31  de agosto de 2010 (terça-feira)


RESENHA ON-LINE

Manchetes dos principais jornais


Globo: Planalto, que teme prejuízo eleitoral, tenta esvaziar discussão na campanha de Dilma sobre Previdência                            Jornal do Brasil: PF ataca fraude na reforma agrária                        O Estado de São Paulo: Areia nos olhos do público                                   Folha de São Paulo: Campanha terá Lula e Dilma juntos uma vez a cada 4 dias                             Correio Braziliense: Elas carregam o país nas costas                                              Revista Época: A outra mulher do Lula                       Revista IstoÉ: "O Brasil já tem uma presidente"        

         

   A Resenha Diária é elaborada pelo Centro de Comunicação Social do Exército, contendo as principais notícias veiculadas na mídia.  Está disponível  na Internet em sua versão "on-line", a partir das 08:00 horas, na página oficial do Exército Brasileiro.
  Ao final da manhã e ao final da tarde, as notícias veiculadas serão atualizadas por meio do acompanhamento de jornais on-line, agências e portais de notícias.



      
                                

 

 

País tem 85 "áreas críticas" de queimadas, diz ministério

Camila Campanerut

 

O Ministério do Meio Ambiente afirmou nesta terça-feira (31) que o país tem 85 "áreas críticas" em relação a queimadas. Os estados em situação mais grave são Mato Grosso, com 27% de focos de calor, seguido por Pará (26%), Tocantins (13%), Maranhão (6%) e Rondônia (6%).

Segundo o órgão, não há como medir o número exato de queimadas em vigor no Brasil. A medição é feita através de focos de calor identificados por fotos de satélite --mas não é possível saber se todos os focos de calor são necessariamente provenientes incêndios e queimadas.

O ministério informou que, no mês de agosto, foram registrados cerca de 260 mil focos de calor em todo o Brasil. "Não sabemos ainda o total de focos de incêndio. Sabemos que [o número] é bastante expressivo se comparado a 2008 e 2009. Não tivemos o balanço ainda. Também ocorreram queimadas em área urbana e em regiões controladas", afirmou a ministra Izabella Teixeira.

Em 2009, foram investidos R$ 50 milhões no combate e prevenção de queimadas, de acordo com o ministério. Em todo o país, são 11 mil pessoas trabalhando no combate ao problema, sendo cerca de 3289 brigadistas do Ibama ( Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e do Instituto Chico Mendes -- os demais são bombeiros.

 

  

País tem 85 "áreas críticas" de queimadas, diz ministério

Camila Campanerut

 

O Ministério do Meio Ambiente afirmou nesta terça-feira (31) que o país tem 85 "áreas críticas" em relação a queimadas. Os estados em situação mais grave são Mato Grosso, com 27% de focos de calor, seguido por Pará (26%), Tocantins (13%), Maranhão (6%) e Rondônia (6%).

Segundo o órgão, não há como medir o número exato de queimadas em vigor no Brasil. A medição é feita através de focos de calor identificados por fotos de satélite --mas não é possível saber se todos os focos de calor são necessariamente provenientes incêndios e queimdas.

O ministério informou que, no mês de agosto, foram registrados cerca de 260 mil focos de calor em todo o Brasil. "Não sabemos ainda o total de focos de incêndio. Sabemos que [o número] é bastante expressivo se comparado a 2008 e 2009. Não tivemos o balanço ainda. Também ocorreram queimadas em área urbana e em regiões controladas", afirmou a ministra Izabella Teixeira.

Em 2009, foram investidos R$ 50 milhões no combate e prevenção de queimadas, de acordo com o ministério. Em todo o país, são 11 mil pessoas trabalhando no combate ao problema, sendo cerca de 3289 brigadistas do Ibama ( Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e do Instituto Chico Mendes -- os demais são bombeiros.

 

 

 

‘Ninguém se importa com histórias de soldados’, diz veterano do Iraque

Fred Minnick foi soldado e fotógrafo do Exército americano em 2004.
Volta para casa, segundo ele, foi mais difícil que a guerra.

 

“Enfrentei um inimigo muito mais mortal que a granada que quase me matou, as balas ou os morteiros”, contou ele ao G1. “Fui diagnosticado com uma forma severa de transtorno de estresse pós-traumático. (...) Eu odiava que a sociedade se importasse mais com os problemas legais de Martha Stewart [uma apresentadora de TV americana] do que com os soldados”, afirma.

O G1 publica uma série de reportagens sobre os sete anos de ocupação norte-americana no Iraque. Leia também o raio-X da guerra e indicações de livros e filmes para entender o conflito.

Meu trabalho permitiu que eu observasse a guerra de todos os ângulos"

Fred  Minnick

Minnick chegou ao Iraque com 27 anos, em janeiro de 2004, e uma tarefa diferente da maioria de seus colegas: era fotógrafo. Sua missão era acompanhar as tropas de infantaria e registrar as operações de combate, antes, durante e depois. Embora estivesse armado e de farda, seu principal instrumento de trabalho era a câmera.

“Meu trabalho permitiu que eu observasse a guerra de todos os ângulos e me deu a oportunidade de contar a história de nossos heróis”, afirma.

Na volta aos Estados Unidos, no entanto, Minnick descobriu que os americanos não queriam ouvir essa história. “Quase que imediatamente ao voltar para casa, em janeiro de 2005, meus problemas começaram”, conta, sobre o estresse pós-traumático.

Em um dos pesadelos que teve com o Iraque, ele conta que acordou do lado de fora da casa dos pais, abraçado a uma árvore gritando que “eles estavam por toda a parte”.

“Eu queria poder dizer que os pesadelos eram a única coisa me impedindo de dormir ou de me reajustar. Mas eu bebia o máximo que podia e evitava encontrar meus amigos”, conta. “Quando as pessoas se interessavam [pelo Iraque], perguntavam apenas coisas como ‘você matou alguém?’, ‘você acha que nós devíamos estar lá?’”, lembra Minnick.

“Uma vez, depois que o meu time de basquete perdeu o campeonato, bebi várias garrafas de cerveja. Comecei a chorar no bar porque eu não conseguia nem mesmo lidar com a derrota em um jogo de basquete,” conta.

Para superar o trauma, um de seus terapeutas (“demorei para escolher um de quem eu gostasse”, conta Minnick) sugeriu que ele “contasse sua história”.

Ele se demitiu de seu emprego e se mudou para uma cidade do interior, onde escreveu o livro “Camera Boy”, com as suas memórias da guerra.

“Colocar minhas experiências no papel fez eu me sentir melhor. Eu pensava que o mundo iria ouvir minha história e a história dos meus amigos que morreram. Eles iriam conhecer Samir, nosso intérprete iraquiano que foi assassinado e ele não seria esquecido. Nunca acreditei que minha história era mais especial do que a de qualquer outro soldado, mas ela é minha e eu tenho orgulho do que fiz. Tenho orgulho de preservar a memória dos meus amigos caídos”, conta.

“Mas logo descobri que as editoras eram a mesma coisa que o resto da América: ninguém se importava com o Iraque ou, mais precisamente, com as histórias dos soldados”, conta.

Minnick levou “Camera Boy” a centenas de editoras, segundo ele, incluindo uma das maiores de Nova York, onde um agente teria dito que gostava do livro, mas que não conseguiria vendê-lo.

“’As editoras estão perdendo dinheiro com livros sobre o Iraque e você é um ninguém’, ele me disse, indicando que eu não era um general, um político ou um jornalista do "New York Times". Ele disse que poderia haver algum interesse se eu tornasse ‘Camera Boy’ ‘anti-Bush’ ou crítico da mídia. Demiti o cara”, conta.

Foram mais de cem rejeições ao longo de um ano, segundo ele. “Passei muitas noites acordado pensando porque ninguém se importava com o Iraque. Meus amigos morreram por nada? Meu tempo ali não significou nada?”, diz Minnick.

Somente após três anos, uma pequena editora militar entrou em contato com Minnick sobre a possibilidade de publicar seu livro. “Nunca tive fantasias de que ‘Camera Boy’ fosse me tornar rico ou famoso ou importante. (...) Quando fiz as contas entre o tempo que eu gastei escrevendo e o quanto eu ganharia, percebi que provavelmente terei cerca de dez centavos por hora”, afirma.

Mas o livro nunca foi sobre o dinheiro. Eu queria apenas preservar as histórias dos meus amigos para que talvez as pessoas apreciassem um pouco mais o sacrifício dos soldados. Nós, veteranos, demos tanto por nosso país. O mínimo que as pessoas podem fazer é ouvir nossa história”, conta.

 

 

 

Estudo mostra que mais da metade das famílias brasileiras tem dívidas

Valor médio do débito é de R$ 5.426; jovens adultos são os que mais devem

 

Quase 55% das famílias brasileiras estão endividadas, segundo estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) divulgado nesta terça-feira (31). O instituto ouviu moradores de 3.810 residências brasileiras, localizadas em 214 cidades. 

O valor médio do débito, segundo o Ipea, é de R$ 5.426,59. Cerca de 15% das famílias endividadas devem até metade do rendimento mensal da casa. 

Na outra ponta, 23% das famílias possuem dívidas equivalentes a cinco vezes a renda mensal. Ou seja, se a renda mensal é de R$ 3.000, a família deve nada menos que R$ 15 mil.

Entre os que disseram dever algum valor, 11,08% afirmaram estar muito endividados, 16,82% disseram estar mais ou menos endividados e 26,25% julgam estar pouco endividados. Mesmo assim, jovens e ricos estão otimistas com o futuro da economia brasileira.

 

Dívida por idade 

Os adultos com idade entre 30 e 39 anos lideram o ranking de endividados, com 15,45%. Na segunda posição do ranking, estão os brasileiros com idade entre 40 e 49 anos, cuja taxa de endividamento está em 12,92%. 

Os menos endividados são aqueles que têm mais de 60 anos, sendo que apenas 7,75% dessa camada da população deve algum valor.

Os brasileiros que têm ensino médio incompleto (antigo colegial) lideram a lista dos mais endividados com 13,89%. Na ponta oposta, os menos endividados são os que possuem o ensino médio completo, com 29,33%.

 

Débitos de acordo com salário 

As famílias brasileiras que ganham de um a dois salários mínimos (de R$ 510 a R$ 1.020) encabeçam a lista dos mais endividados – 13,69% dessas famílias reconheceram dever muito. 

Ao mesmo tempo, o mesmo recorte lidera o ranking das famílias sem dívidas: 46,33% do total disseram não dever nada a ninguém, ou seja, pagam suas contas em dia. 

Os que possuem maior poder aquisitivo - com renda familiar mensal acima de dez mínimos (R$ 5.100) – estão pouco endividados. Entre os que disseram ter débitos, 33,85% afirmaram dever pouco.

 

Por etnia 

Os brasileiros que se declararam negros ou amarelos são os mais endividados do país, segundo o Ipea. Pouco mais de 16% dos negros e quase 18% dos amarelos disseram ter débitos muito grandes. 

 

 

 

Lula diz que se dedicará ao debate da reforma política

 

Brasília - A quatro meses do fim do mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que depois de deixar o cargo irá se dedicar ao encaminhamento de grandes questões nacionais como a reforma política.

“Fora da Presidência, vou me dedicar de corpo e alma, por meio do PT e em acerto com outros partidos, ao esforço de promover uma reforma que represente uma modernização das nossas práticas políticas”, afirmou em resposta a um leitor na coluna O Presidente Responde, publicada hoje (31) em jornais.

Lula disse também que pretende levar o conhecimento adquirido na implementação de programas sociais bem-sucedidos a países africanos e latino-americanos que ainda lutam contra a extrema pobreza e a fome.

 

 

Mais da metade dos brasileiros está otimista com economia do país

 

Mais da metade da população estão otimistas em relação à situação econômica do país. A constatação é do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que calculou o Índice de Expectativa das Famílias, apresentado hoje (31), no Rio de Janeiro. A pesquisa mostra que mais de 58% da população acreditam que o Brasil passará por melhores momentos nos próximos 12 meses. Mais de 55% acreditam que o cenário otimista também se repetirá nos próximos cinco anos.

A confiança é maior entre as pessoas com melhores rendimentos e os mais jovens, e entre os entrevistados que se declararam negros, os que têm nível de escolaridade superior incompleto, e os que recebem benefícios do governo. As maiores proporções de otimistas foram constatadas nas regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste.

De acordo com o Ipea, o otimismo pode estar relacionado à melhoria da situação do orçamento das famílias, já que 73% dos entrevistados indicaram estar em melhores condições financeiras do que há um ano. “Quatro entre cinco famílias revelaram que a situação financeira melhorou. Essa melhoria foi registrada com maior proporção na Região Centro-Oeste [81,75% dos entrevistados] e a Região Sul foi a que concentrou um menor número de famílias com melhorias no orçamento [67,39%]”, afirmou o presidente do Ipea, Marcio Pochmann.

 

 

Comando brasileiro mudará foco de missão de paz da ONU no Haiti

O perfil das tropas da ONU (Organização das Nações Unidas) no Haiti deve mudar a partir de outubro, quando haverá a renovação do mandato e reedição dos termos da missão no país caribenho.

 

O general Floriano Peixoto, que comandava a Minustah (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti) quando o terremoto de 12 de janeiro destruiu o país, afirma que as maiores demandas neste momento são a construção de moradias e a remoção de escombros.

Diante das necessidades de reconstrução do país, a ONU deve alterar o foco da missão, hoje direcionado para a estabilização da paz. O comando das tropas, contudo, continuará nas mãos dos brasileiros.

"A continuidade da ajuda internacional deve incorporar elementos de reconstrução da base física e de infraestrutura, coisa que a ONU já vem fazendo. Haverá um momento que esse balanceamento deverá ser refeito. [A missão] Começa forte militar e vai balanceando", disse o general, que na manhã desta terça-feira ganhou uma medalha do Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

Segundo Floriano Peixoto, o Haiti hoje "está absolutamente seguro" e crimes como sequestro simplesmente deixaram de existir após o terremoto.

Ontem, ex-comandante brasileiro das tropas da ONU no Haiti ganhou elogios do general Douglas Fraser, do Comando Sul dos EUA, pelo esforço em tentar aliviar a dor dos haitianos.

Questionado se a medalha significava um sinal de reconhecimento norte-americano após eventuais desgastes nas relações militares pós-terremoto, Floriano Peixoto foi categórico em reafirmar que não houve competição entre as tropas. "Talvez no início houve indefinição de papéis", ponderou, dizendo que ao EUA cabia ajuda humanitária e ao Brasil garantir a segurança.

 

Colômbia

O comandante norte-americano também enfatizou a parceria com o Brasil até para responder sobre os primeiros atos do presidente de outra nação. Ao ser perguntado se os EUA estão preocupados com a aproximação entre o novo presidente colombiano Juan Manuel Santos e países como a Venezuela, o general David Fraser disse estar "muito feliz".

"Ele [o presidente colombiano] está construindo relações boas com outros países Como nós testemunhamos nosso apoio no Haiti, são as relações fortes entre nações e Forças Armadas que fazem diferença. Estou muito feliz", disse.

 

 

 

Argentina ameaça bater EUA como 2º maior comprador de produtos brasileiros

DE SÃO PAULO

 

A Argentina respondeu por 9,2% das vendas do Brasil para o exterior no mês passado, ante 8,9% dos Estados Unidos, e ameaça se tornar o segundo maior mercado comprador dos produtos brasileiros, informa reportagem de Álvaro Fagundes e Verena Fornetti para a Folha (íntegra disponível para assinantes do UOL e do jornal).

A China ocupa o topo do ranking. De dezembro para cá, o Brasil vendeu em três meses mais para a Argentina do que para os EUA, algo impensável em outros anos.

Em 2002, por exemplo, um quarto das exportações brasileiras foram para os EUA, enquanto 4% tiveram como destino o país vizinho, que vivia grave crise, com queda de 10,9% no PIB (Produto Interno Bruto).

 

 

 

 

Fim da edição impressa do JB encerra uma época importante no jornalismo

Miriam Leitão comenta o fim das edições impressas do Jornal do Brasil, um dos mais tradicionais do país, que agora só poderá ser lido na internet.

 

Hoje é um dia triste para a imprensa brasileira. O Jornal do Brasil, um dos mais tradicionais do país, deixa de circular na versão impressa. Agora ele só poderá ser lido na internet.

O JB foi formador de gerações. Vários jornalistas passaram por lá. Mas eu queria contar um pouco da história do jornal. Ele teve capas históricas. Surgiu em 9 de abril de 1891 e logo depois, em 1893, foi fechado por um ano e porque o presidente Floriano Peixoto achou que ele tinha incitado a Revolta da Armada.

Uma outra capa histórica é a que mostra o presidente Costa e Silva caindo para frente. Foi no dia da publicação do AI-5. Era uma forma de protestar. Ele realmente deixou o governo logo depois. Neste dia, 13 de dezembro de 1968, o editorial do JB foi censurado. Então puseram uma foto de um garoto pequeno lutando contra um adulto muito maior no lugar do texto.

Eles usavam qualquer coisa para protestar. Até a previsão do tempo, que uma vez vinha com o seguinte texto: Clima irrespirável em Brasília. Sujeito a nuvens e trovoadas.

Há uma capa histórica. A censura proibiu fotos no dia da morte do presidente do Chile, Salvador Allende. Então o JB não colocou foto alguma na primeira página, que veio toda só com texto.

Outro exemplo de inovação foi uma edição extra feita em algumas horas para noticiar a morte de Kennedy. Esta agilidade começou a ser copiada pelos outros jornais.

 Aliás, o JB lançou vários movimentos. Ele fez uma reforma em 1961 com Alberto Dines e as mudanças influenciaram jornais do país inteiro. O Caderno B, o departamento de pesquisa, onde trabalhou Fernando Gabeira, que começou lá. Foi o primeiro jornal a ter um departamento dedicado a isso.

Algumas pessoas que trabalharam lá, só para lembrar: Joaquim Nabuco, Rui Barbosa (era o editor quando Floriano Peixoto mandou fechá-lo), Carlos Drummond de Andrade, Zózimo Barrozo do Amaral, que modernizou o colunismo social, João Saldanha, Armando Nogueira, Clarice Lispector, Alceu Amoroso Lima, Ziraldo, Fernando Sabino e Carlos Castello Branco, o maior colunista político que o Brasil já teve.

Todos estes passaram pelo Jornal do Brasil. O JB foi importante na minha vida porque eu fui editora de Economia na época da hiperinflação. Eu aprendi muito no jornal. No dia em que sai fiquei tão emocionada que eu fui para casa ler Carlos Drummond de Andrade. Ai encontrei a seguinte poesia: chama-se Papel.

