o governador paulista defina seu futuro político Octávio Costa e Sérgio Pardellas
NO MURO Até revista inglesa ironiza indecisão de Serra Dizem as raposas da política que pesquisas de opinião são meros retratos instantâneos, que servem mais à imprensa do que propriamente aos candidatos. Mas os recentes lances da sucessão presidencial contrariam a tese. Na última semana, além dos transtornos causados pelas enchentes em São Paulo, o governador José Serra teve outro forte motivo de preocupação. Consultas dos institutos Vox Populi e CNT/Sensus apontaram o crescimento da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, candidata do PT, para 28% e a estagnação de Serra, précandidato do PSDB, na casa dos 33%. Um dos cenários mostrou empate técnico e até pequena vantagem de Dilma na pesquisa espontânea. Foi o suficiente para que Serra voltasse a ser pressionado por DEM, PPS e setores do PSDB a assumir sua candidatura. Em conversa reservada com correligionários, o presidente do DEM, Rodrigo Maia (RJ), reclamou da inércia de Serra. “O governador assiste impassível à campanha de uma única candidata”, lamentou Maia, segundo um dos presentes. “A Dilma vai subir mais e passar dos 30%. A eleição será dura e fria. Mas não faço apostas no momento, é prematuro”, disse à ISTOÉ o dono do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, que já foi mais otimista quanto ao desempenho de Serra. Não são apenas os partidos de oposição que pressionam o histórico tucano a botar logo o bloco na rua.
EM ALTA Dilma: abril é o prazo para atingir o primeiro lugar nas pesquisas
A edição desta semana da revista inglesa “The Economist” aconselha Serra a lançar a campanha se ele tem pretensão de vitória. “O caótico sistema multipartidário brasileiro é perverso com quem vê o trem passar e não sobe nele”, alerta o texto. “Serra precisa começar logo, se não quiser ser lembrado como o melhor presidente que o Brasil nunca teve”, acrescenta a revista. Até agora, porém, há mais indefinições do que certezas no PSDB. A própria cúpula tucana admite que a campanha poderia estar mais bem estruturada, com a militância em ação. “A essa altura, o ideal é que a juventude do PSDB estivesse se articulando dentro das universidades e nas redes sociais da internet”, disse um cacique do PSDB à ISTOÉ. Enquanto Dilma já dispõe de uma equipe perma nente que se reúne toda semana para discutir os rumos de sua candidatura, o PSDB ainda não sabe sequer quem coordenará a campanha. Os aliados dos tucanos reclamam que, hoje, Serra discute estratégia com um grupo muito restrito de pessoas. Como agravante, o tesoureiro da legenda, o ex-deputado Márcio Fortes, que centralizaria a arrecadação, deixou a tarefa de lado para concorrer a vice na chapa de Fernando Gabeira (PV), no Rio de Janeiro. É evidente que ninguém no PSDB nem no DEM ou no PPS defende que Serra saia pelo País em franca campanha antecipada, o que seria umdesrespeito à lei eleitoral. Mas os aliados de Serra cobram mais mobilidade. Particularmente o DE
ATRASO O PSDB ainda está sem coordenador de campanha e o DEM cobra embate direto com o PT Tarefa, por enquanto, delegada ao presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), que tem se mostrado mais aguerrido do que nunca. Além da proverbial indecisão de Serra, as enchentes em São Paulo também funcionam como fator limitador a suas ações fora do Estado. A intempérie fez com que o pré-candidato do PSDB deixasse em suspenso sua agenda no Carnaval. Convidado para engrossar o tradicional bloco pernambucano Galo da Madrugada no sábado 13, o governador, em conversa com Sérgio Guerra na semana passada, condicionou sua participação à normalização da situação na capital paulista. “Está muito complicado. Só vou se o tempo ajudar, mas será difícil”, disse Serra. “O governador Serra não vai deixar São Paulo para fazer campanha porque ele tem responsabilidade com a gestão”, sustenta o novo líder do PSDB na Câmara, deputado João Almeida (BA). Mesmo que não caia na folia, Serra já está desgastado com o efeito negativo das enchentes. Na avaliação do cientista político Rubens Figueiredo, o custo eleitoral das chuvas será inevitavelmente debitado em sua conta pelos adversários. “A oposição vai dizer que, em relação às chuvas, o governador e o prefeito não fizeram a sua parte. O PSDB está há 15 anos à frente do governo do Estado e isso ajuda nos ataques”, afirma Figueiredo. Animado com a evolução da précampanha, o staff de Dilma aproveita o resultado das pesquisas e a resistência de Serra em assumir a candidatura para dar asas à especulação de que ele poderá desistir de concorrer ao Planalto, optando por uma reeleição tranquila e confortável em São Paulo. “Avaliamos que Serra ainda não definiu seu destino eleitoral. Talvez ele ainda desista da corrida presidencial”, disse à ISTOÉ um ministro próximo a Lula, quase em tom de comemoração.
DE JEITO NENHUM Aécio reage a FHC e nega que será vice Para um dos principais coordenadores da campanha da ministra, o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel, a oposição tem motivos para estar “desesperada”. “Já trabalhávamos com esses números de hoje. E a expectativa agora é que, em abril, estejamos empatados em primeiro”, prevê ele. Na tentativa de abafar os rumores de uma eventual desistência, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fez circular, em conversa com aliados, que o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, aceitaria ser vice de Serra. A dobradinha, de fato, colocaria a candidatura tucana em outro patamar. “Acho a dupla Aécio e Serra imbatível e essa onda tem crescido nos últimos dias”, disse o deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO). Mas, na quinta-feira 4, o próprio Aécio tratou de encerrar a questão. “Quanto ao futuro, fiz uma opção muito clara hoje. Serei candidatoao Senado da República por Minas Gerais e no Congresso quero dar continuidade ao trabalho que iniciamos aqui, defendendo lá os interesses de Minas”, disse. Aécio tem repetido também que vai dedicar toda a sua energia para eleger como sucessor seu vice Antonio Anastasia e, assim, “não permitir que haja um retrocesso em Minas”. Convencidos de que as articulações da campanha poderiam estar mais avançadas, os tucanos decidiram intensificar a formação dos palanques estaduais.
INSATISFAÇÃO Aliados reclamam que Serra discute estratégia só com grupo muito restrito
“Já era tempo. Não podemos deixar para a última hora”, justificou João Almeida. Neste fim de semana, Sérgio Guerra esteve no Paraná tentando resolver o impasse entre o senador Álvaro Dias e o prefeito de Curitiba, Beto Richa, ambos interessados em se candidatar ao governo estadual pelo PSDB (leia reportagem na página 42). Outra prioridade é a região Nordeste. No Ceará, o PSDB trabalha para lançar ao governo o empresário Beto Studart, que tem o aval do senador Tasso Jereissati. No Piauí, o partido quer fortalecer o nome do prefeito de Teresina, Silvio Mendes, possível candidato do PSDB ao governo do Estado.Para turbinar a campanha tucana, as negociações nos Estados não ficarão apenas na formatação das alianças. “Vamos investir dinheiro nas campanhas locais, ao contrário do que aconteceu na eleição de 2006”, confidenciou à ISTOÉ um tucano de alta plumagem. O PSDB tenta fazer sua parte. Falta, porém, Serra demonstrar apetite político e resolver investir na própria candidatura.