 

Mercado financeiro

Vale passa Petrobras como ação de maior peso no Ibovespa

 

A BM&F Bovespa divulgou nesta terça-feira que as ações da Vale terão maior peso na composição do Ibovespa que as da Petrobras. Conforme os dados apresentados pela Bovespa, a Vale superou a Petrobras como o papel com maior peso no índice, com 10,756%, seguida pela petrolífera com 9,77%.

A BM&F Bovespa ocupa o terceiro lugar, com 3,819%, seguida por Itaú Unibanco com 3,775% e OGX com 3,732%.

As ações da Brookfield Incorporações, Marfrig e Banco Santander passarão a integrar a próxima carteira teórica do Ibovespa, composta por 68 papéis, que entrará em vigor na quarta-feira e valerá até dezembro.

De acordo com a nova carteira, as ações ordinárias da incorporadora Brookfield terão participação de 0,66% no principal índice da bolsa paulista, enquanto a processadora de alimentos Marfrig terá 0,644%, e as units do banco espanhol corresponderão a 1,049%.

"Como vínhamos dizendo, acreditamos na entrada de SANB11, que já possui mais de 80% de participação em pregões", afirmou o analista Gilberto Pereira de Souza, do Banco Espírito Santo, em relatório sobre a prévia do índice.

A nova composição do Ibovespa não prevê a saída de papeis presentes na carteira em vigor até esta terça-feira, com exceção da incorporadora e consutrutora Agre, cuja ação já havia sido retirada do mercado após se unir à PDG Realty em maio.

 

Serviço militar vai incorporar mais jovens com a reestruturação da Defesa, afirma Jobim

 

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, afirmou hoje, no Rio, que o número de incorporações ao serviço militar obrigatório passará da média atual de 69 mil para 91 mil jovens por ano, com as medidas de reestruturação do ministério, sancionadas na última quarta-feira (25) pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A reestruturação da pasta foi o tema da palestra de Jobim na abertura do 7º Congresso Acadêmico sobre Defesa Nacional, que ocorre até a próxima sexta-feira (3) na Escola Naval, na Ilha de Villegagnon, na Baía de Guanabara.

Entre os pontos destacados por Jobim, na palestra aos participantes do congresso, estão as medidas de reestruturação que ampliam o poder de polícia nas fronteiras, como o aumento de 21 para 49 no número de pelotões e a criação de batalhões de operações da Marinha nos estados de Mato Grosso, do Amazonas e do Pará.

Sobre a criação da carreira civil no Ministério da Defesa, Nelson Jobim disse que ela tem a ver com a operacionalidade do próprio ministério, em função da rotatividade dos titulares da pasta. “Se você tem uma carreira de Defesa, as chefias mudam com os governos, mas as estruturas continuam funcionando, sem inventar a roda”, afirmou. Segundo o ministro, a carreira civil vinculada ao Ministério da Defesa abrirá espaços para técnicos especializados em equipamentos, em guerra cibernética e em temas ligados à articulação militar.

 

Jobim surpreende: é o xodó dos militares

UM QUE  DEU CERTO –

 

Para a composição do ministério de Dilma não devem ser  esperadas consultas, muito menos nos quartéis,  para o preenchimento do ministério da Defesa. Mas se por hipótese valesse a opinião dos chefes militares, quase por unanimidade prevaleceria a tendência de que “se está bom assim, para que mudar?” Nelson Jobim conta hoje com o apoio do Exército,  Marinha e Aeronáutica, como um dos melhores ministros que jᠠocuparam a pasta.

Poliu arestas, atendeu reivindicações e conteve bissextos arroubos de insatisfação  castrense. Cuidou da “sua turma” com firmeza e competência. Se  a provável nova presidente da República decidir manter alguns auxiliares do governo Lula, provavelmente começaria pela Defesa.

Carlos Chagas

 

Semana da pátria será aberta amanhã com acendimento do fogo simbólico

Alessandra Marques

Colaboração para O NORTE

 

A prefeitura de Montes Claros, por meio da secretaria municipal de Educação, promove amanhã, quarta-feira, a abertura das comemorações da Semana da Pátria. A tocha com o fogo simbólico da Pátria sairá da escola estadual Levi Durães Peres, no Bairro Santa Lúcia, às 7h, conduzida por oficiais do exército e atletas de projetos da secretaria de Esporte, Juventude e Lazer.

Depois de percorrer algumas ruas do centro da cidade, chega ao prédio da Prefeitura às 8 horas, onde será acesa a pira com fogo simbólico, e acontece a solenidade oficial de abertura, com a presença do prefeito Luiz Tadeu Leite e demais autoridades.

Está prevista a participação de alunos de escolas municipais e estaduais, que farão apresentações artísticas e culturais e, ainda representantes da Polícia Militar, Exército e Corpo de Bombeiros.

Está tudo pronto para o tradicional desfile do dia 7 de setembro. O evento, coordenado pela secretaria municipal de Educação, será realizado na Avenida Deputado Esteves Rodrigues (Avenida Sanitária).

A concentração será às 7h, ao lado prefeitura. O tema deste ano é Meio ambiente, e cada instituição deverá repercutir o assunto na avenida. Está confirmada a participação de 32 instituições, incluindo escolas públicas e particulares, 55º Batalhão de Infantaria do Exército, 10º Batalhão de Polícia Militar, Corpo de Bombeiros, Guarda Mirim, Escoteiros, Associação de Promoção e Ação Social (Apas), Associação de Idosos, SAMU, Legião da Boa Vontade (LBV), Comunidade Cristã Pentecostal, Ordem Demolay, dentre outras instituições. A banda de música da Polícia Militar e as tradicionais fanfarras escolares também estarão presentes nos desfiles.




 

Planalto, que teme prejuízo eleitoral, tenta esvaziar discussão na campanha de Dilma sobre Previdência

Gerson Camarotti e Luiza Damé 

 

BRASÍLIA

Para evitar prejuízos eleitorais, o Palácio do Planalto entrou em campo ontem tentando esvaziar o debate sobre a provável reforma da Previdência no eventual governo Dilma Rousseff (PT), tema impopular e que atinge todos os trabalhadores. Integrantes do governo e da campanha da petista negaram haver discussão interna sobre o assunto. De forma reservada, no entanto, assessores do governo e parlamentares do PT reconhecem que essa é a mais urgente das reformas, e que terá que ser encarada pelo futuro presidente.

Integrantes da oposição também reconhecem que a reforma é urgente e necessária, mas cobram um debate claro e transparente sobre o tema na campanha eleitoral e não apenas nos bastidores. Mas os petistas dizem que pôr o tema em debate neste momento, a um mês das eleições, pode ser grande armadilha para Dilma.

O GLOBO revelou ontem que, caso seja eleita, Dilma deverá apresentar ao Congresso uma proposta de reforma no sistema previdenciário, com mudanças nas regras de aposentadorias apenas para os futuros trabalhadores, tanto da iniciativa privada quanto do setor público. Para reduzir o desgaste político, a proposta não teria sequer regra de transição para quem está no mercado de trabalho.

Para esvaziar o debate, o Ministério da Fazenda negou, em nota, que esteja elaborando proposta de reforma da Previdência. Disse que “não há qualquer projeto neste sentido sendo desenvolvido na Secretaria de Política Econômica ou em qualquer órgão do Ministério da Fazenda”. Mas fontes do governo confirmam que o estudo foi feito pelo secretário de Política Econômica, Nelson Barbosa.

 

Presidente do PT é a favor da reforma

O presidente do PT, José Eduardo Dutra, negou que a campanha de Dilma esteja estudando propostas sobre o tema. Disse que discussões sobre mudanças no sistemas previdenciários público e privado são constantes no governo. Ressaltou ainda que, pessoalmente, defende uma reforma da Previdência com vigência apenas para os novos trabalhadores.

— Essa proposta existe há muito tempo e continua em estudo, mas não faz parte do programa de governo de Dilma. Só vamos discuti-la após a manifestação das urnas — disse Dutra.

Para o líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), tratase de uma “conversa deslocada”: — A reforma da Previdência não está na pauta da política e a coordenação de campanha nunca tratou do assunto. Temos que esperar a eleição para conversar sobre o tema.

Para o líder do DEM na Câmara, Paulo Bornhausen (SC), discutir a proposta apenas nos bastidores é tentativa dos petistas de antecipar o resultado da eleição presidencial: — É importante trazer essa proposta para discutir na campanha.

Ninguém pode ser contra a reforma, mas esse parece um movimento antecipatório de resultado.

O deputado tucano Arnaldo Madeira (SP), um dos maiores críticos do aumento de gastos do governo, defende que a reforma seja debatida logo no início do próximo governo, independentemente do eleito: — Essa reforma já está atrasada, pois a Previdência está quebrada. E tudo que o governo quiser fazer na Previdência tem que ser no começo do mandato, quando o capital político do presidente está em alta.

O senador Paulo Paim (PT-RS), que defende os aposentados no Congresso, acha que não é o momento de tratar do assunto.

— É temerário tratar desse tema no período eleitoral. Até porque num assunto como esse é preciso grande diálogo com a sociedade. Envolve a vida de todos os brasileiros.

 

 

Amigo de Chávez

 Ancelmo Gois

 

No staff de Dilma Rousseff, é bem cotado para ser ministro da Defesa o ex-diretor do BNDES Darc Costa, hoje uma espécie de guru político de Hugo Chávez no Brasil.

Darc é próximo dos militares da época que foi coordenador do Centro de Estudos Estratégicos da ESG.

 

 

Envelhecimento da população desafia o mercado de trabalho

Interesse pela mão de obra de idosos cresce, mas não acompanha acelerado avanço da faixa etária

Chico Otavio

 

Procura-se profissional acima dos 60 anos... Para um mercado de trabalho que insiste em enxergar o Brasil como um país jovem, o anúncio de emprego pode sugerir um trote. Mas não é. Gente como o comerciante Antônio Fiori, a empresária Márcia Lima Gabionetta e a assistente social Renata Hauck faz parte de um pequeno, mas promissor, grupo de empregadores que resolveu trocar o vigor da juventude pela experiência e a assiduidade dos mais velhos. Para as vagas abertas em seus negócios, eles optaram pelo trabalhador idoso.

As projeções indicam que o país a ser revelado pelo Censo 2010 do IBGE terá um contingente de 14 milhões de idosos. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) reforçam o fenômeno: se a população total cresce à taxa de 0,9% ao ano, o incremento de pessoas acima dos 60 anos avança quatro vezes mais (3,8% anuais).

Para muitos, os números sinalizam um problema quando cruzados com as contas da Previdência ou com o sistema de saúde. Há outros, porém, que preferem entendêlos como nicho de negócios: — O retorno é garantido. Os idosos são pessoas responsáveis e centradas. Não dão trabalho, não faltam. Já os jovens têm outras ambições, como as baladas do fim de semana — afirma o comerciante paulista Antônio Fiori, dono de uma fornecedora de areia e pedras, que acaba de contratar um idoso para gerente.

Como o país está envelhecendo, o desafio civilizatório que se impõe, preveem os demógrafos, é aumentar a idade produtiva da população. Em vez de estimular a ociosidade da terceira idade ou alterar o fator previdenciário, para evitar que o equilíbrio atuarial fique insustentável, a alternativa seria dotar os idosos de capacidade física para adiar a retirada da vida produtiva.

— O Brasil não estava preparado para envelhecer. Se a perspectiva era se aposentar e viver no máximo oito anos, hoje a pessoa chega a ter mais 20, 30 anos de vida. Nenhuma sociedade pode jogar fora essa mão de obra — diz o médico Renato Veras, diretor da Universidade Aberta da Terceira Idade (Unati/Uerj).

No caminho de volta ao mercado, o aposentado tem deixado a carteira de trabalho em casa. Quase metade dos trabalhadores ocupados acima dos 60 anos (44%) é autônoma, enquanto 31,4% são assalariados, 9,8%, empregados domésticos e 9,7%, empregadores.

— Há dois tipos de idosos no mercado informal: o mais escolarizado, que geralmente é um profissional liberal e se beneficia de sua experiência, e o menos escolarizado, que encontramos muito na agricultura — explica a economista Ana Amélia Camarano, coordenadora de Pesquisa em População e Cidadania do Ipea.

 

No ano passado, 55% da população masculina entre 60 e 69 anos ainda trabalhavam. Muitos, principalmente nas faixas de renda mais baixas, prolongaram a idade produtiva para reforçar a diminuta aposentadoria quando a família cresceu.

Um deles é Horacildo de Castro, de 69 anos, que virou homemplaca pelas ruas de São Paulo.

Ex-metalúrgico da Mafersa, Horacildo passou em casa os primeiros anos da aposentadoria, na década de 90. Até que a sua mulher resolveu adotar uma recém-nascida.

Desde então, o velho operário do aço trabalha com outros metais: fica nove horas por dia na rua para ganhar R$ 20 anunciando a compra de ouro, platina e brilhantes.

— Sem o biscate, não daria para criar a menina. Carrego a placa faça chuva, faça sol. Os seguranças das lojas vivem me tocando para outro lugar — diz o homem-placa, cuja filha de criação já tem 15 anos.

Mas, apesar das intempéries, Horacildo segue em frente. E é isso que encanta os empregadores que têm optado pela terceira idade.

 

Com o idoso, não há tempo ruim.

Principalmente quando o desafio profissional é conviver com pessoas da mesma idade.

A assistente social Renata Hauck ajudou a tia, médica, a procurar uma aposentada para ser funcionária do seu consultório, em Belo Horizonte: — Jovens têm sempre problemas.

 

O namorado ou o filho pequeno.

Se faltam, não há como minha tia fazer os procedimentos do consultório.

Aposentada não tem filho pequeno. Contratamos uma senhora simpática, com experiência de vida. Passa algo agradável às pacientes na sala de espera.

O aposentado representa um baixo custo. Não faz questão de carteira assinada e vê o salário como um complemento de renda. Há casos em que nem salário é necessário.

Com vasta experiência acumulada, saúde e vontade de contribuir, o aposentado abraça o voluntariado.

Na prefeitura de Niterói, por exemplo, os responsáveis por licitações suam frio quando chega o aposentado Guilherme Magalhães.

Ele é um dos trabalhadores idosos qualificados que fazem da experiência a senha para o reingresso na vida produtiva. Ex-gerente de Negócios do Banco do Brasil, onde trabalhou por 32 anos, Magalhães é hoje fiscal voluntário do Observatório Social da cidade, ONG de olho nas contas municipais.

— As pessoas não acreditam que você pode mudar a realidade.

Além disso, precisamos nos sentir produtivos, mesmo sem remuneração — orgulha-se Magalhães.

Não são poucos os casos de aposentados que, sentindo-se produtivos, encontraram as portas do mercado fechadas ou quebraram a cara ao tentar um negócio. O paulista Luiz Pinto Cepinho, também bancário, aderiu ao plano de demissões voluntárias do BB, montou restaurante e faliu.

Hoje, sobrevive como fotógrafo de festas, e luta para voltar ao BB pela via judicial.

Demissões espontâneas, aposentadoria compulsória e outros mecanismos encurtam a vida ativa de milhares de trabalhadores.

Há lugares, porém, em que a experiência com os mais velhos foi tão boa que motivou a continuidade: — Perdi um serralheiro que ainda trabalhava quando morreu aos 80. Para substituí-lo, quero outro idoso — diz a empresária Márcia Lima Gabionetta, dona de uma fábrica de tendas e barracas para feiras.

 

 

Lula agora prioriza eleição de bancada forte no Congresso

Preocupação maior é com o Senado, onde maioria do governo é frágil

Maria Lima

 

BRASÍLIA. Confiante que a candidata petista, Dilma Rousseff, vencerá no primeiro turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está centrando fogo para ampliar ao máximo a base governista no Congresso, principalmente no Senado. Nos últimos comícios ao lado de Dilma no Nordeste, Lula fez discursos emocionados, pedindo aos eleitores e políticos locais que elejam candidatos a deputado e a senador da base aliada.

Lula disse que não deseja que Dilma sinta na pele o que ele sofreu no Senado. Em 2005, disse, a oposição tentou derrubá-lo, no auge da crise do mensalão. Também lembrou o fim da CPMF, que rendia aos cofres públicos cerca de R$ 40 bilhões por ano.

Na última sexta-feira, em Recife, ele afirmou que o eleitor tem o compromisso de reeleger o governador Eduardo Campos (PSB) e deputados aliados para que “não venha nenhum picareta” lhe criar dificuldade.

— É importante votar nos deputados federais para ajudar a companheira Dilma, porque não tem nada pior que você precisar de voto e algumas pessoas ficarem te chantageando. Portanto, é importante votar nos companheiros dos partidos que estão apoiando Dilma — pediu Lula.

Ao falar das dificuldades que teve, diante da sua frágil maioria no Senado, Lula disse que, após sair da a Presidência, andará pelo país para avaliar a construção de uma organização política: — Uma organização política em que a gente junte todos os partidos aliados e crie uma coisa muito forte, para nunca mais permitir que um presidente sofra o que sofri em 2005, com um Senado que quase tenta derrubar o presidente da República.

Partidos pequenos e médios querem ampliar “bloquinho” Segundo o presidente do PT, José Eduardo Dutra, o partido pode eleger cerca de cem deputados, talvez superando a bancada do PMDB. No Senado, a previsão é que o PT faça dez senadores e o PMDB, cerca de 20.

 

Para se contrapor à força dessas duas maiores bancadas, os partidos pequenos e médios da base podem se juntar e transformar e aumentar o atual “bloquinho” (PSB-PDT-PCdoB).

 

O PT já espera por isso.

— Independente da minha vontade, acho que partidos como o PSB/PDT/PCdoB/PRB e outros vão ampliar o bloquinho. A tendência é se aglutinarem, para não ficar com uma perna a menos diante do fortalecimento das bancadas do PT e PMDB.

Acho que o PT pode sair mais forte das urnas do que o PMDB.

A diferença pode ser de cinco a seis deputados para um lado ou outro — disse Dutra.

 

O líder do PTB no Senado, Gim Argelo (DF), diz que a ampliação do bloquinho será discutida após a eleição.

— Vamos discutir esse negócio de formação de blocos na hora certa. Daqui a 30 dias vamos saber a força que cada um vai sair das urnas. O PTB no Senado deverá continuar como o fiel da balança.

Do outro lado, o candidato ao Senado e ex-governador Aécio Neves (PSDB-MG) tem pregado a necessidade de aproximação de PSDB e DEM com dissidências de partidos governistas.

O objetivo seria formar um bloco em defesa de uma “agenda de Estado”.

 

 

Reforma da Previdência na agenda

 

Candidatos sempre evitam temas espinhosos, ainda mais quando favoritos nas pesquisas pré-eleitorais. Não por acaso o Ministério da Fazenda se adiantou em negar que esteja elaborando uma proposta de reforma para a Previdência Social por encomenda de um eventual governo Dilma Rousseff. No entanto, faz todo sentido que essa questão entre para a agenda do próximo presidente, seja ele qual for.

A atual legislatura no Congresso foi marcada por várias tentativas de contrarreforma.

Embora o déficit do sistema dos servidores federais — R$ 46,9 bilhões, no ano passado — já caminhe para superar o do regime geral (INSS), tal desequilíbrio não sensibilizou os parlamentares que desejam extinguir a contribuição dos servidores inativos (o que na prática significaria fazer com que funcionários fora do serviço público passem a receber vencimentos básicos integrais, ou seja, mais do que se estivessem na ativa, o que seria um estímulo à aposentadoria).

Nessa mesma linha demagógica, um movimento no Congresso tenta acabar com o chamado fator previdenciário, fórmula justa que hoje é capaz de contrabalançar o impacto imediato (mas não a longo prazo) das aposentadorias precoces sobre as finanças do INSS.

Diante dessas pressões, que não respeitam a racionalidade econômica ou aritmética, o próximo governo precisará responder com uma proposta de ajuste mais perene da Previdência, ainda que seus frutos só venham a ser colhidos principalmente a longo prazo.

O Brasil terá pelos próximos vinte anos o chamado bônus demográfico. Nesse período, a população adulta ativa, em condições de produzir, consumir e poupar, chegará ao máximo, em termos absolutos e relativos. Durante esta fase, o déficit da Previdência até poderá ser administrado, sacrificando-se outros itens de despesas do Tesouro (muitas das quais capazes de trazer benefícios a toda a população).

Mas, quando o bônus demográfico se esgotar, a parcela da população economicamente inativa aumentará muito. O déficit então tenderá a ser explosivo, comprometendo até a garantia de pagamento de benefícios.

O sistema geral não poderá continuar sem uma idade mínima para a aposentadoria, nem o Tesouro tem como arcar eternamente a integralização do último salário do servidor na ativa. Tal bomba de retardo terá de ser desativada o quanto antes com uma reforma mais perene no sistema previdenciário.

A expectativa de direitos dos segurados atuais cria forte resistência a essa reforma, pois qualquer regra de transição é considerada uma perda. A reforma vista como possível envolveria apenas os novos segurados, ou seja, aqueles que entrariam no mercado de trabalho a partir da aprovação das mudanças.

Tanto para servidores públicos como para contribuintes do INSS os efeitos de uma reforma como essa somente seriam sentidos em trinta ou quarenta anos. Mesmo que uma reforma nesses moldes não gere os resultados financeiros positivos diretos para a Previdência ao longo desses anos, o simples fato de se desmontar a bomba de retardo se refletirá no curto prazo nas finanças públicas (queda nas taxas de juros, por exemplo), pois os próprios mercados tenderão a antecipar essa perspectiva de equilíbrio futuro. Tal possibilidade será um atrativo para que o próximo governo se empenhe em aprovar uma reforma perene da Previdência.

Juros refletiriam hoje mudanças positivas aprovadas para o futuro

 

 

Receita: sigilo era quebrado por encomenda

Corregedoria manda para o MP representação contra Addeilda, que operava o esquema de vazamento de dados

Fábio Fabrini

 

BRASÍLIA e SÃO PAULO. A Corregedoria da Receita Federal enviou ontem ao Ministério Público Federal representações que apontam a servidora Addeilda dos Santos, da Delegacia de Mauá (SP), como a principal responsável pelos vazamentos de dados fiscais protegidos por sigilo. Os dados de quatro tucanos ligados ao presidenciável José Serra teriam ido parar em suposto dossiê montado por integrantes da campanha da petista Dilma Rousseff, que nega.

Fontes ligadas à investigação dizem que as provas evidenciam que Addeilda operava de seu computador o esquema, classificado pelo corregedorgeral, Antônio Carlos Costa D’Ávila, como um balcão de venda de sigilos.

O método de acesso às informações é uma das principais evidências contra Addeilda, cedida pelo Serpro. A corregedoria apurou que, antes de as declarações de IR de políticos, celebridades e empresários serem acessadas com a senha da analista Antônia Aparecida Rodrigues dos Santos Neves, a de Addeilda era usada para entrar no CPF das mesmas pessoas, e visualizar informações mais simples, como endereço e filiação.

A corregedoria concluiu que o acesso era sempre feito periodicamente e em pacotes, o que indica ação por encomenda. É o caso do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge Caldas Pereira, e mais três pessoas ligadas a Serra, cujos sigilos foram violados por 16 minutos, em 8 de outubro do ano passado.

Eduardo Jorge acusa o comitê da candidata Dilma Rousseff de envolvimento na violação.

O advogado de Addeilda, Marcelo Panzardi, informou que a senha de sua cliente não permitia acesso mesmo a informações mais simples.

— Mesmo assim, o fato de a senha pessoal dela ter sido usada não quer dizer que foi por ela. Addeilda deixava o computador ligado no sistema da Receita quando saía — explicou.

Corregedor nega convite para depor no Senado As conclusões foram para o procurador da República Vinícius Alves, que já investiga o caso. O inquérito corre em segredo de Justiça.

O corregedor-geral da Receita recusou-se a comparecer hoje a audiência na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado para dar explicações sobre o caso. Os senadores devem ouvir o técnico Demétrius Sampaio Felinto, que acusa o Palácio do Planalto de sumir com fitas que registrariam um encontro de Dilma com a ex-secretária da Receita Lina Vieira. Segundo Lina, a então ministra da Casa Civil teria tentado favorecer o senador José Sarney (PMDB-AP).

Deve depor hoje no Senado Gerardo Santiago, ex-assessor da presidência da Previ, o fundo de pensões dos funcionários do Banco do Brasil. Ele sustenta que o fundo foi transformado numa “fábrica de dossiês” na gestão de Sérgio Rosa, também convidado pela CCJ.

Antônia Aparecida negou ter participado do vazamento e afirmou estar se sentindo uma “vítima em todo esse processo”, em carta divulgada pelo Sindicato Nacional das Carreiras de Auditoria da Receita Federal do Brasil (Sindireceita).

Ela disse que compartilhamento de uma de suas senhas para acessar o sistema de dados foi “ em função do volume de trabalho”.

 

 

Festa na véspera

Miriam Leitão

 

Então é isso? Uma eleição cuja campanha começou antes da hora acabou antes que os votos sejam depositados na urna? A vencedora de véspera já estendeu a mão, magnânima, à oposição; seus dois maiores caciques começaram uma briga intestina; cargos são distribuídos entre os partidos da base e os assessores já preparam os planos e projetos. Fala-se do futuro como inexorável.

O quadro está amplamente favorável a Dilma Rousseff, mas é preciso ter respeito pelo processo eleitoral.

Se pesquisa fosse voto, era bem mais simples e barato escolher o governante.

Imagina o tempo e o dinheiro poupado se pesquisas, 30 dias antes do pleito, fossem suficientes para o processo de escolha? A estrutura da Justiça Eleitoral, as urnas distribuídas num país continental, mesários trabalhando o dia inteiro, computadores contando votos; nada disso seria necessário.

Mas como eleição é a democracia num momento supremo, respeitá-la é essencial.

Os que estão em vantagem, e os que estão em desvantagem, não podem considerar o processo terminado porque isso amputa a melhor parte da democracia, encerra prematuramente o precioso tempo do debate e das escolhas.

Dilma já sabe até o que fará depois de ser eleita, como disse na sexta-feira: “A gente desarma o palanque e estende a mão para quem for pessoa de boa vontade e quiser partilhar desse processo de transformação do Brasil.” Os jornalistas insistiram, ela ficou no mesmo tom: “Estendo a mão para quem quiser partilhar. Eu não sei se ele (Serra) quer.

Você pergunta para ele, se ele quiser, perfeitamente.” Avisou que se alguém recusasse, não haveria problema: “Pode ficar sem estender a mão, como oposição numa boa que vai ter dinheiro.” Já está até distribuindo o dinheiro público.

Feio, muito feio. Por mais animador que seja para Dilma os resultados da pesquisa — e deve ser difícil segurar a ansiedade — ela deveria pensar em algumas coisas antes. Primeiro, que falta o principal para ela ganhar: o voto na urna. Segundo, que o eleitor muda de ideia na hora que quer, porque para isso é livre.

Terceiro, que, novata em eleição, deve seu sucesso a fatores externos a ela: o presidente Lula, o momento econômico e a eficiência dos seus marqueteiros.

Aliás, o marketing de Dilma tem sido tão eficiente em aparar todas as arestas de sua personalidade que criou uma pessoa que nem ela deve conhecer.

O salto alto não é só dela, a bem da verdade. A síndrome das favas contadas se espalha por todo o seu entorno, cada vez mais desenvolto.

Por isso já começaram a brigar os generais de cada uma das bandas: Antonio Palocci e José Dirceu. Da última vez que brigaram, os dois caíram.

A disputa dos partidos da base de apoio pelos cargos públicos, como se fossem os despojos da guerra já vencida, é um espetáculo que informa muito sobre valores, critérios e métodos do grupo.

A desenvoltura do já ganhou é tanta que até o presidente Lula, dono da escolha autocrática de Dilma, parece meio enciumado e reclamou que já falam dele no passado. E avisou: “Ainda tenho caneta para fazer muita miséria.” A declaração inteira é reveladora: “Tem gente que fica falando aqui como se eu já tivesse ido embora, mas ainda tenho quatro meses e alguns dias de governo. Alguns falam como se eu já tivesse ido. Tem gente que se mata para ser presidente por um dia e ainda tenho quatro meses e alguns dias. Ainda tenho a caneta para fazer muita miséria nesse país.” O sentimento é um perigo.

O presidente Lula já está fazendo miséria. Atropelou o calendário eleitoral, zombou das multas na Justiça, pôs o governo que dirige para trabalhar pela sua candidata como se a máquina pública fosse um partido político.

Há uma lista enorme de misérias econômicas que o governo Lula tem feito nesse final dos tempos. Os gastos foram inchados, aumentos salariais ao funcionalismo já foram concedidos no próximo orçamento, restos a pagar se aproximam dos R$ 100 bilhões, projetos são precipitados sem análise de risco, o Tesouro vai emitir uma montanha de dívida para capitalizar a principal estatal. Enfim, o governo no finalzinho não lembra em nada o comedido início.

Aliás, a razão da briga entre os generais José Dirceu e Palocci é exatamente esse ponto: se é melhor ter uma cara de austeridade, ou continuar fazendo miséria.

O curioso da insegurança que bateu no presidente Lula é que foi ele mesmo que explicitou o clima de “fui” na campanha de Dilma Rousseff com aquele filmete do: “entrego em suas mãos.” Na sexta, Dilma disse mais: “Meu projeto político é ficar quatro anos. Na próxima eleição, digo o resto do projeto.” Então ela já começou a pensar na eleição de 2014? Mas pelos cálculos petistas, a história brasileira está decidida até 2022. É Dilma, agora. Depois, Lula em dois mandatos. Está tudo decidido para os próximos doze anos. O país teria assim um período de 20 anos de governo petista.

Quando Dilma brigou com Palocci em 2005 e disse que o projeto de zerar o déficit público era rudimentar, ela usou a conhecida expressão de Garrincha: “Falta combinar com os russos.” Agora, falta combinar com os brasileiros.

 

 

Sítio nuclear

 

A Eletronuclear vai estender os estudos de localização de usinas nucleares à Região Norte e a todo o Nordeste brasileiro.

A estatal assinou termo de cooperação com a Secretaria de Assuntos Estratégicos sexta passada. O levantamento vai durar quatro meses e engloba os sete estados do Norte, cinco do Nordeste e o Mato Grosso.

 

Mapa completo

O acordo com a SAE completa o projeto de mapeamento do território brasileiro para instalação de centrais nucleares. Em 2009, a Eletronuclear concluiu estudos em Bahia, Sergipe, Pernambuco e Alagoas. No início deste mês, a empresa assinou contrato com a EPE para mapear as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

 

 

PIB: Mantega prevê alta de 0,5% a 1%

Apesar da desaceleração no 2o- trimestre, expansão chegaria a 7% no ano

Ronaldo D’Ercole e Lino Rodrigues

 

SÃO PAULO. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse ontem que o Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país) do segundo trimestre, que será divulgado sexta-feira pelo IBGE, deverá apresentar expansão de 0,5% a 1% sobre o trimestre anterior. Apesar da desaceleração — nos primeiros três meses do ano, o PIB cresceu 2,7% sobre o último trimestre de 2009, e 9% ante o primeiro trimestre —, a economia fechará 2010 com alta de cerca de 7%.

No 7oFórum de Economia, da Fundação Getulio Vargas, Mantega creditou a solidez à “nova estratégia” do governo, o “neodesenvolvimentismo”: — Esse modelo permitiu que o país superasse a crise com sucesso, e melhorou muito a vida dos brasileiros.

Para o ministro, o Brasil está hoje entre as economias mais dinâmicas. Mais do que estar crescendo a uma taxa de 7%, a maior dos últimos 24 anos, ele destacou a “qualidade” dessa expansão — com alta nos investimentos, no consumo das famílias e no nível de emprego.

— Alcançamos um outro patamar de crescimento, de qualidade.

E sustentável, porque se dá com inflação controlada — disse, prevendo alta de 5% a 5,5% para a inflação oficial em 2010.

Mantega chamou de pessimistas as projeções dos analistas para o crescimento do PIB em 2011, da ordem de 4,5%, e projetou alta de 5,5%. Mesmo reconhecendo que a continuidade do atual modelo impõe desafios ao novo governo, afirmou ser possível o país crescer a taxas médias de 5,8% ao ano até 2014.

— Ouso dizer que estamos iniciando o Estado de bem-estar social no Brasil — afirmou.

Para ministro, país criará 2 milhões de vagas este ano Mantega listou os desafios do novo governo para que o país não perca o passo do crescimento sustentável: manutenção de investimentos elevado e modernizar a estrutura financeira, para que a iniciativa privada ter crédito de longo prazo: — Não dá para manter o Tesouro transferindo recursos para o BNDES por muito tempo.

Mantega disse que medidas como a criação de classes de debêntures, com taxação diferenciada, e o aperfeiçoamento das regras para os Certificados de Recebíveis Imobiliários, devem ser anunciadas este ano.

À noite, em evento do jornal “Valor Econômico”, que premiou as 25 empresas mais eficientes do Brasil, Mantega indicou que não continuará à frente da Fazenda no próximo governo: — Este ano as empresas estão melhores do que em 2009, mas não sei se estarei aqui no ano que vem para comemorar com elas.

O ministro disse que o crescimento ajudou a incluir 40 milhões de brasileiros ao mercado de consumo. Segundo ele, “a classe C tem R$ 500 bilhões de poder aquisitivo em 2010”.

— Estamos entrando na rota do bem-estar social. Em termos relativos, estamos gerando mais empregos que a China. Este ano vamos gerar 2 milhões.


 





 

PF ataca fraude na reforma agrária

Chefes do Incra faziam parte de quadrilha. Prejuízo soma R$ 12 mi

 

O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) exonerou ontem o superintendente do órgão em Mato Grosso do Sul, Waldir Cipriano Nascimento; o superintendente substituto, Helio Pereira da Rocha, e o chefe da Unidade Avançada de Dourados, Oscar Francisco Goldbach, depois que a Polícia Federal prendeu 20 pessoas inclusive os servidores acusadas de participar de um esquema criminoso que fraudava projetos de reforma agrária em Mato Grosso do Sul. De acordo com o Ministério Público Federal (MPF), os danos chegam a R$ 12 milhões.

Também estão envolvidos empresários da região, líderes de assentamentos e dois vereadores do município de Itaquiraí.

Cipriano tinha um cargo comissionado, e foi demitido.

Rocha e Goldbach, por serem funcionários de carreira, estão afastados de suas funções.

A Operação Tellus, feita em parceria com o Ministério Público Federal, cumpriu os 20 mandados de prisão e 25 de busca.

De acordo com a PF, as investigações começaram há oito meses.

Irregularidades Em 2007, o Incra investiu R$ 130 milhões na aquisição de quatro fazendas do Complexo Santo Antônio, em Itaquiraí. Cerca de 17 mil hectares foram desapropriados e distribuídos em quatro projetos de assentamento de sem-terras nos municípios de Santo Antônio, Itaquiraí, Caburei e Foz do Rio Amambai.

No fim de 2008, os lotes foram sorteados de forma irregular.

Os melhores lotes foram reservados aos líderes dos movimentos sociais. Além disso, houve desrespeito ao cadastro prévio de acampados, com a distribuição de 497 lotes a pessoas não habilitadas e a desconsideração de 425 pessoas habilitadas que não receberam lotes.

Segundo a PF, a quadrilha também vendia lotes ilegalmente. Alguns viraram sítios de lazer. Também houve recebimento de propina por parte de servidores do Incra para a exclusão de imóveis rurais do processo de avaliação para verificação de produtividade.

A operação envolveu 137 policiais. Foram apreendidas armas e cerca de R$ 60 mil na casa dos envolvidos.

De acordo com o Incra, o pagamento dos créditos aos assentados e todos os processos de obtenção de imóveis rurais para a reforma agrária no estado estão suspensos temporariamente.

 

 

Fiesp vê risco de desindustrialização

 Real valorizado estaria expondo demais segmentos do setor industrial à concorrência estrangeira

 

Embora destaquem recentes avanços, como o controle da inflação e o crescimento do mercado consumidor interno, a indústria brasileira diz temer a desindustrialização de setores afetados pelas importações.

Segundo Benjamim Steinbruch, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), e que também preside a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), o real valorizado e a taxa de juros elevada têm provocado distorções e prejudicado parte do setor produtivo nacional, que não tem como competir com os produtos importados.

Se por um lado talvez nunca tenhamos estado tão bem, por outro estamos vivendo um risco de desindustrialização sublinhou Steinbruch , alegando que, em 2009, o déficit entre as exportações e as importações de produtos manufaturados atingiu US$ 35 bilhões, cifra que, segundo ele, deve aumentar para US$ 60 bilhões este ano: Grãos e minério mascaram os resultados da balança comercial, mas, na verdade, em relação àquilo que tínhamos interesse em desenvolver, ou seja, os manufaturados de valor agregado, estamos em sério risco concluiu Steinbruch.