GUERRA MORNA Obama enfrenta a China e sofre ameaças. Parece sério. Mas não é, pois a economia dos dois países depende de paz e parceria Claudio Dantas Sequeira INTERDEPENDÊNCIA Obama e Jintao: briga tem limite
A visita do dalai-lama a Washington, prevista para ocorrer este mês, provocou tensão nas relações entre os Estados Unidos e a China. Pequim considera o líder tibetano um separatista e vê no encontro dele com o presidente Barack Obama uma afronta grave. Num encontro privado com Obama, em novembro, o presidente chinês, Hu Jintao, expressou “resoluta oposição” à presença do religioso em solo americano, o que, segundo ele, só fomentará o tumulto e a divisão. Na quarta-feira 3, o porta-voz da chancelaria chinesa fez uma ameaça velada. “Nós apelamos aos EUA que compreendam a grande sensibilidade da questão tibetana e lidem com o problema de maneira prudente e apropriada, para evitar danos adicionais às relações”, afirmou. O apelo, no entanto, não encontrou eco do lado americano. Obama fez que não ouviu e prometeu endurecer a relação, com ênfase na agenda comercial. “O enfoque que adotamos é ser muito mais firmes na aplicação das regras existentes”, disse o presidente a senadores democratas. “A relação bilateral, que com a posse de Obama prometia avançar, acabou retrocedendo e está em uma fase muito crítica. Talvez o pior momento em muito tempo”, avalia o historiador Severino Bezerra Cabral, presidente do Instituto Brasileiro de Estudos de China Ásia-Pacífico. Ele lembra que, além da questão do dalai- lama e da censura ao Google, o diálogo entre Washington e Pequim sofreu outro recente abalo numa área sensível que é a militar. Há cerca de uma semana, os EUA anunciaram a venda de US$ 6,4 bilhões em armas para Taiwan. Cabral explica que Tibete e Taiwan são temas sensibilíssimos para a China, e no passado já levaram a crises muito sérias. David Shambaugh, especialista em China da George Washington University, acha que parte do problema está na própria diplomacia chinesa. “Eles têm se tornado muito truculentos, às vezes estridentes, às vezes arrogantes, sempre difíceis”, diz. Segundo ele, esse posicionamento tem praticamente inviabilizado a execução dos objetivos do memorando assinado por Obama e Jintao em novembro. Para Lytton Guimarães, coordenador do Núcleo de Estudos Asiáticos da UnB, a tendência é que as relações entre EUA e China continue a sofrer altos e baixos. “Mas não acho que essa dinâmica possa piorar, pois uma ruptura seria catastrófica para ambos os lados, com consequências para todo o planeta.” Ele se refere à interdependência entre as duas nações. Se por um lado a China é a maior detentora de títulos da dívida americana, por outro o mercado consumidor dos EUA é o principal destino das exportações chinesas. Ou seja, China e EUA estão no mesmo barco e só lhes resta remar na mesma direção. |
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Brasil A análise das notas oficiais do Itamaraty durante o governo Lula mostra subserviência aos interesses de Chávez e desrespeito a princípios universais Diogo Schelp UM PESO, DUAS MEDIDAS
As notas do Itamaraty condenam a prisão da birmanesa Aung San Suu Kyi, mas ignoram a de Raúl Baduel (à dir. ). As posições brasileiras sobre questões regionais parecem emanar diretamente de Chávez (ao lado, entre Lula e Celso Amorim) Na Venezuela, há quarenta cidadãos presos apenas por discordar de Hugo Chávez. Um deles é Raúl Baduel, ex-ministro da Defesa, que rompeu com Chávez por se opor aos planos do tirano de se perpetuar no poder. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil nunca emitiu uma única nota de repúdio à prisão de Baduel. Desde que Lula assumiu a Presidência, há sete anos, o Itamaraty mantém silêncio a respeito das medidas autoritárias na Venezuela. Outros países recebem um tratamento diferente. A diplomacia brasileira, por exemplo, divulgou três notas criticando a repressão política em Mianmar, na Ásia, duas delas contra a prisão domiciliar da vencedora do Prêmio Nobel da Paz Aung San Suu Kyi. O que motivou a posição desigual nos casos de Baduel e da dissidente birmanesa e em outros temas externos? Se fosse para defender os interesses nacionais do Brasil, o correto seria manter-se fiel aos princípios que norteiam as relações exteriores desde a promulgação da Constituição de 1988 – entre os quais a defesa dos valores democráticos e dos direitos humanos. "Contudo, o que tem orientado a diplomacia brasileira nos últimos anos são as posições ideológicas do partido que está no poder", diz Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington. "Com isso, o Itamaraty trocou uma política de estado por uma política partidária." A primeira interessava ao Brasil. A segunda, ao PT. A primeira obedece a princípios. A segunda, a bandeiras partidárias. A política externa é atribuição do Poder Executivo e, como tal, está subordinada ao presidente da República. Em governos anteriores, as decisões nessa área levavam em conta o conhecimento técnico dos diplomatas de carreira, a tradição brasileira e os princípios universalmente consagrados da convivência pacífica entre os povos. Essa tradição foi rompida ao se delegar a política externa aos humores dos radicais esquerdistas. Para compreender o alcance do viés ideológico na definição da política externa brasileira, VEJA fez um levantamento de todas as notas oficiais divulgadas pelo Itamaraty desde 2003, o começo do governo Lula. No total, foram mais de 4 600 comunicados, muitos deles informes técnicos sobre viagens do presidente. A reportagem se fixou na análise de 296 dessas notas, justamente aquelas em que o Itamaraty dá a saber a posição oficial do Brasil a respeito de questões conflituosas ou polêmicas. São notas reveladoras. As notas sobre o conflito no Oriente Médio são a manifestação clara de opção ideológica em detrimento dos interesses nacionais permanentes (veja o quadro ao lado). Ao Brasil, que almeja legitimamente aumentar seu protagonismo internacional, interessaria não o engajamento ao lado de um dos contendores, mas a mais notória neutralidade nas complexas disputas do Oriente Médio. O comprometimento do Itamaraty é ainda mais evidente nos temas latino-americanos. As notas defenderam manobras liberticidas dos governos esquerdistas da Bolívia, da Venezuela e de Cuba, mas condenaram a deposição do presidente hondurenho Manuel Zelaya. Como ficou claro no episódio, Zelaya decidiu rasgar a Constituição de seu país para, com o apoio de Hugo Chávez, dar um golpe. "O episódio de Honduras confirmou um fenômeno preocupante: as posições do Itamaraty e de Chávez na política regional coincidem quase sempre", diz José Botafogo Gonçalves, presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, no Rio de Janeiro.