O presidente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Pedro Luiz Barreiros Passos, observa que a concorrência externa representa um risco de redução dos empregos: Estamos sobre uma ameaça de perdermos empregos qualificados para os nossos competidores internacionais, e temos que ter em mente a necessidade de ajustes de rumo sem perdermos as grandes conquistas que tivemos.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, nega haver risco de desindustrialização e garante que, apesar da concorrência internacional, a indústria brasileira atravessa um bom momento

 

 

Do quepe

Leandro Mazzini

 

Chefe maior do Exército, o general Enzo Peri recebe hoje para um café no QG de Brasília o general Douglas Fraser, comandante do Comando Sul dos Estados Unidos.

 

 

Um recorde que ninguém quer

UM DOS TEMAS DISCUTIDOS ao longo da segunda-feira foi o recorde de arrecadação em impostos no país. Os brasileiros já pagaram estratosféricos R$ 800 bilhões em impostos federais, estaduais e municipais somente este ano, segundo o impostômetro da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). A marca foi atingida ontem exatamente 39 dias antes do que em 2009.

Segundo a ACSP, a previsão para a totalidade deste ano é que haja um novo recorde de arrecadação em comparação com o ano passado, que foi de R$ 1,09 trilhão. No último dia 17, a Receita Federal informou ter arrecadado R$ 67,973 bilhões em julho, recorde para o mês. O montante inclui os impostos e as contribuições federais e as contribuições previdenciárias ao Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS).

Na comparação com junho, quando a arrecadação alcançou R$ 61,494 bilhões, foi verificada alta real de 10,54% (valores já corrigidos pela inflação). Em relação a julho de 2009, quando a arrecadação chegou a R$ 61,372 bilhões, corrigidos, houve crescimento real de 10,76%.

 

Pesquisa feita pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) em seis capitais mostra que, para 95,6% dos brasileiros, o valor cobrado em impostos no Brasil é muito elevado. O índice é ainda mais alto quando o quesito avaliado é a eficácia dos serviços oferecidos em troca dos impostos pelo poder público. Para 97,1% dos consultados, as cobranças são altas quando comparadas à qualidade dos serviços.

A pesquisa também mostra que poucos brasileiros sabem o quanto pagam realmente de impostos. Em torno de 70% dos entrevistados não souberam responder o percentual comprometido do salário todo mês com o pagamento de tributos especialmente os que vêm embutidos nos preços dos produtos que consumimos diariamente.

Um exemplo é a gasolina: em que 53% do seu valor são de impostos, taxas e contribuições. Ou ainda o que pagamos pelo micro-ondas (59%), celular (40%), e por aí vai.

Um dado curioso e, diga-se, absolutamente pertinente que surge com o estudo é que a população gostaria de ver o tema da alta carga tributária, o peso do imposto na vida de cada um, tratado na campanha eleitoral. Pelo que se viu até agora, a população vai ficar querendo, porque nem a situação nem a oposição têm gasto muitos segundos com o tema no horário eleitoral gratuito.

O cruzamento da pesquisa de ontem da ACSP com esse trabalho da Firjan mostra que os brasileiros não abrem mão, nos próximos quatro anos, de que se estabeleça uma política fiscal mais justa. Ou o próximo governo oferece mais retorno em saúde, educação, transporte e segurança o que seria o mais desejável ou, pelo menos, reduz a irritação dos contribuintes fazendo o mesmo com a carga de impostos.

 




 

Areia nos olhos do público

 

A Receita Federal é um curioso organismo. Trata com implacável rigor o contribuinte, tido por definição como um sonegador em potencial a quem incumbe provar, obedecendo a exigências não raro bizantinas, que está com a sua vida fiscal em ordem. Ao mesmo tempo, para se autoconceder um atestado de inocência política, não se vexa de alegar que o vazamento das declarações de renda de pessoas ligadas ao candidato presidencial do PSDB, José Serra, se explicaria pelos indícios de existência de "um balcão de compra e venda de dados sigilosos", na delegacia do Fisco em Mauá, na Grande São Paulo, com vítimas a granel.

As palavras são do corregedor-geral do órgão, Antônio Carlos D"Ávila. Ele ecoou a posição do secretário da Receita, Otacílio Cartaxo, que disse não acreditar que tenha havido "fins específicos de natureza político-partidária" na devassa dos dados dos companheiros, amigos e familiares do ex-governador Serra, em outubro do ano passado. Tanto assim que, na mesma época e na mesma repartição, 140 outros contribuintes, entre eles os donos das Casas Bahia e a apresentadora de TV Ana Maria Braga, também tiveram os seus registros vasculhados em 320 acessos - dos quais 206 nos computadores de apenas duas servidoras. Destes, 151 não se justificariam.

Para jogar areia nos olhos do público e desmoralizar a denúncia de que Serra foi alvo de uma torpeza com intuitos eleitorais - numa repetição do golpe dos aloprados de 2006, que também o visava -, a cúpula da Receita preferiu se expor à desmoralização, ao mostrar como são porosas as barreiras do outro lado dos seus ávidos guichês que deveriam proteger a privacidade dos cidadãos da bisbilhotice dos próprios servidores públicos. Acionados a toque de caixa pelo governo, inquieto com a frouxidão das suas reações ao escândalo, os hierarcas do Fisco subitamente encontram a verdade que, na versão anterior, demandaria exaustiva investigação.

Essa história se desenrola há três meses. Em maio, a revista Veja informou que operadores da candidatura Dilma Rousseff tratavam de montar um dossiê com evidências comprometedoras para o seu adversário. A notícia custou a cabeça do jornalista que cuidava da assessoria de imprensa da campanha petista - y de otras cositas más. Em julho, o jornal Folha de S.Paulo revelou que um setor da equipe de Dilma estava de posse de cópias de declarações de renda do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge Caldas Pereira. Na semana passada, enfim, o Estado adiantou que, segundo apurou a Corregedoria-Geral da Receita, foi também violado o sigilo de outros serristas.

Salta aos olhos a quem o golpe sujo poderia interessar. A alegação da Receita, que menciona o comércio de informações confidenciais com "pagamento de propina", em nada altera a substância dos fatos. Os dados passíveis eventualmente de servir de munição à campanha da candidata do presidente Lula podem ter sido oferecidos ou procurados, contra pagamento ou de favor. Em qualquer das hipóteses, a mercadoria chegou ao destino. O acesso a declarações de renda de terceiros - de muitos terceiros, a julgar pelo material clandestino que se vende em plena rua - é uma história à parte. Não tem que ver com a disputa pela Presidência da República.

O que estarrece na série de ilícitos com essa ou aquela intenção é a facilidade com que podem ser cometidos nas tumultuadas entranhas do Fisco. Reportagem publicada domingo neste jornal, com base em depoimentos de analistas tributários e servidores ouvidos no inquérito sobre a violação dos dados do tucano Eduardo Jorge, mostra como senhas individuais de acesso ao acervo de declarações armazenadas em computador passavam de mão em mão e ficavam anotadas em agendas ao alcance de todos quantos passassem pelas mesas dos colegas.

"A segurança dos arquivos da Receita é como queijo suíço, com buraco para tudo", resume o advogado de uma das funcionárias investigadas.

Se, causado por isso ou propiciado por isso, se formou no Fisco "um balcão de compra e venda de dados sigilosos", é de perguntar o que o seu titular, Otacílio Cartaxo, espera para se demitir. Só não é preciso perguntar por que o presidente Lula ainda não mandou demiti-lo.

 

 

Desordem pandêmica

Mario Cesar Flores

 

A confusão entre licenciosidade e liberdade, inerente ao caráter coletivo brasileiro, estende-se da má educação nos costumes à pusilanimidade com o irregular, à prática pandêmica do ilícito. Mais ainda porque o poder público claudica na contenção do delito, quando não o pratica.

Esta é a realidade: nossos vários estratos sociais tendem ao desrespeito à lei nos níveis à sua conveniência ou visão da vida e de acordo com sua sensação de impunidade. Exemplo simbólico: em arrastão no Rio, um motorista de classe média declarou que "os bandidos se aproveitam que temos de reduzir a velocidade porque aqui há radar"... Ou seja, para ele, arrastão é crime e seus autores são bandidos, já o excesso de velocidade só seria delito e ele, infrator porque há o radar. O elenco da orgia vem crescendo "democraticamente", sem discriminação de classe, idade, raça, sexo e religião, das elites ao povo destituído, da adolescência inimputável à provecta idade, do delito vulgar (estacionar na calçada, não usar a faixa de pedestre...) à violência e criminalidade urbana, à desordem rural, à sonegação de impostos e, emblematicamente nefasta, à venalidade na vida pública.

No cotidiano da mídia, que vem banalizando o irregular: assassinatos, assaltos, invasões, saques, arrastões, vandalismo (até no Congresso Nacional, alvo de vandalismo cujo líder transita com desembaraço no poder público), roubos, bloqueios, sequestros, tomada de reféns, agressão ambiental, drogas, pirataria, aberração sexual, ataques à polícia (ao invés de medo da polícia...), improbidade no mundo político e no serviço público, e por aí vai. A violência exacerbada manifesta-se em grupos criminosos do tipo PCC e CV (cujas "guerras" territoriais se assemelham às dos gângsteres de Chicago nos 1930) e alguns delitos são praticados com aspectos (como foi a agressão ao Congresso) similares aos das SA nazistas, que se valiam da tolerância do regime de Weimar.

A leniência com o desrespeito à lei é bem refletida neste fato: há quem aceite, no poder público e na sociedade, ser tolerável - ou até correto - que centenas de "sem-terra", com seus inocentes instrumentos letais de trabalho (foices, machados e facões), ameacem empregados de fazenda invadida e a vandalizem, mas veja como violência a defesa contra a ameaça. No clima atual de complacência e até concordância com o delito, Lampião provavelmente seria visto como paladino da justiça social rural...! Em evento de reintegração de posse, um líder do MST declarou: "Estão criminalizando os movimentos sociais." Errado: criminalizam-se seus métodos delituosos, e não os movimentos sociais, que, de fato, não têm inspiração criminosa (na acepção rigorosa do termo), mas desafiam a ordem do Estado de Direito. Todos rejeitamos hoje a frase "a questão social é caso de polícia", atribuída a Washington Luís, mas essa rejeição não significa admitir o delito, em vez do Estado de Direito, como a solução de problemas sociais.

A miséria, a exclusão e o correlato vácuo mental alienante, agravados por expectativas induzidas pela propaganda paranoica não acompanhada pela capacidade de satisfazê-las, são por vezes apontados como a razão da violência e da criminalidade. Elas realmente as estimulam, há que reduzi-las e criar expectativas positivas, mas a ilegalidade deve ser tratada pelo que ela é. Ademais, miséria e exclusão não são causas deterministas, tanto assim que a maioria do povo pobre não vive fora da lei, é comumente vítima dos fora da lei. Tampouco explicam boa parte da permissividade vigente: muitos delitos, do desrespeito às regras do trânsito à criminalidade cibernética e à corrupção pública, são cometidos por pessoas que nem de longe nelas se enquadram.

Já é perigosa rotina a indiferença pelo anormal no comportamento societário, no qual se insere o descomprometimento com valores como casamento e família, profissão, emprego, carreira, trabalho e estudo. Já é usual ver como "caretice" respeitar a lei na rotina do cotidiano (respeitar o sinal vermelho...) e ser aceito como permitido o que não é ostensivamente reprimido (limite de velocidade só vale onde há radar ou é compulsado por quebra-molas...). O irregular é diluído no cadinho da leniência, condenado ao esquecimento e logo sucedido por espetáculo novo. Nos noticiários sensacionalistas de rádio e TV é comum o predomínio dos delitos e alguns lhes são quase inteiramente dedicados, com nuanças deprimentes, como é a indisfarçável frustração do apresentador quando os fatos não resultam graves: o dramático dá audiência, o trivial não tem apelo.

É comum nesses noticiários a sensacionalização dos erros da polícia. Erros do nosso sistema policial, de fato, ocorrem com frequência, do âmbito tático (preparo profissional e equipamento) ao moral, quando não até criminoso, mas é ilógico seu vilipêndio sistemático. As balas perdidas são a priori atribuídas aos policiais (os bandidos atirariam com mais precisão, ou talvez porque eles não pagam indenizações, já o Estado está sujeito a pagá-las...). Simbólico desse ânimo coletivo: sepultamento de bandido é atendido por grande número de simpatizantes levados ao cemitério por transporte organizado - quem o paga...? -, já o de policial morto no confronto, apenas pela família e representação da corporação.

A democracia pressupõe a liberdade dentro da lei. Ou ocorre a contenção da metástase generalizada da desordem, violência e criminalidade ou, mais dia menos dia, a saturação da conformidade será atingida nos menos propensos à permissividade (que existem em grau variável em função de suas concepções sobre o certo e o errado, comumente ajustadas às conveniências de sua vida...) e com ela o aumento da sedução da aceitabilidade do componente autoritário do poder, como alternativa à esbórnia. Mais dia, menos dia, a licenciosidade acaba prejudicando a liberdade.

ALMIRANTE DE ESQUADRA (REFORMADO)


 




 

Campanha terá Lula e Dilma juntos uma vez a cada 4 dias

Roteiro prevê ao menos mais dez comícios da dupla até o final do 1º turno

Ação segue a estratégia de colar a imagem da petista à do presidente; "Não é muito, é o ideal", diz José Eduardo Dutra

 

DE BRASÍLIA

O roteiro eleitoral traçado pela campanha de Dilma Rousseff (PT) para a reta final das eleições prevê ao menos mais dez comícios da candidata ao lado do presidente Lula a partir de amanhã.

Com 11 eventos cumpridos desde o início oficial da campanha, em julho, a dupla Lula-Dilma chegará às urnas com uma média de 1 ato público conjunto a cada 4 dias.

Essas ações seguem a estratégia, explorada à exaustão na TV e no rádio, de colar a imagem de Lula -cujo governo atinge aprovação de 79%- à da sua candidata.

O último evento está previsto para ser realizado na praça da Sé, centro de São Paulo, por volta do dia 28, já que os dois últimos dias possíveis para realização de comícios, 29 e 30, serão reservados à preparação para o debate na TV Globo, marcado para a noite do dia 30.

Após dividirem palanque em Campo Grande, Salvador e Recife na semana passada, Lula e Dilma devem repetir a dose nesta semana no Paraná e no Rio Grande do Sul.

Até 3 de outubro, estão agendados ainda comícios em São Paulo (além do da praça da Sé), em Minas, no Rio, em Santa Catarina, no Ceará e em outro Estado do Nordeste ainda a ser definido -possivelmente Sergipe.

Dilma visitará também um Estado no Norte -provavelmente o Pará-, região em que ainda não colocou os pés nesta campanha. Lula ainda não confirmou presença nesse evento, entretanto.

O volume de atos públicos entre Dilma e Lula foi turbinado após o início da propaganda na TV, no último dia 17. Até então, os dois haviam participado de cinco eventos, em um período de 45 dias.

Depois, já fizeram seis comícios em duas semanas, com previsão de pelo menos mais dez em setembro. As imagens dos encontros estão sendo exploradas nos programas de TV da petista.

"Esse volume não é muito, é o ideal. E é cada um em um lugar diferente. Nesta semana, por exemplo, está previsto Paraná e Canoas (RS). O Brasil é muito grande", diz o presidente nacional do PT, José Eduardo Dutra.

Juntando o roteiro já cumprido com o previsto pela campanha, Dilma e Lula priorizarão o Sudeste, com 11 atos públicos conjuntos, e o Sul (6), regiões que apontam as menores distância entre a petista e José Serra (PSDB), segundo a última pesquisa Datafolha -12 e 7 pontos percentuais, respectivamente.

O principal Estado visitado pelos dois é São Paulo, onde só na última pesquisa apresentou vantagem para Dilma, de cinco pontos.

Os gastos de Lula para participar dos eventos ao lado de Dilma têm que ser ressarcidos pelo PT. Só a participação do presidente no primeiro comício, na Cinelândia (RJ), resultou em um reembolso aos cofres públicos de R$ 58,5 mil. (MÁRCIO FALCÃO, RANIER BRAGON e SIMONE IGLESIAS)

 

 

Por um ensino melhor

É louvável a iniciativa de entidades sociais de propor que candidatos assumam compromissos públicos com a educação antes da eleição

Duas dezenas de organizações lançam hoje em Brasília a "Carta-Compromisso pela Garantia do Direito à Educação de Qualidade", que pretendem ver adotada por candidatos aos Poderes Executivo e Legislativo. Trata-se de um passo adiante na crescente tomada de consciência da esfera pública quanto ao papel estratégico do ensino. Ela já levou à formação do movimento Todos pela Educação, articulador da carta, que logrou conferir ao tema uma prioridade perto de consensual.

O documento repete a fórmula bem-sucedida de vincular prioridades gerais com metas concretas, passíveis de acompanhamento e verificação. Entre os objetivos específicos estão alfabetizar todas as crianças até oito anos de idade antes de 2014, incluir todos os jovens e crianças de 4 a 17 anos na escola até 2016 e cobrir toda a demanda por vagas em creches até 2020. São propostas factíveis, mas nem por isso triviais.

Além das metas relativas ao ensino, fixa-se o objetivo mais geral de elevar a fatia do PIB investida no setor a 10%, dos quais 8% para a educação básica e 2% para a superior. Já houve melhora: a educação básica recebe hoje cerca de 5% do PIB, contra 3,7% em 2006.

Embora desejável, o aumento de verbas precisa ser contextualizado. Parece improvável que candidatos se comprometam previamente com metas de elevação de investimentos no ensino sem levar em conta demandas de outras áreas, como a de saúde.

Além disso, o acréscimo de recursos precisa estar vinculado a objetivos determinados e ao aperfeiçoamento da gestão, sob pena de desperdício.

Outros objetivos da propostas também suscitam reserva, pois os meios de alcançá-los não se mostram tão consensuais quanto poderia parecer. Além da parcela do PIB, são eles: valorização dos profissionais da educação, gestão democrática das escolas e aperfeiçoamento das políticas de avaliação e regulação.

Ora, são bem conhecidas as divergências de fundo ideológico a respeito dos três pontos que separam gestões do PT e do PSDB em todos os níveis de governo. As políticas tucanas de premiação por mérito para educadores, por exemplo, são malvistas nos círculos sindicais petistas.

Tampouco parece corriqueiro, no campo dos conflitos reais, chegar a acordo sobre o que seja uma gestão democrática, que não resulte em aparelhamento da escola por grupos partidários. Ou, então, sobre que consequências dar para resultados de avaliação.