O Executivo tem todo o direito
de buscar suas preferências em política externa e – desde que isso tenha
sido abertamente discutido na campanha eleitoral – fazer guinadas nos rumos
da diplomacia. Os limites dessas manobras, porém, são dados pela tradição
diplomática do país e pela persecução dos interesses nacionais permanentes –
aqueles que são revertidos em benefício da maioria, e não da minoria no
poder. Nos Estados Unidos, o presidente Barack Obama mudou o tom da
diplomacia, mas não seus objetivos básicos: vencer a guerra ao terror e
barrar a proliferação nuclear em países párias, para citar dois exemplos. No
Brasil, a mudança de rumo foi desastrosa. É antiga, legítima e positiva para
todos os brasileiros a reivindicação de um assento permanente no Conselho de
Segurança das Nações Unidas. A diplomacia petista está sempre reafirmando
essa meta. Mas também não perde uma chance de arruinar qualquer
possibilidade de isso vir a ocorrer. O alinhamento automático de Brasília
com ditaduras da América Latina, Ásia e África é uma deferência aos radicais
do PT, mas um desastre internacional de previsíveis, duradouras e trágicas
consequências para as pretensões brasileiras. Edgard Garrido/Reuters
Especial Dilúvio... 45ºdia Okky de Souza
Há um mês e meio, os 11 milhões de habitantes de São Paulo vivem um drama que parece não ter fim – nem solução. Diariamente, a cidade é castigada por temporais intensos, que duram em torno de duas horas e instauram o caos. A chuva causa congestionamentos monstruosos no trânsito, deixa bairros inteiros alagados e sem eletricidade, derruba casas e árvores e, até a sexta-feira passada, havia provocado a morte de 14 pessoas, carregadas pela enxurrada, vítimas de desabamentos ou queda de árvores. Em janeiro, o volume de água que se abateu sobre São Paulo foi de 480,5 milímetros. Isso representa o dobro da média histórica de janeiro e o maior volume registrado desde 1947 nesse mesmo mês. São Paulo é o epicentro das chuvas torrenciais que atingiram também outras áreas do Sul e do Sudeste do país. São Luiz do Paraitinga, cidade paulista no alto da Serra do Mar, foi devastada por uma enchente que destruiu dezenas de construções do século XVII tombadas pelo patrimônio histórico. Também no interior paulista, Campinas, Sorocaba, São José do Rio Preto e Atibaia sofreram com os temporais. Em Angra dos Reis, no estado do Rio, deslizamentos de terra causados pela chuva no Ano-Novo soterraram casas e mataram 53 pessoas. Deu-se o recorde de extensão de deslizamentos em encostas de mata preservada na história da cidade. No Rio Grande do Sul, cidades com volume de chuva médio de 100 milímetros no mês de janeiro, como Santa Maria, Santiago e São Luiz Gonzaga, foram castigadas com índices de 400 milímetros. A lavoura de arroz gaúcha sofreu perda de 1 milhão de toneladas de grãos, o suficiente para suprir a demanda do Brasil inteiro por um mês. Em Minas Gerais, nada menos que 52 cidades decretaram situação de emergência por causa da chuva. Em nenhuma cidade, contudo, os efeitos da chuvarada foram sentidos de forma tão constante quanto em São Paulo, a maior cidade do Hemisfério Sul e polo econômico que produz 12% do PIB do Brasil. O brasileiro que vive no Sul ou no Sudeste está habituado às previsíveis chuvas de verão. Mas não a essa cortina de água que se repete dia após dia como se fosse uma reedição do dilúvio bíblico (que, por sinal, se prolongou por quarenta dias, tempo já ultrapassado pelo dilúvio paulistano). A pergunta que todos se fazem é por que chove tanto em um único lugar. A resposta mais curta é que existe uma conjunção excepcional de fatores meteorológicos, cada um deles contribuindo para a continuidade do aguaceiro. Já a devastação que as águas provocam, por meio de alagamentos e enxurradas, é também consequência do perfil geográfico da cidade e das características da urbanização conduzida através dos anos. No que diz respeito à meteorologia, a chuva resultou de três fenômenos. O primeiro é o fluxo de ar úmido que todo ano segue da região amazônica em direção ao Centro-Oeste, Sul e Sudeste do Brasil. Esse fluxo é intensificado pela evaporação das águas do Oceano Pacífico na região equatorial e do Oceano Atlântico no Caribe. Pois bem. Neste verão, o efeito El Niño aqueceu as águas do Pacífico equatorial em 2 graus. As águas do Caribe, por sua vez, também estão 1 grau mais quentes. A maior temperatura aumentou ainda mais a intensidade da umidade vinda do Norte, tornando-a mais propensa a provocar chuvas fortes. O segundo fator que concorreu para a formação de temporais em São Paulo e no Sudeste foi o aquecimento do Atlântico – em 1,5 grau – na sua porção próxima à costa do Sudeste brasileiro. Isso faz com que a brisa marinha que chega ao planalto paulista, onde se localiza a capital, favoreça a ocorrência de fortes pancadas de chuva, principalmente no fim da tarde. O terceiro fator é o calor na cidade de São Paulo em janeiro. As temperaturas foram mais altas que a média do mês de janeiro nas últimas seis décadas. O calor favorece o aquecimento do solo, que por sua vez esquenta o ar. Este fica mais leve e sobe, formando nuvens carregadas. É um ciclo infernal de retroalimentação. As chuvas fortes não causariam tantos problemas em São Paulo caso a cidade tivesse sido preparada para elas. Na virada do século XIX para o XX, impulsionada pela riqueza produzida pelo café e pelas indústrias, São Paulo deixou de ser uma vila provinciana para assumir sua vocação de metrópole. A partir daí, seus governantes optaram por canalizar boa parte de seus córregos e rios, transformando-os em galerias pluviais no subsolo da cidade. Sobre essas galerias foram construídas grandes avenidas, como 9 de Julho, 23 de Maio, Juscelino Kubitschek e Pacaembu. As galerias subterrâneas coletam a água da chuva dos bueiros e a levam para galerias maiores, que a despejam no Rio Tietê. Nesse processo, as enchentes ocorrem de duas formas. A primeira é quando o volume de água é maior do que aquele que as galerias comportam. Nesse caso, a água volta à superfície e causa alagamentos. A segunda é quando os próprios rios não comportam o volume de água despejado em seus leitos, e transbordam. Para retardar a chegada da água aos rios há os chamados piscinões, grandes reservatórios subterrâneos que hospedam temporariamente as enxurradas. A quantidade de piscinões em São Paulo, porém, é insuficiente. O lixo jogado nas ruas também colabora para as enchentes, mas, segundo especialistas, é um fator secundário. "O problema real é o volume de chuvas em tantos dias consecutivos, que satura o solo e as galerias", diz o engenheiro Aluisio Canholi, coordenador técnico do Plano de Macrodrenagem da Bacia do Alto Tietê e especialista em drenagem urbana. A ocupação urbana das várzeas de rios, por sua vez, produz enchentes crônicas. Quando o volume do rio sobe, devido às chuvas, ele alaga as várzeas naturalmente. Se essa área estiver ocupada, as casas vão sempre se alagar. É o caso do Jardim Pantanal, na Zona Leste de São Paulo, construído às margens do Rio Tietê, que está há dois meses sob as águas. Para o bairro voltar ao normal é preciso que o nível do rio abaixe. Como diz a Carta ao Leitor desta edição de VEJA, tragédias como a do Jardim Pantanal despertam revoltas legítimas na população e fatalmente são exploradas politicamente. O prestígio popular do presidente americano George W. Bush entrou em queda livre devido ao modo desastroso com que ele lidou com a destruição de Nova Orleans pelo furacão Katrina. Veja na página 72 como o PT pretende usar as enchentes de São Paulo como peça de propaganda política contra o governador José Serra, provavelmente o candidato da oposição à Presidência da República. Não há cidade que passe incólume por chuvas da intensidade das que desabaram sobre São Paulo neste início de ano. O que os governos podem fazer – e muitas vezes deixaram de fazer – é encontrar meios de minimizar os danos, evitar alagamentos prolongados e garantir que a tormenta atrapalhe o mínimo a vida de seus habitantes. Os especialistas calculam que um único dia de chuvas torrenciais em São Paulo, com alagamentos, cause um prejuízo de 95 milhões de reais só com engarrafamentos no trânsito. O engenheiro Aluisio Canholi afirma que 80% do total de perdas econômicas decorre dos congestionamentos de trânsito. Motoristas, mercadorias e bens ficam parados no trânsito, ilhados em pontos de alagamento. Nos outros 20% da conta entram fatores como perdas materiais e desvalorização dos imóveis situados em áreas sujeitas a inundações. As ações necessárias para amenizar as enchentes em São Paulo são conhecidas. O secretário municipal de Desenvolvimento Urbano de São Paulo, Miguel Luiz Bucalem, resume o que é preciso fazer:
Em 1947, quando ocorreu o recorde pluviométrico num mês de janeiro em São Paulo, a cidade tinha 2,2 milhões de habitantes e a chuva provocou problemas similares aos atuais, embora em escala menor. O principal fator pelo qual os relatos de tragédias em 1947 são menores que os registrados hoje é a forma de ocupação da cidade. Com ruas de terra, várzeas e lagoas pluviais às margens do Tietê, a água da chuva era mais facilmente escoada e drenada. Poucas horas depois da chuva, portanto, a cidade voltava ao normal. "Embora a chuva causasse danos, ela não criava pânico na população, como acontece hoje", diz o geógrafo Adler Guilherme Viadana, da Universidade Estadual Paulista. Hoje, ao contrário, é compreensível que os paulistanos encurralados pela água olhem em pânico para as nuvens de chuva no céu. |
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BRASIL Um militar indicado para o Superior Tribunal Militar diz que gays não conseguem comandar tropas e reacende o debate sobre a homossexualidade no Exército Isabel Clemente e Marcelo Rocha
"Não há compatibilidade no cargo com esse tipo de comportamento. Tem sido provado que o indivíduo não consegue comandar. A tropa não vai obedecer. Isso ficou provado na Guerra do Vietnã. Não sou contra o indivíduo, cada um toma sua decisão. Estou sendo sincero" RAYMUNDO CERQUEIRA FILHO, general indicado para o Superior Tribunal Militar, em resposta na sabatina do Senado sobre a presença de homossexuais nas Forças Armadas A declaração foi dada com tamanha naturalidade que seu teor quase passou despercebido pelos senadores. Na quarta-feira, durante uma sabatina na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, o general de exército Raymundo Nonato de Cerqueira Filho afirmou que gays “não conseguem comandar” nos meios militares. “A tropa fatalmente não vai obedecer. Isso foi provado na Guerra do Vietnã”, disse o general, ao ser questionado sobre a presença de homossexuais nas Forças Armadas. “Não é que eu seja contra o homossexual, cada um tem de viver a sua vida.” Para Cerqueira Filho, as características da vida militar “podem não se ajustar ao comportamento desse indivíduo (o gay)”. Em seguida, Cerqueira Filho afirmou que o ideal para o militar gay é não assumir sua homossexualidade. No jargão popular, esse tipo de comportamento é conhecido como “ficar no armário”. Os 22 senadores presentes à sessão da Comissão aprovaram por unanimidade Cerqueira Filho para uma vaga no Superior Tribunal Militar (STM). Mais alta instância da Justiça Militar, o STM é composto de 15 ministros vitalícios: dez militares e cinco civis, todos indicados pelo presidente da República. A efetivação de Cerqueira Filho no cargo depende agora do aval do Plenário.“Ninguém (na Comissão de Constituição e Justiça) rechaçou a afirmação nem votou contra o ataque aos direitos humanos”, escreve o colunista de ÉPOCA Fernando Abrucio. “Alguém poderia tê-lo apoiado, gerado uma polêmica. Nada. Somente depois de algumas horas, nossos representantes perceberam o que tinha ocorrido.” A presença de gays nas Forças Armadas é uma questão delicada no mundo inteiro. Nos Estados Unidos, homens que se declaram gays no alistamento não são convocados. Na campanha eleitoral, o presidente Barack Obama prometeu mudar isso. Da história, pode-se sacar uma coleção de militares que se rebelaram contra o preconceito na caserna. O primeiro levante de que se tem notícia foi na Alemanha, no fim do século XIX. O Código Penal alemão daquela época classificava a homossexualidade como delito. Na Segunda Guerra Mundial, a Alemanha nazista mandou para os campos de concentração 50 mil homossexuais, a fim de “tratá-los”. Estima-se que 7 mil tenham sido exterminados nos campos. No Brasil, a homossexualidade ainda é um tabu no Exército. Na história das Forças Armadas, o primeiro casal a assumir publicamente a homossexualidade foram os sargentos e parceiros Fernando de Alcântara Figueiredo e Laci Marinho de Araújo. O caso dos sargentos gays foi revelado por ÉPOCA, em 2008. Depois da revelação, Fernando deixou o Exército e se tornou um ativista do movimento gay. Ao ouvir a sabatina do general Cerqueira Filho, ele afirmou: “Trabalhei 15 anos nas Forças Armadas e nunca fui desrespeitado. Isso mostra que ele desconhece a história. Alexandre, o Grande, era homossexual e a tropa inteira lhe obedecia”. Se seu nome for aprovado, o general Raymundo Cerqueira Filho terá de julgar causas delicadas, como acusações de assédio sexual contra militares gays, algo comum, porém tratado com sigilo pela corte militar. Carioca de 65 anos, ele é dono de uma trajetória exemplar na caserna. De acordo com colegas militares, é bem-educado, admirado, respeitado por sua capacidade e bem-visto entre os oficiais. Graduado na Academia Militar das Agulhas Negras, Cerqueira Filho iniciou sua trajetória como oficial do Exército em 1967. Chegou ao posto de general em 1998. De seu currículo, constam vários postos de comando. Como paraquedista, foi instrutor da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e da Escola de Comando e Estado- -Maior. Comandou a Força-Tarefa Santos Dumont, tropa de pronto emprego para atuar em todo o território nacional. Fez parte de uma equipe que, em 1976, estabeleceu o recorde mundial de salto livre em grande altitude (10.000 metros), com o uso de máscara de oxigênio. Durante as comemorações dos 500 Anos do Descobrimento, integrou a equipe de 588 paraquedistas, entre militares e civis, que estabeleceu o recorde mundial de salto livre coletivo. Assim que suas palavras sobre os gays foram pronunciadas, começaram os protestos. “Enquanto o governo federal fala em Brasil sem homofobia, pessoas com esse tipo de posicionamento querem vaga no Superior Tribunal Militar”, diz Gilza Rodrigues, presidente do Grupo Arco- -Íris, organização não governamental que defende os direitos dos homossexuais. A Ordem dos Advogados do Brasil engrossou o coro de protestos dos ativistas gays e destacou o caráter “anticonstitucional” da opinião do general ao distinguir os indivíduos por sua preferência sexual. A ficha dos senadores também começou a cair. Autor da pergunta que gerou a polêmica resposta, o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) diz que Cerqueira “foi sincero, mas demonstrou preconceito e predisposição para condenar”. O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) pediu a volta do general ao Senado para dar mais explicações. Presente à sessão, a senadora Ideli Salvati (PT-SC) disse que “não estava acompanhando atentamente as respostas”. Ideli disse que, na hora dos comentários, tratava ao celular da pauta do Plenário naquela tarde. Agora, ela está preocupada. “Eu teria dificuldade de aprovar o nome de alguém para um posto de julgador que já tenha explicitado preconceito em determinados assuntos”, afirmou Não é difícil entender. Muitas sabatinas no Senado para aprovar nomes indicados pela Presidência da República para cargos-chave no Executivo e no Legislativo acontecem de forma protocolar, sob o olhar atento de poucos interessados. Ora os senadores são interrompidos por assessores, ora por telefonemas ou pelo próprio desinteresse. Alguns comparecem apenas para votar e saem antes do fim da sessão. Na mesma reunião, foi aprovado o nome do almirante de esquadra Álvaro Luiz Pinto para compor o STM. Sobre o tema, Pinto disse que não tem nada contra os gays desde que “mantenham a dignidade da farda, do cargo, do trabalho que executam”. O ministro da Defesa, Nelson Jobim, minimizou as declarações. Afirmou que elas “não influenciarão os debates internos do Ministério da Defesa e não dizem respeito ao Superior Tribunal Militar”. O atual presidente do STM, o civil Carlos Alberto Marques Soares, não viu sinais de homofobia na opinião do general, mas a manifestação de “uma voz corrente nas Forças Armadas”. “Praticar ato libidinoso no quartel pode resultar em expulsão, seja o indivíduo homossexual ou heterossexual”, afirmou.
Gays e militares Vários Exércitos foram comandados por homossexuais Alcibíades (450-404 a.C.) Foi chefe ateniense na Guerra do Peloponeso. De acordo com Platão, Alcibíades demonstrou interesse por Sócrates, que era seu instrutor Alexandre, o Grande (356-323 a.C.) Um dos maiores comandantes militares da história, teria sido amante do general macedônio Heféstion. O caso foi retratado em filme, em 2004 Júlio César (100-44 a.C.) Foi líder militar e político de Roma. Na biografia feita por Suetônio, Júlio César foi definido como “o homem de todas as mulheres e a mulher de todos os homens” Ernest Röhm (1887-1934) Era um militar nazista, que atuou como conselheiro de Adolf Hitler. Consta que costumava pagar para fazer sexo com jovens alemães
Brasil A encruzilhada está em Minas Todos os caminhos para o Palácio do Planalto passam pelo segundo maior colégio eleitoral do país. As definições dos políticos mineiros podem ditar os rumos de Dilma e de Serra Leonel Rocha. Com Leandro Loyola
O folclore político brasileiro estabelece que os políticos de Minas Gerais são craques da dissimulação, verdadeiras esfinges, hábeis em ocultar suas intenções e dar nós nos adversários. Uma história atribuída a Tancredo Neves e José Maria Alkmin, dois mestres nessa arte, ilustra bem o que seria o modo mineiro de fazer política. Adversários nas disputas internas no PSD, partido a que pertenciam, os dois teriam se encontrado no aeroporto de Belo Horizonte, no início dos anos 60. Trataram-se com cortesia, e Tancredo perguntou para onde Alkmin viajaria. Alkmin respondeu que iria para o Rio de Janeiro. Quando os dois se separaram, Tancredo disse a um assessor o que pensava da conversa: “Se o Alkmin disse que vai para o Rio, quer que eu pense que ele vai para São Paulo. Isso significa que ele vai para o Rio mesmo”. Um jogo com intenções ocultas e muitos despistes, como o de Tancredo e Alkmin, está sendo disputado atualmente em Minas. O governador Aécio Neves (PSDB), o vice-presidente José Alencar (PRB), o ex-presidente Itamar Franco (PPS), o ministro das Comunicações, Hélio Costa (PMDB), o ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias (PT), e o ex-prefeito Fernando Pimentel (PT) conversam com aliados e adversários, articulam e também dissimulam muito sobre suas possíveis candidaturas nas eleições deste ano Aécio pode ser candidato a senador ou a vice na chapa de José Serra (PSDB). Se a saúde permitir, José Alencar pode tentar o Senado ou o governo do Estado. Hélio Costa lidera as pesquisas para o governo, mas pode ser candidato ao Senado ou à Vice-Presidência na chapa de Dilma Rousseff (PT). Patrus Ananias e Fernando Pimentel disputam o direito de ser candidatos do PT ao governo, mas podem ser candidatos a senador e deputado, respectivamente. E Itamar quer ser candidato ao Senado. Mas, em seu caso, nunca se sabe. Em Minas está hoje o maior nó da política brasileira, capaz de determinar os rumos da campanha presidencial. A peça mais importante desse jogo é o neto de Tancredo, Aécio Neves. Um dos governadores mais bem avaliados do país, Aécio tem uma eleição praticamente garantida ao Senado. Há um mês, quando anunciou oficialmente que desistia de concorrer à Presidência da República, Aécio afirmou que o Senado seria seu caminho. Mas disse também que “irreversível é a morte”. Nas últimas semanas, ele tem sido pressionado pelos tucanos a aceitar a vaga de vice de Serra. A operação para convencer Aécio inclui ainda membros do Democratas, partido aliado do PSDB, e até amigos de fora da política. “Vou de joelhos a Belo Horizonte pedir para ele aceitar”, disse o deputado Raul Jungmann (PPS-PE). Recentemente, um interlocutor expôs a Aécio um cenário político para convencê-lo de que a vaga de vice é sua melhor opção. Caso seja eleito senador, Aécio pode sonhar em ser presidente do Congresso, num eventual governo Serra, ou líder da oposição, caso Dilma vença. Pode parecer bom, mas Aécio colocaria também sua enorme popularidade em risco por causa das sucessivas crises do Legislativo. Como vice de Serra, argumentam os políticos empenhados em atraí-lo para uma chapa liderada pelo governador paulista, Aécio poderia negociar um grande naco de poder em um eventual governo dos tucanos. “Ele pode escolher ser o sujeito que fez o máximo para ajudar a eleger o Serra”, diz um interlocutor de Aécio. “Ou ser o sujeito que foi fundamental para a vitória.” “Sem o Aécio na chapa, corremos o risco de o mineiro não votar em Serra para presidente”, afirma o deputado Humberto Souto (PPS-MG). A divulgação da pesquisa Sensus, na semana passada, que mostra uma subida da candidata do PT, a ministra Dilma Rousseff, aumentou nos tucanos a convicção de que a campanha de Serra pelo Palácio do Planalto, sem a companhia de Aécio na chapa, pode virar uma empreitada dificílima. Na semana passada, Aécio procurou dar uma demonstração de descontentamento com a pressão para assumir a candidatura a vice. Durante uma viagem ao interior de Minas, ele rechaçou a ideia. “Fiz uma opção muito clara hoje. Serei candidato ao Senado da República por Minas Gerais”, disse Aécio. Como “política é como nuvem, que muda de posição a cada instante” – frase atribuída ao ex-governador mineiro Magalhães Pinto –, muitos acreditam que Aécio poderá mudar de posição. A decisão de Aécio vai influenciar diretamente o destino do ministro Hélio Costa. Costa lidera as pesquisas recentes para o governo de Minas, mas está em uma situação paradoxal. Apesar da dianteira na largada, pode ser atropelado na disputa estadual por um candidato do PT ou pelo vice-governador Antonio Anastasia, bancado por Aécio, que contam com máquinas eleitorais bem azeitadas. Costa fez um acordo com o PT: será candidato ao governo, com o apoio dos petistas, se as pesquisas no final de março mostrarem que ele está em melhor situação para vencer a eleição. A opção eleitoral de Aécio pode, no entanto, alterar esse acordo entre Hélio Costa e o PT. Caso Aécio seja o vice de Serra, Costa pode virar o nome do PMDB para candidato a vice na chapa da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Por trás desse plano, existe a intenção de ter um vice capaz de dividir com Aécio os votos de Minas, o segundo maior colégio eleitoral do país. Há ainda uma terceira opção para Costa: uma tentativa de reeleição para o Senado. “Se o vice-presidente José Alencar quiser ser candidato ao governo de Minas, admito concorrer a outro cargo”, diz Costa. Como bons mineiros, todos os outros candidatos reverenciam Alencar. A comoção causada pela luta contra o câncer, aos 78 anos, e o apoio do presidente Lula tornam o vice-presidente um candidato praticamente imbatível na disputa pelo Senado e uma opção fortíssima para o governo do Estado. Tanto do lado do governo Lula como da oposição, todos os possíveis