À parte essas discordâncias, não resta dúvida de que cabe pôr em prática de uma vez por todas o piso salarial nacional para docentes de R$ 1.024,67 (inferior até à renda média do país, R$ 1.117,95), ainda ignorado em alguns Estados. Para esses casos, uma Lei de Responsabilidade Educacional não seria má ideia.

Todos os candidatos deveriam subscrever o compromisso, ainda que fazendo as ressalvas cabíveis no que respeita à aplicabilidade e explicitando que interpretação dariam aos princípios sujeitos a controvérsia. Se a campanha eleitoral seguisse esse figurino, o público não estaria presenciando o festival de inanidades marqueteiras que assola o país.

 

 

TENDÊNCIAS/DEBATES

Trem de alta velocidade e empresa nacional

ÁLVARO RODRIGUES DOS SANTOS

 

Está programada para novembro a divulgação do edital de licitação para projeto e obras do Trem de Alta Velocidade (TAV), que fará a ligação entre as cidades e aeroportos do Rio de Janeiro, São Paulo e Campinas, também atendendo algumas poucas paradas intermediárias.

Do ponto de vista tecnológico, em seus mais variados aspectos, será uma obra fantástica, tanto pela performance programada (velocidades superiores a 300 km/ h, condições de segurança absoluta, comodidade competitiva com a do avião) como pelas diversificadas e problemáticas características geológicas, geotécnicas e ambientais presentes ao longo de seu traçado.

Do ponto de vista financeiro, com valor estimado em mais de 30 bilhões de reais, é um dos empreendimentos hoje mais atraentes no âmbito internacional.

Declarações oficiais dão conta de que cuidados especiais serão tomados para que se garanta a absorção pelo país das tecnologias que serão aplicadas na implantação do empreendimento.

No entanto, é justamente nesse específico aspecto tecnológico que os interesses estratégicos maiores do país podem ser preteridos.

Se, na superestrutura viária do TAV (equipamentos, componentes e sistemas operacionais), teremos a oportunidade de absorver novas tecnologias, na implantação da infraestrutura somos nós que temos muito, ou tudo, a oferecer.

Ao longo do eixo Rio-Campinas, o traçado do TAV atravessa singulares e sensíveis domínios geológicos com complexos comportamentos geotécnicos: baía de Guanabara, Baixada Fluminense, serra do Mar, bacia sedimentar de Taubaté (Vale do Paraíba), bacia sedimentar de São Paulo, mar de morros cristalinos dos trechos de planalto.

Sobre todos esses domínios geológicos a engenharia brasileira, com o suporte da engenharia geotécnica e da geologia de engenharia nacionais, implantou nas últimas décadas um expressivo número de grandes obras viárias.

Como exemplo, podemos citar a ponte Rio-Niterói, o metrô no Rio e em São Paulo, as rodovias dos Bandeirantes, dos Imigrantes, Ayrton Senna e Carvalho Pinto e o Rodoanel de São Paulo, entre vários outros destacados empreendimentos.

Todas essas obras contaram com a aplicação do vasto know-how brasileiro acumulado, assim como, elas próprias, permitiram avançar ainda mais a excelência desse know-how, condição essencial para a mais correta definição das concepções de projeto e da tipologia de soluções de engenharia capazes de assegurar para o TAV o elevado nível de segurança geotécnica exigido por esse empreendimento.

Ou seja, não se trata apenas de proporcionar procedimentos de absorção tecnológica; trata-se de, estrategicamente, garantir a aplicação efetiva de tecnologia nacional já dominada. E essa aplicação só será possível via real participação em projeto e obra da empresa nacional e das instituições nacionais de pesquisa tecnológica.

ÁLVARO RODRIGUES DOS SANTOS, geólogo, é consultor em geologia de engenharia, geotecnia e meio ambiente. Foi diretor de Planejamento e Gestão do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) e diretor da Divisão de Geologia. É autor, entre outras obras, de "Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática".

 

 

COREIA DO NORTE

OBAMA AMPLIA SANÇÕES PARA PYONGYANG

 

Obama expandiu as sanções à Coreia do Norte, conforme havia dito Hillary Clinton em visita à Coreia do Sul em julho. Empresas e indivíduos terão seus bens congelados. O anúncio incluiu quatro pessoas, três empresas e cinco agências do governo.

 

 

México demite 3.200 policiais federais

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

 

O governo do México anunciou ontem que o país já demitiu aproximadamente 10% dos policiais federais, ou 3.200 homens, num esforço para acabar com a corrupção que dificulta o combate aos grupos de narcotráfico.

As demissões foram atribuídas à reprovação em exames de "controle de confiança", disse o comissário da polícia Facundo Rosas. Segundo ele, 465 agentes foram alvos de denúncias.

Os cerca de 35 mil membros da Polícia Federal são obrigados a passar periodicamente por detector de mentira, a fazer testes antidrogas e a responder a questionários sobre finanças e vida pessoal.

A Polícia Federal é uma das frentes do combate ao crime organizado iniciado pelo presidente Felipe Calderón em dezembro de 2006.

Além de civis, cerca de 50 mil militares participam da luta contra o narcotráfico.

Em 2008, Calderón anunciou a intenção de substituir a Polícia Federal por outra instituição, plano que parece descartado diante de esforços para reconstruir o órgão.

O anúncio ocorreu no mesmo dia da prisão do narcotraficante Edgar Valdez Villareal, o "La Barbie", um dos criminosos mais procurados no país e que supostamente lideraria uma das duas facções que lutam pelo controle do cartel de Beltran Levya.

Nos EUA, ele foi indiciado por distribuir toneladas de cocaína entre 2004 e 2006.


 

 



 


 

Elas carregam o país nas costas

Micro e pequenas empresas somam 99% dos 5,8 milhões de negócios registrados no país e respondem por 52% das vagas formais do mercado de trabalho. Só no Distrito Federal, onde há 81,5 mil empreendimentos de menor porte, são 100 mil empregos

GUSTAVO HENRIQUE BRAGA

 

Remando contra uma maré de elevados encargos trabalhistas, excesso de burocracia e legislação defasada, os micro e pequenos empresários brasileiros mantêmse como os principais geradores de empregos formais no país. A mais recente radiografia do setor mapeou que, das cerca de 5,8 milhões de empresas registradas de todos os portes, 99% são micro ou pequenas. Só no Distrito Federal, são 81,5 mil empreendimentos dentro dessas classificações. As menores são responsáveis pela geração de 13 milhões de postos com carteira assinada, ou 52% das vagas formais no país, 100 mil delas na capital federal. Quase dois terços dos empreendimentos (64%), entretanto, são de companhias formadas por uma única pessoa.

 

Os números são do Anuário do Trabalho nas Micro e Pequenas Empresas, que será divulgado hoje pelo Serviço de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae), e mostram ainda que 53% delas atuam no comércio, 32,2% no setor de serviços, 11% na indústria de transformação e 3,8% na construção. Estima-se, contudo, que a representatividade dos pequenos empreendedores na economia formal, atualmente, seja ainda maior. O motivo é que os números mais recentes são de 2008, anteriores a programas como Empreendedor Individual (EI) que, em um ano de vigência, trouxe aproximadamente 404 mil empresários para a formalidade.

A presidente da Associação dos Jovens Empreendedores (AJE-DF), Tatiana Moura, reconhece os avanços recentes tanto do EIcomodo Simples programa que facilita o pagamento de impostos para as pequenas companhias , mas considera que ainda há muito a fazer. A situação melhorou, mas enquanto não houver redução dos encargos trabalhistas nem aumento dos investimentos em educação e formação profissional, os empresários continuarão trabalhando no limiar da capacidade da sobrevivência, critica.

Conta própria A expectativa do Sebrae é a de que o trabalho nas micro empresas vive uma tendência de crescimento, que poderá ser melhor detectada a partir dos próximos anuários, onde estarão mapeados os dados do Empreendedor Individual, cuja meta é alcançar 1 milhão de formalizações até o fim do ano. Os dados de 2008 apontam a existência de 3,7 milhões de empresas formadas por uma única pessoa.O número engloba uma ampla variedade de categorias, tais como taxistas, cabeleireiras e vendedores, entre outros, exatamente os beneficiados pelo EI.

Rafael Lima, 27 anos, e Fábio Veloso, 26, amigos desde os tempos da faculdade, decidiram montar o próprio negócio. A falta de simpatia pelo trabalho como empregados motivou ambos a se juntarem a mais um colega para abrir um negócio por conta própria.

Investiram em uma farmácia que tem como diferencial a venda pela internet. Nosso modelo de negócios faz da loja um ponto de distribuição. O espaço físico agrega valor e credibilidade na hora das vendas on-line. O consumidor tem uma referência, comenta Lima. A microempresa está aberta há quatro meses e tem oito empregados, todos com carteira assinada.

O gerente da drogaria, Márcio Canto, 40 anos, mora no DF há 12 e sempre trabalhou no setor de saúde. Ele fez o curso de formação técnica em saúde humana semelhante ao de enfermagem no Rio Grande do Sul e, na opinião do profissional, as experiências de estagiar em um hospital e ser vendedor de outras drogarias fizeram a diferença na hora da contratação. A loja só tem quatro meses e ganho até três salários mínimos.Mas fiz um acordo com os donos para que, na medida que a empresa crescer, meu salário também aumente. O diretor-técnico do Sebrae, Carlos Alberto dos Santos, avalia que a evolução do número de empregos nas empresas está diretamente relacionado com os movimentos macroeconômicos de crescimento da produção nacional.

Com a economia crescendo, os pequenos empreendedores se tornaram um elemento central para a geração de postos de trabalho no país., observa.

Carteira assinada Já Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) parceiro no levantamento do Sebrae , defende que os resultados atestam a urgência de se desenvolver políticas voltadas para os pequenos empresários.

Aproveitando a onda da carteira assinada nas pequenas empresas, Marcelo Rocha, 30 anos, largou a condição de autônomo no ano passado, quando recebeu uma proposta do microempresário João Carlos Ramos, dono de um gráfica, para trabalhar no ramo de comunicação visual. Ele assumiu o setor de criação e, com uma escolaridade que inclui os cursos técnicos de designer gráfico, web designer e programador, alcançou um salário de R$ 2,5 mil. Marcelo é auxiliado por Tiago Faria, 18 anos, que pretende seguir os passos do chefe.Tiago está no segundo emprego e tem planos para conseguir um salário melhor.

 

Mapa virtual

 O Sebrae lançará hoje o MPEData (www.mpedata.com.br), um ambiente na internet que reúne dados de diversos fontes, entre elas um anuário também divulgado hoje, sobre as micro e pequenas empresas brasileiras.

Trata-se de uma base de informações elaborada para facilitar a busca de números dos pequenos negócios no país. O lançamento será às 11 horas na Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio (CNTC), localizado na 902 Sul, Bloco C, Auditório, 1º andar. O site oferecerá informações dos indicadores mais demandados, como taxa de sobrevivência das companhias, número das exportadoras, das optantes pelo Simples, dos empreendimentos informais e dos empreendedores individuais formalizados.

Classificados nacionalmente por região ou por estado, os indicadores serão atualizados a cada 15 dias e poderão ser exportados em planilhas de Excel ou em arquivos PDF.

 

 

Aeronáutica oferece 369 vagas

Número de oportunidades cresce com as 205 chances para sargentos, com salário de R$ 2,6 mil. Remuneração máxima chega a 4,5 mil

Cristiane Bonfanti

 

A Aeronáutica lançou ontem seleção pública com oferta de 205 vagas no Curso de Formação de Sargentos de 2011. As chances exigem nível médio completo e podem ser disputadas por candidatos do sexo masculino ou feminino. Os aprovados farão a capacitação, com duração de dois anos, em Guaratinguetá (SP). O militar que concluir o curso com aproveitamento será promovido a terceiro-sargento, com remuneração inicial de R$ 2,6 mil. Com o lançamento do edital para o Curso de Formação de Sargentos, chega a 369 o número de vagas abertas pela Aeronáutica.

Do total de oportunidades, 96 são na área de controle de tráfego aéreo — serviço prestado por profissionais, em terra, que orientam e monitoram os aviões para garantir um fluxo de tráfego seguro. Entre as atribuições do cargo está a emissão de autorizações aos pilotos, com instruções sobre o espaço aéreo, para prevenção de colisões entre aeronaves e entre elas e obstáculos nas proximidades dos aeroportos. Também há chances para as áreas de eletricidade e instrumentos, equipamento de voo, meteorologia, suprimento, mecânica de aeronaves, estrutura e pintura e comunicações, entre outras. Os interessados podem se cadastrar entre 9 de setembro e 5 de outubro pela internet, por meio das páginas www.fab.mil.br e www.eear.aer.mil.br. A taxa de participação custa R$ 50.

Os candidatos farão as etapas de exame de escolaridade, inspeção de saúde, exame de aptidão psicológica e teste físico. Marcada para 5 de dezembro, a primeira fase será realizada no Distrito Federal e em 13 estados: Pará, Pernambuco, Ceará, Bahia, Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul, Paraná, Amazonas, Rondônia e Roraima.

 

Temporários

Para o exame de admissão ao Estágio de Instrução e Adaptação de Capelães, são oferecidas quatro oportunidades. Dessas, três são para sacerdotes católicos e uma para pastor evangélico. Para participar é necessário ser brasileiro nato, do sexo masculino, com no mínimo 30 e no máximo 40 anos de idade até 31 de dezembro de 2011. Além disso, é preciso ter formação de nível superior em teologia. No ato da matrícula, o candidato será declarado aspirante a oficial. Após a formação, uma vez aprovado, o aluno será nomeado segundo-tenente, com salário de R$ 4,5 mil.

Para o Estágio de Adaptação de Oficiais Temporários, a corporação oferece 160 vagas. Para participar, é necessário ser brasileiro nato, ter até 43 anos de idade até 31 de dezembro de 2011 e possuir diploma de graduação na área disputada. As chances são para profissionais formados em administração, análise de sistemas, arquitetura, arquivologia, serviço social, biblioteconomia, ciências contábeis, economia, educação física, enfermagem, estatística, fisioterapia, fonoaudiologia, língua inglesa, nutrição, pedagogia, psicologia educacional e psicologia clínica, entre outras.

O estágio de adaptação para os cargos de capelão e de oficial temporário terá duração de 13 semanas e será realizado em Belo Horizonte (MG). Os interessados podem se cadastrar até 23 de setembro por meio do site www.ciaar.com.br. A taxa de inscrição é de R$ 100.

 

Fique atento

Curso de Formação de Sargentos da Aeronáutica (2/2011)

 

Vagas: 205 (nível médio)

Salário: R$ 2,6 mil

Inscrição: de 9 de setembro a 5 de outubro

Taxa: R$ 50

Data da prova: 5 de dezembro

Endereço: www.fab.mil.br e www.eear.aer.mil.br

 

Estágio de Instrução e Adaptação de Capelães

Vagas: 4 (nível superior)

Salário: R$ 4,5 mil

Inscrições: até 23 de setembro

Taxa: R$ 100

Data da prova: 28 de novembro

Endereço: www.ciaar.com.br

 

Estágio de Adaptação de Oficiais Temporários

Vagas: 160 (nível superior)

Salário: R$ 4,5 mil

Inscrições: até 23 de setembro

Taxa: R$ 100

Data da prova: 28 de novembro

Endereço: www.ciaar.com.br

 

 

Nas Entrelinhas

Alon Feuerwerker

Dualidade de poder

 

No comecinho do governo Luiz Inácio Lula da Silva prevaleceu a ideia de não trazer organicamente o PMDB para o governo. A sustentação política seria obtida com uma maioria não esmagadora no Congresso, combinada ao diálogo com a oposição em torno de uma agenda comum. Da conversa de Lula com os governadores nasceram as propostas de reforma previdenciária e tributária.

Ambas deram conta do recado no primeiro ano de governo, mas a tática esgotou-se ali mesmo, na largada.A Previdência Social desencadeou uma guerra no Congresso e o projeto de um governo de minoria se revelaria fonte de inúmeras dores de cabeça, desembocando na grande crise de 2005. Essa curva de aprendizado o PT já percorreu, tanto que está hoje firmemente agarrado ao PMDB.

Por isso o bom senso e a prudência recomendam algum ceticismo em relação à proposta da mão estendida, ensaiada por Dilma Rousseff. Se eleita, Dilma terá tantas chances de obter um governo de conciliação quanto vai ter José Serra, caso vença.

Pela mesma razão que a estratégia de 2003 deu com os burros n\"água. Só é possível a união nacional em torno do governo quando a oposição abre mão de seu próprio projeto de poder.

Isso pode acontecer em duas circunstâncias. Quando a oposição não se organiza em torno de um único centro ou quando fica extremamente fragilizada. E o segundo quadro costuma resultar no primeiro.

Se, por hipótese, Lula conseguisse emplacar vitórias do PT e do PMDB em São Paulo e Minas Gerais transformaria o PSDB num ator político pouco relevante, o que facilitaria o trabalho de Dilma no Planalto.Mas o petismo começa a emitir outro tipo de sinal.De que um PMDB excessivamente forte tampouco interessa.

Assim, o tom beligerante em último grau deverá, caso as tendências se confirmem,ser substituído por apelos à razão e ao patriotismo da oposição. É do jogo, mas também é divertido de olhar.

É interessante também porque replica algo da estratégia tucana dos anos 1990. Posicionar-se firmemente no centro, podendo aliar-se de um lado ou de outro, conforme a necessidade.O que atrapalhava um pouco o PSDB era o PT/Lula ter projeto de poder. Agora com os tucanos no papel de desafiantes, é o que tem atrapalhado o PT e deixado o partido de Lula mais dependente do PMDB do que seria saudável.

No governo, o PSDB enfrentava o mesmo desconforto com o PFL (hoje DEM).

O leitor já reparou que trato aqui de uma quadro partidário complexo, com ampla variação de alianças possíveis, para todos os gostos.

O que afasta um pouco o temor da tal mexicanização. Aliás, sempre que um partido se fortalece em Brasília e ameaça estender sua hegemonia pelo país o assunto volta.Aconteceu com a Arenaem1970, com oPMDBem1986 e com o PSDBem1994.

O risco de um único partido tomar conta da política no Brasil é residual. O gigante que ameaça nascer do sucesso de público (de crítica, nem tanto) da administração Lula não é o PT, mas o PMDB. Talvez esteja também aí um motivo para Lula falar seguidamente em liderar um bloco político a partir de 2011, reunindo o PT às pequenas e médias siglas de esquerda. E aí vai uma boa razão para Dilma amaciar um pouco para a oposição.