candidatos o observam e só vão decidir seus destinos depois que Alencar traçar seu caminho. “Vou trabalhar para ajudar Lula a eleger a ministra Dilma presidente da República”, disse Alencar a ÉPOCA na semana passada, poucos dias depois de uma sessão de quimioterapia. Alencar mostra-se bem-disposto. Apesar da gravidade da doença, ele trata o problema como um incômodo e está cumprindo jornadas políticas em tempo integral. Tem recebido regularmente ministros, parlamentares e prefeitos para articulações. Na solenidade de abertura do ano legislativo no Congresso, na semana passada, Alencar foi ovacionado. Ficou de pé, deu um soco no ar como um jogador de futebol ao comemorar um gol, discursou de improviso e foi aplaudido pelas galerias lotadas de sindicalistas. O rumo de Alencar pode afetar o destino não só de Hélio Costa, mas também dos possíveis candidatos do PT ao governo: o ministro Patrus Ananias ou o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel. Os dois protagonizam um racha profundo no PT mineiro e discordam sobre quase tudo, mas concordam em um ponto. Tanto um como outro abrem mão da candidatura ao governo estadual se essa for a opção de Alencar. Os envolvidos no novelo mineiro observam ainda os movimentos do ex-presidente Itamar Franco. No ano passado, Itamar filiou-se ao PPS para “observar o jogo mais de perto”. Chegou a ser cogitado como candidato ao governo. Há duas semanas, no entanto, Itamar anunciou que quer ser candidato ao Senado. Ninguém garante, porém, que Itamar não possa mudar de ideia. Dias atrás, foi cotado como vice na chapa de Serra. Desde a descoberta das minas de metais preciosos, no século XVII, Minas Gerais tem uma importância fundamental nos rumos políticos do Brasil. A inconfidência surgida em Vila Rica, hoje Ouro Preto, no final do século XVIII é um marco do processo que terminou na Independência, em 1822. Com a decadência econômica depois do fim do ciclo da mineração, a elite mineira passou a cultivar a ideia de que o Estado, por sua posição geográfica central, é a terra, por excelência, da conciliação. Foi uma forma de conservar influência política e fazer frente ao poderio crescente dos paulistas. Durante a República Velha, no início do século XX, Minas dividiu com São Paulo a condução do país. Mais recentemente, vencer as eleições em Minas Gerais tornou-se condição imprescindível para o candidato ao Planalto que quiser ter êxito na sucessão presidencial. Desde as eleições de 1994, quem venceu em Minas foi eleito presidente. Por isso, o nó em Minas é fundamental também para os candidatos à Presidência. Para Dilma, mineira que fez a carreira no Rio Grande do Sul, há mais opções, como o amigo Pimentel ou Hélio Costa. Para Serra, o engajamento de Aécio em sua campanha é crucial para ter chances de vitória nas eleições.
Do aliado para a escolhida Dilma Rousseff recolhe os dividendos de uma pré-campanha em ritmo acelerado e sobe nas pesquisas ao tirar votos de Ciro Gomes Leandro Loyola e Leonel Rocha
Na tarde da segunda-feira, uma reunião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, foi interrompida pela entrada de Franklin Martins, ministro da Comunicação Social, na sala. Animado, Franklin exibia uma cópia da pesquisa Sensus que acabara de sair. Os números mostravam um sensível crescimento das intenções de voto em Dilma. Lula e Franklin demonstraram empolgação. Dilma se mostrou feliz, mas manteve a sobriedade. Lula e Dilma concordaram no diagnóstico do resultado: seu crescimento se dera à custa do aliado Ciro Gomes, pré--candidato à Presidência pelo PSB. “Ele está desidratado”, disseram. A pesquisa da semana passada mostra que as intenções de voto em Dilma cresceram de 21,7% para 27,8% entre novembro e janeiro. Seu principal concorrente, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), cresceu menos, de 31,8% para 33,2%. Em uma pesquisa com margem de erro de 3 pontos porcentuais, isso pode indicar um empate técnico. De acordo com o levantamento, o diagnóstico de Dilma e Lula está correto. Ela chegou perto de Serra tomando eleitores de Ciro, que caíram de 17,5% para 11,9% dos entrevistados. “O crescimento da Dilma se deu entre os eleitores do Ciro que tinham uma simpatia pelo governo Lula – principalmente na Região Nordeste”, afirma o cientista político Antonio Lavareda, ligado ao PSDB. Segundo o presidente do Sensus, Ricardo Guedes, Ciro não está conseguindo se viabilizar como uma possível terceira via em uma eleição polarizada entre o PT e o PSDB. “A tendência é de polarização entre Dilma e Serra, e de migração dos votos de Ciro para Dilma”, diz Guedes. Na quinta-feira, apesar da pesquisa, Ciro estava de bom humor e mostrava a disposição de manter a candidatura à Presidência e resistir aos planos do presidente Lula de uma disputa pelo governo de São Paulo com o apoio do PT. “A única força capaz de fazer com que eu não seja candidato a presidente é meu partido”, diz. Na semana passada, Ciro reuniu-se com o líder do PSB na Câmara, Rodrigo Rollemberg, e com o presidente do partido em São Paulo, deputado Marcio França, para tratar da negociação com Lula e o PT. Os três querem insistir na tese de que a candidatura de Ciro pode render 20 milhões de votos ao PSB e ampliar a área de influência do partido. “Seremos eleitores da Dilma no segundo turno”, diz Rollemberg. “Mas a candidatura própria é importante para tentar eleger de 45 a 50 deputados e pelo menos quatro governadores.” Para conseguir a candidatura presidencial, Ciro terá de superar resistências internas no PSB e o boicote de Lula e do PT. Na semana passada, Ciro acusou o ex-ministro José Dirceu de patrocinar manobras de natureza “golpista” contra sua candidatura. Era uma referência a viagens feitas por Dirceu pelos Estados que teriam o objetivo de torpedear sua candidatura. Outro problema de Ciro para tornar viável a candidatura é a pequena estrutura do PSB. O partido dispõe de apenas três minutos no horário eleitoral gratuito. Sem a sustentação de outras legendas que dão apoio ao governo Lula, Ciro terá grandes dificuldades para empinar uma candidatura presidencial. Na atual fase de pré-campanha, Ciro tem sido também o menos aquinhoado no jogo da exposição pública, fundamental num momento em que o eleitor ainda sabe pouco sobre a eleição. Marina Silva, do PV, ganhou evidência por ser uma novidade. Mesmo sem se declarar candidato, José Serra, por ser governador de São Paulo e o líder nas pesquisas de intenção de voto, obtém sua cota de exposição. Graças a seu cargo, que a coloca todos os dias em inaugurações de obras e solenidades, Dilma, com o presidente Lula a tiracolo, está percorrendo o país em ritmo acelerado de campanha. Recentemente Dilma chegou a aparecer no programa de variedades Superpop, da apresentadora de TV Luciana Gimenez, fazendo uma omelete.
Segundo a pesquisa Sensus, Dilma tomou 6 pontos porcentuais de Ciro em dois meses
Nessa maratona de viagens pelos Estados, Dilma não perde oportunidades para dar estocadas na oposição e em Serra. Na inauguração de um gasoduto em Jacutinga, no sul de Minas Gerais, onde foi recebida com um coro de “Dilma, presidente!”, ela falou sobre chuvas – justamente no momento em que o Estado de São Paulo enfrenta graves problemas provocados por enchentes. “Não é possível nos conformarmos com a existência de calamidade. Temos de tomar medidas preventivas”, disse. Quando foi perguntada sobre eleição, porém, foi cuidadosa. “Eu acho que o presidente tem de ter um sucessor à altura do governo dele. Eu gostaria muito que me escolhessem como essa sucessora. Não sou hoje.” Manifestações como essa fizeram a oposição protocolar diversas ações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Elas pedem punição a Lula e Dilma por campanha antecipada e uso da máquina pública. Mas as ações não prosperam. É óbvio que a exposição no evento é benéfica para a futura candidata, mas o TSE considera que Dilma estava no evento como ministra e não pediu votos. “O fato de haver uma futura campanha não impede o governante de administrar. Se não há um pedido de voto, não há crime”, afirma o advogado Fernando Neves, ex-ministro do TSE. “Na prática, Dilma está em pré-campanha há dois anos, mas a lei eleitoral dá margem para várias interpretações”, diz o cientista político Amaury de Souza, da consultoria MCM. Os tucanos esperneiam contra a campanha antecipada de Dilma. Mas também usam a máquina do governo paulista para melhorar a imagem de Serra e são responsáveis pelas brechas legais que facilitam as ações eleitorais planejadas no Palácio do Planalto. A atual lei eleitoral está em vigor há mais de uma década e foi aprovada sob os auspícios do PSDB para facilitar a reeleição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para um segundo mandato. A lei limitou a contratação e a demissão de funcionários em período eleitoral, proibiu o envio de recursos extras a Estados e municípios, a contratação de funcionários e a concessão de benefícios. Mas tem contradições, como a possibilidade de o governante disputar a reeleição sem sair do cargo, enquanto seu concorrente é obrigado a renunciar seis meses antes. “Eu admito que sou um dos responsáveis por esse grave erro (a lei)”, diz o deputado João Almeida (BA). Em 1997, Almeida foi o relator da lei eleitoral e atualmente exerce a função de líder do PSDB na Câmara.
NEGÓCIOS E CARREIRA Nosso álcool chegou lá? Uma lei americana pode abrir o maior mercado do mundo para o etanol brasileiro Alexandre Mansur
Os Estados Unidos têm um problema. Dependem de combustíveis derivados de petróleo – caro, produzido em países instáveis e causador do aquecimento global. O Brasil pode oferecer uma solução: o álcool, um combustível que não aquece o planeta e tem preço competitivo. Num mundo ideal, os americanos comprariam álcool do Brasil, e os brasileiros comprariam eletrônicos americanos sem o alto imposto de importação. Mas esse mundo não existe. O álcool enfrenta barreiras criadas para proteger os produtores de etanol de milho e as refinarias de petróleo dos EUA. Agora uma nova determinação da agência ambiental americana, a EPA, pode abrir um mercado que importaria bilhões de litros de nosso álcool e nos ajudaria a exportar para outros mercados. O impulso ao álcool brasileiro foi a avaliação da EPA sobre o potencial do combustível da cana para reduzir as emissões de carbono. Segundo a EPA, o álcool emite 61% menos carbono que a gasolina, quando se conta todo o ciclo de produção, do plantio à distribuição. Isso o qualifica para receber incentivos. Pelo padrão do Departamento de Energia, a gasolina deve conter uma mistura de combustíveis renováveis, capazes de ajudar a reduzir as emissões numa proporção em que o etanol de milho americano não compete. Trata-se de um mercado de 38 milhões de litros neste ano, ou 75 bilhões de litros em 2022 (o triplo do brasileiro). O único combustível capaz hoje de competir com o álcool brasileiro é o etanol extraído do tronco, raízes e galhos das plantas (celulósico). Hoje, ele custa o dobro do etanol convencional. E as usinas ainda operam em escala experimental. “Não se espera que tenham volume de produção em menos de cinco anos”, diz Eduardo Leão Sousa, diretor executivo da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Única) do Brasil. “Esse mercado seria ocupado pelo álcool brasileiro.” Tanto a Única quanto o governo americano estimam que, em 2022, seriam importados de 15 bilhões a 18 bilhões de litros. O Brasil também poderá produzir etanol celulósico a partir da cana. Um dos custos para produzir esse combustível, feito com restos de madeira, cascas de laranja, palha de milho e até lixo doméstico, é recolher o material e levá-lo ao processamento. No caso do Brasil, a base para o etanol celulósico é o próprio bagaço já presente nas usinas. “Seremos competitivos também nessa tecnologia”, diz Sousa. A vitória é fruto de uma estratégia de lobby brasileiro nos EUA. Os produtores de álcool contrataram especialistas técnicos e políticos para agir no Congresso americano e na EPA. O próximo objetivo é derrubar a sobretaxa ao álcool brasileiro. Ele ficaria mais barato até que o etanol de milho. Para isso, será preciso vencer a resistência dos ruralistas do Meio-Oeste americano. Congressistas ligados ao agronegócio nos EUA pretendem impedir a EPA de legislar sobre o combustível renovável. “O Congresso deveria tomar essas decisões, e não burocratas não eleitos da EPA”, diz o deputado democrata Collin Peterson, de Minnesota, presidente do comitê de agricultura da Câmara. 15 bilhões de litros de álcool é o que o Brasil poderá exportar para os EUA em 2022. Seriam dois terços do mercado brasileiro
MUNDO A muralha diante de Obama Uma série de incidentes eleva a tensão entre Pequim e Washington e põe à prova a capacidade do presidente americano de desafiar a nova superpotência Juliano Machado Com reportagem de Julio Lamas
Barack Obama era ainda apenas pré-candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos em abril de 2007, quando foi perguntado em um debate sobre quem eram os maiores aliados dos americanos no mundo. Obama não colocou os chineses em sua lista, mas afirmou: “Eles não são nem nossos inimigos nem nossos amigos. São nossos concorrentes”. Talvez o hoje presidente Obama não se lembre dessa declaração, mas ela ganhou outro sentido no momento atual das relações entre as duas superpotências do mundo. O nível de tensão entre Pequim e Washington aumentou bastante nas primeiras semanas do ano e expôs a dificuldade dos EUA de lidar com um país cada vez menos complexado diante da hegemonia americana. No primeiro ano de mandato, Obama conseguiu, embora com rusgas pontuais, manter um relacionamento razoavelmente amigável com Pequim. Durante sua primeira visita à China, em novembro, Obama fez tímidas críticas à censura aos meios de comunicação e ao tratamento dado pelo regime chinês a grupos minoritários. A TV estatal chegou a cortar alguns trechos do discurso de Obama na Universidade de Xangai, mas não houve grandes contratempos. Dentro dos EUA, o presidente foi tachado de brando demais por analistas conservadores. O clima azedou de vez mesmo nos últimos dias, quando Obama decidiu tocar numa velha ferida chinesa. A Casa Branca enviou ao Congresso uma proposta de venda de equipamentos militares e armas no valor de US$ 6,4 bilhões para Taiwan, a ilha independente onde se refugiaram os perdedores da guerra civil que levou Mao Tsé-tung ao poder, em 1949. Pequim trata a capitalista Taiwan como “província rebelde” e tem cerca de 1.500 mísseis voltados para a ilha. Os americanos querem vender a Taiwan, entre outros equipamentos militares, 60 helicópteros, 114 sistemas de defesa antimíssil e mísseis de ataque terrestre. A reação de Pequim