Como o governismo acredita que já ganhou a eleição, faz sentido.

O desfecho mais provável dos oito anos de Lula será um tabuleiro com várias peças expressivas, não uma. Se eleita, mesmo a caloura Dilma não cometerá o erro de imaginar que poderá escantear o peemedebismo ou flertar com a oposição a custo zero. O veterano PMDB terá maneiras, convincentes, de manifestar seu desagrado.

É para isso que talvez Lula esteja a se preparar, quando rascunha seu projeto de líder popular no comando de uma frente partidária e sindical à margem do governo. É ainda obscuro o que o presidente realmente planeja, mas trata-se de um embrião de poder dual.

Percebeu O PSDB parece ter percebido que deixar o candidato presidencial à deriva pode implicar desastres nas guerras estaduais.

Desta vez, o tradicional cada um por si teria boa chance de levar todos ao naufrágio.

O risco de um único partido tomar conta da política no Brasil é residual. O gigante que ameaça nascer da gestão Lula não é o PT, mas o PMDB.

Talvez esteja aí um motivo para Lula falar seguidamente em liderar um bloco político a partir de 2011

 

 

Em ritmo acelerado

» IGOR SILVEIRA

 

Borá, cidade a 520km de São Paulo, tinha, em junho de 2006, 834 eleitores.

Com o fim da coleta de dados para o Censo 2010o município foi o primeiro do Brasil a ter todos os domicílios recenseados , constatou-se que o número de moradores contabilizados805é ainda menor que o de cidadãos que deverão comparecer às urnas da localidade em outubro próximo.

O segundo balanço desta edição da pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foi divulgado ontem, no Rio de Janeiro, e revelou que 48% dos brasileiros foram recenseados em um mês de visitas dos funcionários.

A porcentagem equivale a cerca de 92,7 milhões de pessoas.

Das informações levantadas até agora, uma chamou a atenção dos especialistas: a redução da média de moradores por casa, que passou de 3,79 em 2000 para 3,37 em 2010.

O balanço mostrou, ainda, que dos 36,7 milhões de residências visitadas, os funcionários do IBGE conseguiram fazer as entrevistas em 27,5 milhões.

Os responsáveis pelo Censo 2010 estão satisfeitos com o andamento da pesquisa. De acordo com o presidente do órgão, Eduardo Pereira Nunes, o ritmo está acima do esperado para o período. A pesquisa foi concluída em outros sete municípios Oliveira de Fátima (TO), Santo Antônio do Rio Abaixo (MG), Lajeado Grande (SC), Arvoredo (SC), Pinheiro Preto (SC), Entre Rios (SC) e Fernando de Noronha (PE).Os bons resultados são creditados ao avanço tecnológico que permitiu que a coleta e o processamento dos dados fossem feitos mais rapidamente.

Mas se segue sem problemas em boa parte das cidades, nos estados de São Paulo, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, por exemplo, a ida dos recenseadores às ruas foi atrasada pela falta de coletes, que não foram entregues na data combinada com os fornecedores.Mesmo com a aposentadoria das fichas de papel, utilizadas até 2000, e a adoção dos computadores de mão, os PDAs (sigla para Personal Digital Assistant), outros obstáculos impedem uma eficiência maior por parte dos funcionários.Muitas vezes, eles são obrigados a retornar mais de uma vez aos endereços para realizarem as entrevistas.

O presidente do IBGE não parece tão preocupado com esses gargalos e continua otimista.

 

Segundo ele, houve uma queda na quantidade de domicílios fechados, ou seja, onde há evidência de moradores, mas que não estão no local naquele momento. Há duas semanas, quando divulgamos o primeiro balanço do Censo 2010, esses domicílios representavam 15% do total. Agora, são 10%. Fechamos, neste momento, um terço do período de tempo de trabalho e já recenseamos 48% da população, ressalta Nunes.

Tempo real Até 31 de outubro, quando a coleta de dados será concluída, os brasileiros poderão acompanhar, em tempo real, as atualizações do Censo 2010 pela internet.

No endereço eletrônico www.censo2010.ibge.gov.br/resultados, o usuário tem acesso aos números correspondentes à população e aos domicílios recenseados nos 5.565 municípios em território nacional.

O objetivo do IBGE é divulgar o número total de brasileiros, atualizado, em 27 de novembro.

O restante das informações estarão disponíveis somente no próximo ano.

No Distrito Federal, o ritmo do Censo acompanha o registrado nacionalmente. Em Brasília e nas regiões administrativas, 48,4% da população foi recenseada até ontem. O banco de dados registra, até o momento, cerca de 1,27 milhões de pessoas na região. Os dois estados mais próximos de finalizarem as coletas de dados são Rondônia, com 64,27% de recenseados, e Paraíba, com 61,76% de moradores entrevistados.

No Acre, pela dificuldade de acesso a determinados locais, há o menor número de cidadãos visitados, somente 35,8%. Em seguida, vem o Rio Grande do Sul, com 40,7%, que começou a coleta mais tarde em relação aos outros estados. Também pela dificuldade de acesso, o Amazonas é o terceiro estado menos recenseado, com 42,82%.

 

 

Sucessão no PMDB em jogo

Perspectiva de vitória de Dilma abre discussão sobre quem vai substituir Temer no partido. Jobim é o preferido de Lula

Josie Jeronimo

 

Vencido o primeiro passo de dar vida própria à sua criatura política, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem um novo desafio: controlar o apetite do PMDB no próximo ano. Se a vitória da candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, se confirmar, o vice Michel Temer (PMDB) deve renunciar ao cargo de presidente do partido, abrindo espaço para um sucessor. Lula gostaria de ter um aliado de confiança no comando do PMDB para conter a sanha por cargos e espaço em um eventual futuro governo Dilma. O ministro da Defesa, Nelson Jobim, é considerado o presidente do PMDB dos sonhos para o petista. Não seria a primeira vez que Lula tenta emplacar seu atual ministro da Defesa no comando do PMDB. Em 2007, o governo encampou o movimento, mas não teve sucesso. Apesar do apoio de Lula à candidatura de Jobim, o ministro carece de aliados no partido para ganhar cacife interno e chegar ao comando da legenda.

Os peemedebistas, no entanto, são unânimes em repelir qualquer tentativa de “intervenção” petista na executiva. Na ausência de Temer, a avaliação é de que o senador Valdir Raupp (PMDB-RO) será o presidente do partido até o início de 2012. “Ninguém vai antecipar a eleição para presidente do partido. Se houvesse uma convenção estatutária, mas a eleição é para outro ano. E Jobim nem é parte da executiva”, resume o ex-ministro e deputado Geddel Vieira Lima (PMDB), que concorre ao governo da Bahia sob a benção de Lula.

O vice de Dilma foi eleito presidente do PMDB em fevereiro deste ano para um mandato de dois anos. O deputado Ibsen Pinheiro (PMDB-RS) diz que é cedo para debater sucessão da presidência do partido, mas afirma que Jobim é um bom nome. “Acho que o Jobim tem todas as qualidades, mas ainda é o primeiro ano da gestão do presidente. Ele (Jobim) é um grande candidato. No primeiro momento, é seguir a sucessão e depois abrir a discussão.”

 

“Honraria”

A “sucessão natural” do cargo, segundo o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), será feita pelo vice. Raupp afirma que se sentirá “honrado” em comandar o partido no primeiro ano de um possível mandato presidencial de Dilma. “Vai ser uma honra muito grande. Já sou presidente regional do partido há mais de oito anos, seria um passo a mais. O cenário é interessante e mais favorável do que foi no governo Lula, tendo em vista que o PMDB não participou desde o início. Agora o PMDB estaria integrado desde o início.” O vice-presidente do PMDB aposta em um crescimento da bancada governista no Senado para garantir governabilidade no primeiro ano. “O cenário vai mudar nessa eleição, a tendência é uma folga maior”, torce Raupp.

O líder do governo na Câmara, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), é cuidadoso ao falar sobre o PMDB. Afirma que o presidente Lula não fará nenhum esforço de “intervenção” para tentar emplacar um presidente mais afinado com o governo no PMDB. Vaccarezza também acrescentou que nunca ouviu de nenhum peemedebista nenhuma discussão sobre a divisão de cargos em um suposto governo de Dilma. “O Michel Temer virou presidente do PMDB quando não estava nem na base”, argumenta Vaccarezza.

O TRE do Distrito Federal informa que não envia e-mail aos eleitores comunicando o cancelamento de título eleitoral


 






 

A outra mulher do Lula

A primeira-dama Marisa Letícia sai da sombra e entra na campanha eleitoral

Leandro Loyola

 

A imagem mais comum da primeira-dama Marisa Letícia é de uma espécie de sombra muda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Desde que Lula chegou ao poder, em 2003, Dona Marisa é onipresente em solenidades, viagens e até reuniões de governo. Sua presença constante ao lado do presidente, no entanto, é inversamente proporcional a sua atuação. Ela sorri com frequência, mas praticamente não se ouve sua voz. Não tem função na administração, nem mesmo simbólica. Em quase oito anos de poder, ela deu raríssimas entrevistas – e nunca sobre política ou governo. Nas duas últimas semanas, no entanto, saiu dos bastidores. A quatro meses de deixar o poder, aos 60 anos, mergulhou na campanha eleitoral. Se Dilma vinha sendo chamada de “mulher do Lula”, a verdadeira mulher do Lula entrou em cena.

Até então, a participação mais notável de Dona Marisa no governo Lula acontecera no início do mandato. Um canteiro de flores vermelhas chamadas sálvias, cortado em forma de estrela do PT, apareceu nos jardins do Palácio da Alvorada, a residência oficial do casal. A assessoria de imprensa do governo explicou que um jardineiro havia sugerido a obra e a primeira-dama teria aceitado.

Nos últimos anos, ela também virou notícia pelas mudanças na aparência. Aos poucos, foi ficando parecida com a ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy. Ambas são loiras, ambas se vestem com apuro e, segundo comentam os esteticistas, ambas parecem adeptas de alterações faciais com Botox. Marta, que é cinco anos mais velha que Dona Marisa, teria influenciado na escolha do cabeleireiro e até de um cirurgião plástico, que teria feito pequenas intervenções no rosto da primeira-dama. Dona Marisa costuma aproveitar os deslocamentos de Brasília a São Paulo para colorir e cortar os cabelos com Wanderley Nunes, um dos cabeleireiros mais badalados de São Paulo. Ele cobra R$ 373 por um corte de cabelo em seu salão da Avenida Brigadeiro Faria Lima, no Jardim Paulistano. Algumas vezes, Nunes vai a Brasília atender a primeira-dama, segundo ela declarou ao jornal O Estado de S. Paulo.

Na semana passada, Dona Marisa acompanhou o marido a um comício ao lado da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff. Chegou às 5 horas da manhã à porta da fábrica da Mercedes-Benz, em São Bernardo do Campo. Com Lula, Dona Marisa pediu votos para Dilma. Um dia depois, ela pediu votos na Favela de Paraisópolis para o candidato do PT ao governo de São Paulo, Aloizio Mercadante. Na porta da fábrica, Dona Marisa conversou com operários. Ao lado de Mercadante, beijou crianças e até fez um curto discurso. “Bom dia, mulherada. Vim aqui pedir voto pro Mercadante, pra Dilma, pra Marta e pro Netinho”, disse. Há duas semanas, telefonou para o candidato do PT ao governo do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, e pediu que ele marcasse alguma atividade de campanha na rua. Com o candidato, ela caminhou pelo centro de Taguatinga, no Distrito Federal. Nesta semana deverá repetir a dose.

Esse tipo de engajamento não é inteiramente novo. Dona Marisa acompanhou Lula nas campanhas presidenciais de 1989, 1994, 1998 e 2002. A situação, porém, mudou radicalmente com a instalação do casal no Alvorada. Em 2006, a primeira-dama já não tomou parte na reeleição. Parecia confortável em sua função cerimonial e silenciosa. Algo, entretanto, aconteceu. Sem que Lula pedisse, sem que um marqueteiro sugerisse, ela resolveu fazer campanha por alguns candidatos. Até onde se sabe, é apenas desejo dela. Como é a mulher de Lula, não obedece a nenhuma coordenação. Ela se acerta direto com os candidatos. Com Dilma, a participação na campanha foi combinada em abril, durante um encontro privado entre as duas.

 

‘‘Bom dia, mulherada. Vim aqui pedir voto pra Dilma’’
MARISA LETÍCIA, primeira-dama

 

As primeiras-damas no Brasil podem ser divididas em duas categorias, de acordo com seu comportamento. Dona Marisa está entre as discretas, ao lado de Marli Sarney e Ruth Cardoso, mulher, respectivamente, de José Sarney (1985-1990) e de Fernando Henrique Cardoso (1995-2003). Nos cinco anos em que Sarney foi presidente, dona Marli apenas cumpriu as formalidades do cargo. A antropóloga Ruth Cardoso era discreta, mas teve um perfil atuante. Participou do governo na coordenação do programa Comunidade Solidária e de vez em quando dava pitacos em assuntos de seu interesse. Nunca frequentou o noticiário em assuntos pessoais.

Mas houve também o time das primeiras-damas espalhafatosas. O exemplo mais vistoso é Rosane Collor, hoje ex-mulher de Fernando Collor de Mello (1990-1992). Naquele período de deslumbramento, Rosane foi notícia pelas roupas berrantes, por um episódio em que Collor apareceu sem a aliança de casamento e por comandar com escândalo de corrupção a Legião Brasileira de Assistência (LBA). Sisudo na aparência e truculento na atuação, o regime militar era leniente com as mulheres de presidente. Iolanda Costa e Silva, mulher do general Arthur da Costa e Silva (1967-1969), e Dulce Figueiredo, mulher do general João Figueiredo (1979-1985), circulavam pela alta sociedade e ostentavam poder.

Sem deixar o time das discretas, Dona Marisa parece estar interessada em passar ao time das influentes. Comenta-se que ela teria sido importante na opção de Lula por Dilma, que não era a favorita no círculo íntimo do presidente. Agora, ingressou na campanha, e não apenas do próprio marido. Será que a presença dela ajuda? Ninguém sabe, mas quem tem coragem de dizer não à mulher do presidente?

 

 

 

Fala, Brasil

 

1 - MARAGOGI (AL)

Um litoral minado desde a Segunda Guerra

Escondidos sob a areia da praia e na área urbana da cidade alagoana de Maragogi, explosivos que foram instalados pela Marinha brasileira para destruir navios inimigos na Segunda Guerra Mundial começam a preocupar a população. Na semana passada, pelo menos cinco minas de grande porte foram encontradas na região. Elas se somam a outra localizada em maio. Na ocasião, a Marinha removeu a bomba e a detonou numa área deserta. A operação foi criticada por ter colocado em risco moradores e turistas. Estilhaços da mina atingiram casas e hotéis a 1 quilômetro de distância. Mesmo sem ter certeza quanto aos riscos de explosão, a prefeitura pretende remover e detonar as minas só depois das eleições de outubro.

 

 

Fala, Mundo

3 - HAITI

O candidato que não foi

O Conselho Eleitoral Provisório (CEP) do Haiti vetou no dia 20 a candidatura do rapper Wyclef Jean às eleições presidenciais, em novembro. Segundo o CEP, Wyclef não comprovou o pré-requisito de residir no país nos cinco anos anteriores ao pleito. Radicado nos EUA desde a infância, Wyclef alegou visitar sua terra natal com frequência. A CEP diz não caber recurso, mas o rapper entrou com uma ação na Corte Interamericana de Direitos Humanos por suposta “violação dos direitos políticos”.

 

4 - CHINA

A queda do avião brasileiro

Um avião modelo E-190, fabricado pela brasileira Embraer, caiu a 1,5 quilômetro da pista do aeroporto chinês de Yichun, já no procedimento de pouso, no dia 24. Testemunhas dizem que havia um forte nevoeiro na hora. O acidente matou 42 das 96 pessoas a bordo – foi o mais grave desastre aéreo da China em seis anos. A Embraer negou falha técnica. Segundo o governo chinês, a empresa fora alertada sobre problemas mecânicos no modelo E-190. Não há prazo para o fim das investigações.

 

 

Vamos Combinar

Quatro novas vagas no STF até 2014

O presidente Lula ainda não definiu o sucessor de Eros Grau no Supremo Tribunal Federal, mas deve fazê-lo antes de deixar o Planalto. Quem vencer a eleição presidencial herdará pelo menos outras quatro vagas até o fim do mandato, em 2014. Cezar Peluso e Carlos Ayres Britto completam 70 anos em 2012 e saem pela aposentadoria compulsória. Aos 64 anos, Celso de Mello pensa em pendurar a toga antes de fazer 70. Com problemas de saúde – no momento está de licença por causa de uma catarata –, só não se aposentou para não deixar mais uma vaga para Lula preencher. Ellen Gracie já deixou claro que sai do STF assim que surgir uma boa oportunidade no exterior. Conclusão: no prazo de quatro anos e meio, o Supremo deverá trocar cinco de seus 11 integrantes.

 

Fracasso até na hora de contar

A Polícia Civil do Rio de Janeiro só conseguiu elucidar 7,5% dos homicídios cometidos na cidade em 2005 e, nos anos seguintes, o desempenho ainda piorou. A informação faz parte de um estudo coordenado pelo professor Michel Misse, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em outras cidades, como Belo Horizonte, Porto Alegre, Brasília e Recife, a situação é ainda pior. A polícia é tão desorganizada que nem tem números confiáveis para medir os resultados de seu trabalho, diz o estudo.

 

 

brasil

A conta vai sobrar para todos nós

Os candidatos à Presidência prometem continuar as políticas de Lula. Mas terão de ajustar as contas. A ideia previsível – e errada – é aumentar impostos

José Fucs Com Marcos Coronato

 

Em seus programas de TV e nos palanques, os dois principais candidatos à Presidência da República – Dilma Rousseff, do PT, e José Serra, do PSDB – prometem fazer um governo de continuidade. É natural que digam isso, por temor de contrariar os cerca de 80% de eleitores que aprovam o presidente Lula. Mas não é totalmente verdade. Políticos e economistas das mais variadas correntes avaliam que o próximo presidente será obrigado a fazer um ajuste fiscal para equilibrar as contas do governo. E logo, porque o melhor momento para medidas duras é no início do mandato.

Sem esse ajuste, dificilmente o Brasil conseguirá manter um crescimento econômico acima de 5% ao ano. Primeiro, porque vão faltar recursos para o governo realizar investimentos. Em segundo lugar, porque, se a expansão dos gastos se mantiver, o Banco Central terá de manter as taxas de juro na estratosfera para conter a inflação.