foi imediata: os acordos de cooperação militar com os EUA foram suspensos e o governo ameaçou impor um boicote às empresas americanas que participarem da operação. Em resposta, a Casa Branca disse que os EUA são obrigados, por um acordo assinado em 1979, a apoiar Taiwan em assuntos de defesa. O desconforto chinês acabou trazendo à tona outros atritos latentes com Washington. Quase simultaneamente ao anúncio sobre Taiwan, Obama confirmou que receberá o líder tibetano no exílio, o Dalai-Lama, ainda neste mês – o encontro seria em outubro passado, mas foi cancelado naquela ocasião. Exilado na Índia desde que o regime comunista de Mao anexou o Tibete, o Dalai é visto por Pequim como um “separatista”, que não deveria ser recebido por nenhum outro país em razão de se tratar de um assunto interno. Segundo um porta-voz do ministério chinês das Relações Exteriores, Ma Zhaoxu, o presidente Hu Jintao pediu aos americanos que os tibetanos não usem seu país para “criar tumulto e dividir a China”. Hu Jintao pediu aos americanos que não deixem os tibetanos “criar tumulto e dividir a China” Se a tensão é atual, os fatores que a engendraram não são. Outros presidentes americanos já negociaram armas para Taiwan – George Bush pai, por exemplo, vendeu caças F-16 em 1992, sob protestos chineses. E ex-ocupantes da Casa Branca se reuniram com o Dalai – inclusive os dois antecessores de Obama, Bill Clinton e George W. Bush. A visita a Obama já fora informada ao governo chinês em novembro. Por que desta vez, então, Pequim está chiando muito mais? Simplesmente porque agora se sente no direito de levantar a voz, mesmo que do outro lado estejam os Estados Unidos. Os chineses se ancoram nos números. Com um Produto Interno Bruto de US$ 4,9 trilhões em 2009 (alta de 8,7%), a China deve tirar do Japão o posto de segunda maior economia do mundo ainda neste ano. Uma projeção da consultoria Pricewaterhouse Coopers diz que os chineses desbancarão os americanos do topo até 2025. Não bastasse isso, a China pode pôr em qualquer mesa de negociação trunfos como o fato de ser o maior credor da dívida externa americana (US$ 789 bilhões, até novembro) e possuir o maior superávit de um país nas relações comerciais com os EUA, girando em torno de US$ 200 bilhões anuais. Nada parece capaz de parar a China. Isso dá aos chineses a impressão de que eles não têm de se submeter a ninguém. Para a especialista em China Susan Shirk, s ex-integrante do escritório de Leste Asiático do Departamento de Estado dos EUA, aí está a raiz da atual tensão com Washington. “A cúpula comunista não tem interesse direto em se indispor com os EUA, mas sabe que precisa dar satisfação à opinião pública. E o povo tem cada vez mais a convicção de que é a China que deve dar as cartas no mundo.” Prova disso, diz Susan, é um levantamento do instituto americano de pesquisas Pew, divulgado em novembro, segundo o qual 41% dos chineses acreditam que seu país é “a economia mais importante” do planeta. Esse índice era de 28% em 2008. Esse sentimento de autoconfiança tem elevado o nível de rispidez da China, quando se sente incomodada. No mês passado, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, fez um discurso veemente, mas respeitoso, em favor da liberdade de informação na internet chinesa. Defendeu o Google, depois que as contas de e-mail administradas pela empresa na China foram invadidas por hackers supostamente ligados ao governo. A diplomacia chinesa respondeu que Hillary disse “coisas sem nenhum fundamento”. Um episódio emblemático, que descambou para o desrespeito a um chefe de Estado, ocorreu durante as negociações da conferência mundial do clima em Copenhague, na Dinamarca, em dezembro. Num dos encontros finais, um membro da delegação do primeiro- -ministro Wen Jiabao gritou e apontou o dedo para o presidente Obama. O próprio Jiabao levantou a voz na reunião, o que espantou os presentes, acostumados com a disciplina chinesa em eventos com protocolo claro. O resultado da conferência, como se sabe, foi um fracasso. As duas potências não se entenderam sobre o nível de redução de emissão de gases. Em outras situações, a resposta chinesa é o silêncio. Obama pediu a Pequim uma revisão em sua política monetária, que mantém o iuane desvalorizado artificialmente e dá uma vantagem considerada desleal a seus produtos no mercado externo. O governo chinês não se deu ao trabalho de responder. A fúria das autoridades parece ter empolgado a população. Em alguns portais chineses, internautas sugeriram ao governo que vendesse armas para inimigos dos EUA, como o Irã e a Coreia do Norte – no caso iraniano, a China vem dificultando a imposição de sanções ao governo de Mahmoud Ahmadinejad. Outros propuseram boicotes a redes americanas de fast-food. Um usuário chegou a dizer: “Vamos primeiro começar uma guerra sem fumaça. Depois pode vir a guerra real”. Apesar dos ânimos exaltados das duas partes, a hipótese de um conflito real ainda é despropositada. “China e EUA trocaram palavras muito duras, mas provavelmente vão voltar a trabalhar juntos”, afirma Adam Segal, estudioso de assuntos militares chineses do Conselho de Relações Exteriores, em Nova York. A crise global fragilizou a economia americana, mas não a ponto de a China conseguir viver sem ela. Os maiores parceiros comerciais do mundo sabem que não interessa a ninguém – nem a eles nem ao resto do mundo – ultrapassar o limite da disputa econômica. Como disse Obama em 2007, se não conseguem ser amigos, que China e EUA não sejam inimigos. Apenas concorrentes.
Briga de gigantes Os principais desentendimentos do governo Obama com a China
Armas para Taiwan No fim de janeiro, o presidente Barack Obama anunciou um contrato de US$ 6,4 bilhões de venda de armas e equipamentos militares a Taiwan, entre eles 60 helicópteros UH-60 Black Hawk. O governo chinês, que considera a ilha capitalista uma província rebelde, classificou a operação de “interferência grosseira” em seus assuntos internos e ameaça boicotar as empresas americanas que negociarem com os taiwaneses
Visita do Dalai-Lama Símbolo da resistência do Tibete à ocupação chinesa, ocorrida em 1949, o Dalai-Lama deve se reunir com Barack Obama nos Estados Unidos entre os dias 17 e 19 de fevereiro. A China, que considera o líder tibetano um “separatista”, encarou o anúncio da visita como uma ameaça à “confiança e à cooperação” entre os dois países. A Casa Branca diz que Obama já informara os chineses sobre o encontro quando foi a Pequim, em novembro
Iuane desvalorizado Assim como outros presidentes americanos, Obama tenta convencer a China a adotar o câmbio flutuante para o iuane. Os EUA criticam os chineses por manter artificialmente baixa a cotação da moeda local em relação ao dólar, o que torna os produtos chineses mais baratos – e mais competitivos – no mercado externo. A China, que tem o maior superávit nas relações comerciais de um país com os EUA (US$ 208 bilhões em 2009), rejeita mudanças nessa área
Tarifas comerciais Em setembro, Obama anunciou a aplicação de uma tarifa adicional de 35% sobre a importação de pneus chineses (a alíquota anterior era de 4%). Pequim classificou a medida de “protecionismo destrutivo” e entrou com uma queixa na Organização Mundial do Comércio (OMC), que está analisando a taxação americana. Em represália, produtos americanos como náilon, ácidos industriais e frangos foram sobretaxados na China
Censura na internet A China possui um dos mais rigorosos sistemas de censura virtual, restringindo buscas sobre conteúdos como “Taiwan” ou “Dalai- -Lama”. No mês passado, hackers chineses invadiram contas de e-mails – mantidas pelo Google – de ativistas de direitos humanos. A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, defendeu a liberdade de informação na China, e o Google ameaçou deixar o país. Acredita- -se que a China tenha 50 mil “hackers vermelhos”. |
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