Na semana passada, o governo federal anunciou o pior resultado fiscal em um mês de julho nos últimos dez anos. Desde a posse de Lula, em 2003, a arrecadação aumentou 131%, mas os gastos cresceram 146,6% (sem descontar a inflação). Segundo os números oficiais, os gastos do governo central deverão fechar 2010 em 18,6% do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de todas as riquezas produzidas no país. Em 2002, eram 15,7%. O aumento de investimentos federais foi bem menor: passou de 0,8% para cerca de 1% do PIB.

O governo não apenas está gastando muito, como está gastando mal. As principais críticas vão para a contratação de 100 mil servidores e para os reajustes salariais do funcionalismo, bem superiores à inflação. Os aumentos generosos do salário mínimo, que indexam os benefícios da Previdência Social, geraram um rombo nas contas federais que deve se estender durante décadas. Na área financeira, os aportes do Tesouro Nacional no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com o objetivo de facilitar empréstimos a grandes empresas, alcançaram R$ 280 bilhões em dois anos. Segundo o economista Raul Velloso, especialista em contas públicas, foram R$ 9 bilhões de subsídios por ano com dinheiro do contribuinte, cerca de 70% dos recursos do Bolsa Família em 2010. “Vejo um movimento crescente no Brasil de corrida aos subsídios do Estado”, afirmou Velloso na semana passada, no seminário Impostos, consumo e cidadania, realizado no Rio de Janeiro pelo Instituto Millenium, uma entidade voltada para a promoção da democracia e da economia de mercado no país. “As grandes empresas gostam de receber juros subsidiados em troca do financiamento de campanhas eleitorais”, afirmou Luiz Felipe D’Ávila, presidente do Centro de Liderança Pública (CLP), uma ONG dedicada à preparação de líderes políticos. “Por que os menos favorecidos têm de pagar para sustentar o dinheiro que o BNDES repassa às grandes empresas?”

É quase unânime a opinião de que o próximo presidente fará o ajuste. Mas muitos analistas temem que ele venha pelo lado da receita. Em vez de cortar gastos e adotar uma política fiscal austera, o próximo presidente poderá optar por aumentar impostos, apesar de a carga tributária brasileira ser a maior entre os países emergentes, na faixa de 35% do PIB. “A partir de 2011, haverá um movimento muito forte pelo aumento dos impostos”, afirmou Velloso. “O governo diz que o Brasil precisa de um Estado forte para realizar políticas sociais e grandes obras, e os políticos vão querer arrecadar mais”, disse Salim Mattar, fundador e presidente da locadora de carros Localiza e um dos patrocinadores do Millenium.

Uma das alternativas mais prováveis seria ressuscitar a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Basta lembrar que, em 2007, quando a manutenção da CPMF foi derrubada pelo Senado, tanto Dilma quanto Serra apoiavam o tributo. “É uma maravilha ficar no bem-bom e passar a conta para a sociedade”, afirmou o cientista político Alberto Carlos Almeida, um dos palestrantes, diretor do Instituto Análise e autor do livro O dedo na ferida – Menos imposto e mais consumo.

No debate acalorado sobre como mobilizar a sociedade para a questão dos impostos, o jornalista Guilherme Fiuza, colunista de ÉPOCA, disse que a melhor alternativa seria encaminhar a questão por meio dos canais políticos convencionais, como aconteceu nos casos da privatização e de aprovação de Lei de Responsabilidade Fiscal, no governo FHC. D’Ávila, do CLP, defendeu um movimento popular, nos moldes da campanha das Diretas Já, em meados dos anos 80, pelas eleições diretas para a Presidência da República. “O poder formal só aceita uma ideia nova depois que ela se propagou na sociedade”, disse.

Segundo Almeida, “a sociedade está pronta” para um movimento pela redução de impostos. Uma pesquisa publicada em seu livro mostra que cerca de 80% da população votaria em um candidato à Presidência que prometesse cortá-los. “A discussão tem de ser em torno de uma proposta de redução de impostos, para a população colocar mais dinheiro no bolso, e não de redução de gastos do governo”, diz.

Outra questão essencial é dar transparência nas notas fiscais aos impostos pagos pelo consumidor – um projeto já aprovado por diversas comissões na Câmara Federal, que aguarda em banho-maria a votação em plenário. De acordo com o arquiteto Fernando Bertuol, presidente da Associação da Classe Média (Aclame), do Rio Grande do Sul, “se a população não souber quanto está pagando, não vai se mobilizar para coisa nenhuma”.

Essa briga contra o abuso dos impostos só faz sentido se vier junto com a racionalização dos gastos públicos – defendida até por economistas que concordam com a política econômica atual. O ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, um dos principais coordenadores da campanha de Dilma, propõe que ela defina um limite para o aumento dos gastos correntes, abaixo do aumento do PIB. Também aliado com o governo do PT, o especialista em contas públicas Francisco Lopreato, da Universidade de Campinas (Unicamp), diz: “O próximo presidente não vai poder seguir expandindo os gastos na velocidade feita no governo Lula”.

 

 

O alvo era a turma de Serra

A investigação da Receita mostra que houve violação não apenas do sigilo fiscal do secretário-geral do PSDB, mas também de outros tucanos ligados ao candidato

Leandro Loyola

 

A delegacia da Receita Federal em Mauá, município da região metropolitana de São Paulo, se tornou um dos epicentros da disputa eleitoral pela Presidência da República. Na semana passada, o vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge Caldas Pereira, obteve na Justiça acesso a um processo administrativo disciplinar conduzido pela Corregedoria da Receita Federal. A investigação tenta descobrir quem e por que violou dados do Imposto de Renda de Eduardo Jorge. As informações contidas em quase 500 páginas mostram que, a partir dos computadores no piso superior da agência, onde ficam 12 mesas, uma copa e um banheiro, foram feitos acessos irregulares aos dados não só de Eduardo Jorge, mas do ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros, do ex-diretor do Banco do Brasil Ricardo Sérgio de Oliveira e do empresário Gregorio Marin Preciado. Os três últimos também são ou foram ligados ao candidato do PSDB à Presidência, o ex-governador José Serra.

A violação dos dados fiscais sigilosos de Eduardo Jorge ganhou conotação eleitoral em junho, quando o jornal Folha de S.Paulo publicou que eles faziam parte de um dossiê em poder de integrantes de um “grupo de inteligência” que estaria sendo montado pela pré-campanha de Dilma Rousseff (PT) à Presidência com o objetivo de reunir informações contra adversários e fazer contraespionagem. Em seu depoimento à Comissão de Sindicância, Eduardo Jorge afirmou ter recebido cópias parciais de suas declarações de renda de 2005, 2006, 2007, 2008 e 2009 das mãos de um repórter do jornal.

Concentrada por enquanto apenas em Eduardo Jorge, a investigação da Receita ainda não permite apontar quem estava interessado na obtenção dos dados que deveriam ser sigilosos. Mas a revelação de que em um mesmo dia (8 de outubro de 2009), numa sequência de 16 minutos, os dados fiscais de quatro pessoas que têm ou tiveram ligação com Serra foram acessados irregularmente reforça a suspeita de que estava em curso uma operação político-eleitoral que tinha como alvo o atual candidato do PSDB à Presidência.

Ex-arrecadador informal da candidatura de Serra ao Senado, em 1994, Ricardo Sérgio foi diretor do Banco do Brasil durante o governo Fernando Henrique Cardoso, com grande ascendência sobre os investimentos da Previ, o fundo de pensão do banco. Ricardo Sérgio caiu em 1998 por causa de grampo ilegal que explicitou os bastidores do leilão de privatização das empresas estatais de telecomunicações. Ficou famosa a frase, captada pelo grampo, em que Ricardo Sérgio dizia estar atuando “no limite da irresponsabilidade” para que o leilão desse certo.

 

Eduardo Jorge afirma que foram acessados
dados de cinco de suas declarações de renda

 

Amigo de Serra desde os tempos da juventude, Luiz Carlos Mendonça de Barros foi ministro das Comunicações na ocasião do leilão de privatização das teles e também apareceu como personagem do grampo ilegal de 1998. O empresário Gregorio Marin Preciado, casado com uma prima de Serra, ficou conhecido durante a campanha presidencial de 2002, a primeira em que o tucano foi candidato ao Palácio do Planalto. Em 2003, Preciado foi denunciado pelo procurador Luiz Francisco de Souza, do Ministério Público Federal, pela suspeita de que teria obtido um empréstimo do Banco do Brasil em condições especiais, em função da ajuda de Ricardo Sérgio. A ação ainda corre na Justiça.

O PSDB aproveitou a revelação de uma devassa ilegal nos dados fiscais de tucanos para aumentar o tom da disputa eleitoral contra o PT. Na semana passada, o PSDB decidiu entrar com uma representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra a campanha de Dilma Rousseff, por “abuso de poder político de agentes públicos”. “O governo é o responsável (pela quebra do sigilo) em benefício da campanha de Dilma”, afirmou o candidato tucano José Serra. “Dilma tem de dar explicações ao Brasil sobre o que aconteceu.” A campanha de Dilma, que nega qualquer envolvimento com o acesso irregular aos dados fiscais, afirmou que vai iniciar duas ações judiciais contra Serra porque ele teria cometido injúria e difamação.

Além dos tucanos, os dados fiscais de outros 140 contribuintes, como a apresentadora de TV Ana Maria Braga e integrantes da família Klein, a controladora das Casas Bahia, também foram acessados na delegacia de Mauá. A Receita ainda não sabe quantos desses acessos foram irregulares. A sindicância já reuniu os depoimentos de Eduardo Jorge e de oito funcionários e relatórios de acessos eletrônicos fornecidos pelo Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro). As três principais personagens da história são as funcionárias Antônia Aparecida Rodrigues dos Santos Neves Silva, Adeildda Ferreira Leão dos Santos e Ana Maria Rodrigues Caroto Cano. Expostos em planilhas divididas em sete colunas, os dados do Serpro mostram que, no dia 8 de outubro de 2009, a senha pessoal de Antônia, que permite acesso a dados sigilosos da Receita, foi usada dez vezes no computador de Adeildda entre 12h26 e 12h56. Em nove delas foi consultado o conteúdo de declarações de Imposto de Renda de sete pessoas (entre elas, os quatro tucanos). Em comparação com os acessos de outros dias, eles são atípicos: foram feitos seguidamente e somente na hora do almoço.

Esses dados, cruzados com os depoimentos prestados pelas três funcionárias, levam a um mistério ainda não elucidado. Em depoimentos prestados nos dias 27 e 29 de julho no escritório da Corregedoria da Receita, em São Paulo, Antônia, Adeildda e Ana Maria afirmam que, ao contrário do que dizem os registros eletrônicos, não acessaram os dados de Eduardo Jorge nem receberam ordem para tal. A senha usada era de Antônia, mas ela disse que a emprestava a Adeildda e a Ana Maria. O ato é considerado irregular e passível de punição na Receita. Para piorar, Adeildda e Ana Maria não são funcionárias da Receita, mas do Serpro. Por isso, não poderiam ter acesso a dados dos contribuintes.

 

Os acessos aos dados dos tucanos foram feitos rapidamente, na hora do almoço

 

Em depoimento, Adeildda confirmou que tinha a senha de Antônia. Mas ela disse que não foi a responsável: naquele dia, teria saído para almoçar às 11h50 com o marido, para comemorar o aniversário de casamento. Teria voltado às 13h05. No horário dos acessos, portanto, estaria fora da repartição. Como prova, Adeildda entregou sua certidão de casamento ao presidente da Comissão de Sindicância. Adeildda afirmou que a funcionária Ana Maria também tinha a senha de Antônia e, muitas vezes, a digitava em seu computador para que ela pudesse trabalhar. Ana Maria disse que também não é a responsável pelo acesso irregular. De acordo com Everardo Maciel, ex-secretário da Receita, o empréstimo da senha é uma desculpa recorrente de funcionários investigados em casos semelhantes.

Na semana passada, o corregedor-geral da Receita, Antônio Carlos Costa D’Ávila, afirmou que há indícios de um “suposto balcão de compra e venda de informação” instalado na delegacia de Mauá. Conhecida pelos brasileiros como o órgão encarregado de arrecadar impostos que pesam em seus bolsos, a Receita Federal tem a responsabilidade de manter dados em sigilo. Mas não é novidade a fragilidade do sistema de segurança da Receita. Em capitais como São Paulo e Rio de Janeiro é possível comprar CDs com informações de milhares de contribuintes.

A possibilidade de que a obtenção ilegal dos dados dos tucanos tenha sido feita por meio de uma máfia especializada na venda de informações fiscais – e não por meio de funcionários da Receita que atuavam com motivação política – em nada diminui a gravidade da violação. Ela representa uma agressão a um direito individual de cada cidadão, cujo sigilo fiscal deve ser preservado pelo Estado. Ao conceder a Eduardo Jorge o acesso à sindicância da Receita, o juiz federal Antonio Cláudio Macedo da Silva perguntou, com razão, em seu despacho: “Que Estado é esse?”.

 

 

Mundo

Não deu no "New York Times"

Em um trecho inédito de seu novo livro sobre o Brasil, Larry Rohter analisa o futuro do país pós-Lula e FHC

Letícia Sorg

 

Correspondente do The New York Times no Rio de Janeiro até agosto de 2007, Larry Rohter continua profundamente ligado ao Brasil. Casado desde 1973 com a brasileira Clotilde, ficou por aqui até março de 2008 para escrever seu primeiro livro sobre o país, Deu no New York Times (editora Objetiva). Hoje, aos 60 anos, vive em Hoboken, no subúrbio de Nova York, mas vem regularmente ao Brasil. De olho no interesse mundial pelo país, acaba de lançar um novo livro, Brazil on the rise (numa tradução livre, Brasil em ascensão), pela editora americana Palgrave Macmillan. A primeira obra era dirigida ao público brasileiro; esta é uma espécie de introdução para o público estrangeiro. “O interesse pelo Brasil já era grande em 2008, quando a editora decidiu fazer o livro, e desde então só aumentou”, disse Rohter a ÉPOCA. “Já sabemos até que haverá uma edição do livro em chinês.”

Apesar de alguns erros factuais – Rohter diz, por exemplo, que a ditadura militar “criou vários Estados novos” para diluir a importância de São Paulo e Minas Gerais no parlamento, uma inverdade –, o livro também é interessante para o leitor brasileiro se reconhecer (ou não) no espelho que o autor apresenta. Rohter – que cita apenas de passagem o episódio em que Lula quis expulsá-lo do país, em 2004 – vai muito além da política. Fala do que acha bom (a hospitalidade, o espírito empreendedor) e ruim (o jeitinho, o preconceito racial velado) na sociedade brasileira. Rohter diz que, depois desse livro, não deve voltar tão cedo a escrever sobre a política – mas planeja lançar biografias de figuras da história do país. Também tem um romance não acabado, ambientado no Rio de Janeiro.

 

 

Larry Rohter: "Este é o 16º ano do governo FHC"

Para o jornalista americano, o PT e o PSDB se sobrepõem ideologicamente, Serra cometeu erros e Dilma não pode ser subestimada

Letícia Sorg

 

ÉPOCA – Os estrangeiros estão olhando para as eleições no Brasil?

Larry Rohter – Ainda não. O que interessa para eles é o resultado: quem vai ser o novo presidente, o que significa para os investimentos, se as mudanças vão ser grandes ou pequenas. No Brasil há apenas um partido de direita, o DEM, e mesmo ele está mudando. Na verdade, no campo ideológico você tende a ver uma convergência. Em 2003, quando Lula assumiu, Francisco de Oliveira, um dos fundadores do PT, se queixava de que era o “nono ano do governo Fernando Henrique”. A esta altura, estamos no 16º ano do governo FHC. Porque a política econômica do governo Lula, com o passar dos anos, é cada vez mais social-democrata, no sentido europeu. Claro que ainda existem no PT facções e grupos nostálgicos do marxismo-leninismo, mas não são a maioria. Seria interessante ver como eles vão se comportar num eventual governo Dilma, se ela tem força suficiente para controlar essa tendência dentro do PT. Mas, hoje em dia, os dois partidos mais importantes no país estão ocupando um campo ideológico que se sobrepõe.

ÉPOCA – O senhor já esperava pelas dificuldades que a oposição está enfrentando na campanha eleitoral?

Rohter – O Serra demorou demais para confirmar a candidatura. E a escolha do vice foi desastrosa. Indio da Costa como vice-presidente do Brasil? Álvaro Dias tem experiência, teria sido um candidato com força no Sul do país. Mas quando comentei com minha mulher que o Serra tinha escolhido o Indio da Costa, ela ficou atônita e me perguntou: “Aquele menino?”. E é isso mesmo. Agora, a escolha da Dilma também não foi ótima. O Michel Temer, embora experiente, representa o antigo. Dos três candidatos a vice, o mais qualificado é o da Marina (o empresário Guilherme Leal). Ele pelo menos tem experiência em dirigir algo. Não sei se o eleitorado pensa muito no vice, mas veja a história do país: muito mais do que os Estados Unidos nos últimos 50 anos, o Brasil tem vivido momentos em que o vice assume a Presidência. O Jango, o Sarney, o Itamar. Dados os problemas de saúde de Dilma, nós temos de pensar nisso e tenho certeza de que os investidores estrangeiros já estão pensando.

ÉPOCA – Qual é sua visão sobre os dois candidatos líderes das pesquisas?

Rohter – Serra desperdiçou uma vantagem inicial que tinha e não tem mais. Ele realmente é um político experiente, foi senador, ministro, governador e um economista com muitas qualidades, que entende do Brasil e do mundo. Agora, não quero desprezar Dilma. Ela é uma boa administradora, que conseguiu impor uma estrutura, uma disciplina no gabinete do Lula, e é uma pessoa inteligente. Mas nunca foi candidata a coisa nenhuma, está começando agora. E, quando a vejo em um comício, ou num debate, parece que ainda não se sente confortável. Ser a indicada do Lula parece que compensa todas as dificuldades. Parece. Estamos em agosto. Vamos ver o resto da campanha.

ÉPOCA – Como conhecedor do país, o que o senhor espera do Brasil na Copa de 2014 e nos Jogos Olímpicos de 2016?

Rohter – Vejo oportunidades e perigos. A advertência que a Fifa fez agora sobre os estádios deve ser levada a sério. Fui bastante crítico dos Jogos Pan-Americanos porque o Rio fez promessas que não cumpriu. Quando o país faz uma promessa e assina um contrato, tem de cumprir. Senão, a credibilidade do país sofre. Daí o perigo. Com a Copa e as Olimpíadas, você está lidando com outros países, outros povos, que têm outros valores e padrões. E eles vão ficar nervosos se tudo ficar para a última hora.

 

 

Ele enganou Ahmadinejad

Como um programador da Califórnia está ajudando os ativistas a driblar a censura oficial à internet no Irã

Bruno Ferrari

 

Um dos aspectos que celebrizaram a luta da oposição iraniana contra o governo do presidente Mahmoud Ahmadinejad foi o uso inteligente da internet para se organizar e divulgar a opressão do regime. Para driblar os agentes de segurança do governo do Irã, os ativistas iranianos contam com a ajuda de voluntários, especialistas em segurança da internet. O mais notável é Austin Heap, um americano de 26 anos, programador de São Francisco, na Califórnia. Graças ao programa que ele desenvolveu, os iranianos conseguem burlar o sistema de vigilância governamental e acessam sites da oposição, publicam vídeos no YouTube ou usam o serviço de micromensagens no Twitter.

No auge dos protestos contra a reeleição de Ahmadinejad, em junho do ano passado, Heap era um programador que prestava serviços para empresas de tecnologia da Califórnia. Homossexual, fã de games, também cuidava da tecnologia em uma ONG de defesa de minorias étnicas, quando ouviu certo dia seu namorado falar no uso que a oposição iraniana fazia da internet. Logo após o anúncio dos resultados, o Twitter foi inundado de mensagens que acusavam o governo de fraude eleitoral. Os iranianos passaram também a organizar protestos nas ruas, violentamente reprimidos pelas forças oficiais. Os ativistas usavam serviços de mensagem pelo celular, pelos blogs e pelo Twitter para se organizar e divulgar imagens da repressão. A multiplicação dessas mensagens chamou a atenção de Heap – e ele viu aí uma oportunidade de usar seus conhecimentos técnicos para ajudar os iranianos.

Heap publicou em seu blog um guia que ensinava os ativistas a usar um programa que desvia as informações pela rede por caminhos difíceis de rastrear. Mesmo assim, seu post foi descoberto por agentes iranianos, que conseguiram combater essa técnica. Enquanto buscava uma alternativa, Heap recebeu um chamado para um chat de alguém que se identificava como Quotemstr e dizia ser um dissidente ainda com acesso a informações do regime iraniano. Quotemstr passou a Heap documentos com os procedimentos de vigilância na internet usados pelo governo. Eram 96 páginas de códigos de programação escritas em persa. Heap decifrou os código interpretando os desenhos e desenvolveu um programa mais eficaz, chamado Haystack (palheiro, na tradução do inglês). A grande inovação do Haystack para driblar os sistemas de vigilância está na forma como ele transmite as informações pela internet. Em geral, os programas mais usados por ativistas usam códigos para transmiti-las de modo seguro, sem que elas possam ser decifradas pelos censores. Ainda assim, eles podem derrubar a conexão. Para evitar isso, o Haystack não apenas usa códigos seguros, mas também disfarça os dados de modo que, para um censor, eles parecem tráfego inócuo, como o acesso a sites de compras, lazer ou do próprio governo.

Depois dos 30 dias em que desenvolveu o Haystack, Heap distribuiu convites a ativistas-chave para testá-lo. “Queria privilegiar os ciberativistas, em detrimento a usuários que queriam o programa apenas para poder baixar música pirata”, disse Heap à revista americana Newsweek. Ironicamente, a lei americana proíbe qualquer exportação para o Irã, mesmo de um software usado para promover a liberdade. Ao perceber a importância do Haystack, o Departamento de Estado americano apressou sua liberação.

 

Heap é expoente de um movimento de hackers ativistas contra tiranias na internet

 

Com o apoio do governo americano, Heap fundou o Centro de Pesquisas da Censura, uma ONG que desenvolve programas para driblar a repressão em outros países. Ele apoia um movimento que ganhou mais corpo no último ano, conhecido como hackerativismo. Ele é formado por hackers que se unem em grandes fóruns virtuais para criar novas formas de burlar a censura na internet. Eles desenvolvem seus programas a partir de códigos básicos, aperfeiçoados por voluntários de todo o mundo.

Os hackers contam com o apoio de iranianos como Ali Yavari, de 24 anos, que se mudou há 11 meses para a Suécia, onde cursa um mestrado em redes de computadores. Yavari afirma apoiar toda iniciativa para burlar a censura do governo iraniano na internet. Mas diz que não é uma tarefa fácil. “No Irã, todos os provedores precisam comprar conexão de uma empresa iraniana ligada ao governo”, afirma. “Por isso é muito fácil bloquear o acesso a sites.” Yavari também lembra que não são só informações políticas que sofrem com as sanções do governo iraniano. Ele diz que seria impossível a uma empresa iraniana manter comunicações privadas – sem nenhum fim político – com filiais ou matrizes em outros países. “O governo bloqueia todas as redes privadas”, afirma. “O final dessa história vai ser: restrição, mais restrição e mais restrição.”

É difícil acreditar que os ativistas vençam um governo organizado como o iraniano. Em maio, o Irã anunciou a criação do Comando de Defesa Cibernética, o segundo maior exército de repressão na internet do mundo (atrás apenas dos censores chineses). A esperança dos hackers é que, mesmo diante de um governo bem equipado, a criatividade prevaleça. De sua ONG, na democrática Califórnia, Heap enviou um recado aos regimes repressores: “Uma criança travessa vai mostrar a vocês como deve funcionar a internet”.

 

 

O novo ataque dos Kirchners

Em mais uma tentativa de cercear a liberdade de imprensa, o governo argentino apresenta um projeto para controlar a venda de papel-jornal

Rodrigo Turrer

 

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, fez mais uma ofensiva em sua guerra contra a imprensa do país. Na semana passada, ela anunciou um projeto de lei para transformar a produção e a comercialização de papel-jornal em setor “de interesse nacional”. O projeto impõe controle do Estado sobre o preço, a distribuição e a comercialização do insumo produzido pela Papel Prensa, a única fábrica de papel-jornal do país, que produz 75% do insumo e abastece 170 diários.

Em tese, o projeto serviria para estimular o aumento da produção nacional e evitar a importação de papel-jornal. Mas, muito além do interesse nacional, o projeto é uma forma de o governo restringir a oferta de matéria-prima aos dois mais influentes jornais da Argentina, o La Nación e o Clarín, ferrenhos opositores da gestão Kirchner. O governo acusa os veículos de exercer hegemonia no mercado. O controle da Papel Prensa é compartilhado pelos dois (o Clarín detém 49% das ações; o La Nación, 22,49%) e pelo Estado argentino, que detém 27,46%.

Segundo a presidente, o Estado, como sócio minoritário, vai investir na Papel Prensa para aumentar sua capacidade, sem aumentar sua fatia do capital. “Não é para controlar nada”, disse Cristina. “É simplesmente para que deixem de controlar os argentinos e deixem que as regras do livre-comércio possam ser gozadas por todos os empresários editoriais.”

Em meio ao anúncio, televisionado, Cristina Kirchner acusou os dois jornais de “crimes contra a humanidade”. Ela apresentou um relatório de 400 páginas em que acusa os veículos de ter sido cúmplices da ditadura militar (1976-1982) na compra da Papel Prensa, em 1976, pelos diários Clarín, La Nación e La Razón (este último extinto). Segundo o documento, a família Graiver, então sócia majoritária da Papel Prensa, foi pressionada pelos militares a vender a empresa por um quarto do valor de mercado.

A afirmação é desmentida por fatos históricos. A venda se consumou em novembro de 1976. Apenas seis meses depois os membros da família foram presos pela polícia política, acusados de gerir as finanças dos Montoneros, um grupo armado peronista. Segundo o La Nación, Lidia Papaleo – a matriarca da família, viúva do banqueiro David Graiver – confirmou à Justiça que não fora detida ou torturada no período em que vendeu as ações da empresa. O irmão de Graiver, Isidoro, e a filha do banqueiro, Maria Sol, confirmaram que Lidia só foi presa e torturada seis meses depois da venda. O historiador argentino Marcelo Larraquy afirma que “desde a redemocratização do país, é a primeira vez que se levantam dúvidas sobre a legitimidade da transação”.

A oposição argentina anunciou que seus parlamentares vão derrubar a proposta. O deputado Óscar Aguad, da UCR, afirmou que “declarar o papel como algo de interesse público é um passo prévio à desapropriação”. A deputada Eliza Carrió, da Coalizão Cívica, lembrou que o projeto vai na contramão do Artigo 13 do Pacto de San José, assinado por Estados americanos em 1978, que proíbe medidas de controle de papel para jornais. O projeto repercutiu no exterior. A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) afirmou se tratar de um projeto “inconstitucional, por buscar controlar a mídia”. O Departamento de Estado americano também manifestou preocupação e afirmou acompanhar de perto “o forte debate na Argentina”.

Desde 2003, quando Néstor Kirchner, marido de Cristina, assumiu a Presidência, o governo argentino priorizou meios de comunicação governistas na publicidade oficial. O Grupo Clarín é o que mais sofre com as represálias kirchneristas. Em setembro do ano passado, agentes da Receita Federal invadiram a sede do jornal e a casa de seus diretores. Dois meses depois, um boicote de caminhoneiros orquestrado por um sindicato peronista, alinhado com o governo, interrompeu a distribuição do diário. No fim do ano passado, o governo cancelou a licença de operação da empresa Fibertel, que pertence ao Grupo Clarín e oferece serviços de internet.

Controlar o papel-jornal para cercear a liberdade de imprensa é uma tática antiga. No México, o Partido Revolucionário Institucional (PRI) – que ficou no poder por sete décadas – decretou, em 1935, o monopólio da importação de papel-jornal. A cota de cada veículo era proporcional ao grau de docilidade.

A tentativa de tutelar a atividade informativa leva os Kirchners por um caminho similar ao de outros países do continente, em que a imprensa é vítima de ameaças. Na semana passada, a Justiça da Venezuela, controlada por Hugo Chávez, decidiu impedir os meios impressos de publicar fotos ou textos com “sangue, armas, mensagens de terror e agressão física”. Na Bolívia, o presidente Evo Morales já ameaçou nacionalizar o diário La Razón. No ano passado, obrigou jornais e TVs a reservar um espaço diário a jornalistas e sindicalistas do governo. A Assembleia Nacional do Equador analisa um projeto de lei do governo que exigiria dos meios de comunicação licença anual para funcionar.

No Brasil, onde pipocam de tempos em tempos propostas como a de um conselho que regule a atividade jornalística, os três principais candidatos à Presidência assinaram há duas semanas, em um congresso da Associação Nacional de Jornais (ANJ), a Declaração de Chapultepec, uma carta de princípios com intenção de preservar “uma imprensa livre como uma condição fundamental para que as sociedades resolvam seus conflitos, promovam o bem-estar e protejam sua liberdade”. É preciso saber se manterão a palavra assinada.

 

 

  

Colunistas

Por que é difícil “enxugar” o Pentágono

Fareed Zakaria

 

A iniciativa de reformar o Pentágono, conduzida atualmente pelo secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, é modesta. Ele não está tentando cortar o orçamento real de sua pasta, quer apenas aumentar a eficiência reduzindo a burocracia, o desperdício e o trabalho feito em duplicidade. A economia que Gates tenta obter é perfeitamente razoável: US$ 100 bilhões em cinco anos, período ao longo do qual o Pentágono vai gastar aproximadamente US$ 3,5 trilhões.

Mesmo assim, Gates provocou intensa oposição por parte dos suspeitos de sempre – prestadores de serviços de defesa, lobistas e comentaristas de guerra. Enfrenta, aliás, resistência enérgica de seu próprio partido (o Republicano). Mas são os republicanos, e não Gates, que estão abandonando suas melhores tradições quanto a estratégias de defesa.

Será que alguém pode questionar seriamente as ideias de Gates quanto aos méritos? Ele observou que a disparada dos preços de equipamentos de defesa levou ao absurdo de navios destróieres custarem de US$ 2 bilhões a US$ 3 bilhões e aviões bombardeiros saírem por US$ 2 bilhões. O setor privado eliminou os organogramas, ao passo que o Pentágono multiplicou as camadas da burocracia. Há quase uma década, o ex-secretário de Defesa Donald Rumsfeld, que antecedeu a Gates, disse que havia 17 escalões de pessoal entre ele e um oficial de linha. Gates acha que atualmente sejam uns 30 escalões.

Se alguns democratas aderiram à reforma de Gates, a maioria dos republicanos está cegamente contra. Eles deveriam se dar ao trabalho de ler os dois últimos discursos de Gates, um para a Liga Naval e o outro na Biblioteca Eisenhower.

 

Há uma década, havia 17 escalões entre o secretário
de Defesa e um oficial de linha. Hoje, são 30

 

Gates se revela abertamente um admirador do ex-presidente Dwight Eisenhower (1953-1961). Respeita o comedimento de Eisenhower, a ênfase nas contrapartidas envolvidas no financiamento das Forças Armadas, a relutância em criar o que chamava de “complexo industrial militar”. “(Eisenhower achava que) até uma superpotência como os EUA, então perto do auge de sua força e prosperidade em comparação ao resto do mundo, não tinha recursos políticos, econômicos e militares ilimitados. Usá-los em uma área, por exemplo, numa guerra prolongada no mundo em desenvolvimento, diminuiria a força disponível para fazer qualquer outra coisa”, afirmou Gates sobre o presidente, na biblioteca que o homenageia. “(Eisenhower) detestava ver sua amada república tornar-se um estado de músculos e guarnições – militarmente forte, mas estrategicamente insolvente.”

No espírito de Eisenhower, Gates perguntou em seu discurso para a Liga Naval: “Nós realmente deveríamos reagir tão mal a uma diminuição temporária planejada de 100 caças da Marinha e do corpo de fuzileiros navais se as Forças Armadas dos EUA possuem mais de 3.200 aeronaves táticas de combate de todos os tipos? O número de navios de guerra que o país tem e está construindo realmente coloca os EUA em risco se a frota de guerra americana é maior do que as 13 maiores marinhas seguintes juntas, das quais 11 são de aliados e parceiros? É uma ameaça séria que até 2020 os EUA vão ter só 20 vezes mais caças ‘invisíveis’ que a China?”.

A seriedade de propósito de Eisenhower se refletiu mais do que apenas na estratégia militar. Ele era um verdadeiro conservador fiscal, acreditando que o governo deveria administrar déficits durante recessões, mas superávits durante a recuperação. Em 1960, o vice-presidente dele, Richard Nixon, implorou-lhe para cortar impostos para dar um impulso temporário à economia – e, assim, ajudar suas próprias perspectivas eleitorais. Eisenhower se recusou, com o intuito de deixar o gabinete com um excedente no orçamento, o que acabou se mostrando ser o último em mais de três décadas.

Robert Gates é um conservador genuíno na tradição de Eisenhower. Infelizmente, contando Gates e o quadro de Eisenhower pregado atrás de sua mesa de trabalho, há só duas pessoas desse tipo em Washington hoje em dia.

 

 

O PT contra os excessos da democracia

Guilherme Fiuza

 

A polícia federal voltou. Quem achou que os bravos combatentes do FBI brasileiro estavam de férias até o final das eleições enganou-se. Aí estão eles de novo, operativos, reativando sua famosa fábrica de manchetes de jornal. No auge da campanha eleitoral, o alvo da Polícia Federal é o bom e velho José Roberto Arruda, ex-governador do Distrito Federal, aquele que na literatura política tirou do PT o monopólio sobre a palavra “mensalão”.

O público já estava com saudades daquelas operações com nome de tragédia grega e embalagem de novela das oito. Depois de longo silêncio, eis que a Polícia Federal lança seu relatório sobre o caso Arruda. É basicamente o mesmo press release de sempre, acusando o investigado de chefiar uma organização criminosa, mais um punhado de adjetivos picantes do vocabulário da delinquência. A expressão “organização criminosa” pode até não significar nada, mas é sem dúvida uma grande contribuição da polícia para o jornalismo contemporâneo.

Com todo o cuidado para não fazer marola na campanha da candidata do chefe, nada melhor do que bater em cachorro morto – que não grita e ainda por cima é de oposição. Com o relatório Arruda, a PF dá uma forcinha à expressão “mensalão do DEM”, enquanto o mensalão original, nacional, autêntico e insuperável dorme no Supremo Tribunal Federal, esperando o fim da licença médica de seu relator.

Está certíssimo. Afinal, Dilma Rousseff, a líder disparada nas pesquisas, obedece a José Dirceu – apontado pelo Ministério Público como o chefe do mensalão. Não fica nem bem mexer com esse assunto numa hora dessas. Não se sabe o dia de amanhã. Talvez por isso também não saiam releases sobre a organização criminosa (com todo o respeito) de Sarney e seu filho Fernando. Os justiceiros do Estado brasileiro não põem a mão em cumbuca. Melhor chutar o Arruda.

Na Receita Federal também está tudo calmo. Sabe-se agora que não foi só o tucano Eduardo Jorge Caldas quem teve o sigilo fiscal espionado. Entre outros, Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-ministro de Fernando Henrique Cardoso, também foi “pesquisado”. Tudo normal. É para isso mesmo que serve o Estado. Leva-se tanto tempo para tomar o poder que o mínimo a fazer, uma vez lá, é usá-lo para perseguir os inimigos e alimentar os amigos. Quando Lula foi eleito e disse que a Presidência da República era o ponto máximo a que um ser humano podia chegar, em tom de final feliz, não entendeu quem não quis.

 

A PF dá uma forcinha à expressão “mensalão do DEM”, enquanto o mensalão autêntico dorme no STF

 

Qual é a graça de ter o poder e não mandar a Receita aliviar a família Sarney? Ou não dar uma bisbilhotada nas contas da ex-primeira-dama Ruth Cardoso? Ou não dar uma checada no Imposto de Renda do Mendonção, que, além de ex-ministro, é rico?

Dilma Rousseff já declarou que não tem nada com isso. A ex-secretária da Receita Federal Lina Vieira contou que foi convocada ao gabinete dela para receber ordens, mas as imagens do circuito interno do Palácio sumiram. Ninguém sabe, ninguém viu. É o mesmo silêncio que cerca a apuração da violação fiscal de Eduardo Jorge. Ele, o cidadão violentado pelo Estado, é quem tem de empreender uma cruzada quixotesca para ter seus direitos reparados, como se fosse um fanático caçando um autógrafo do papa. E, no momento em que aparecem outros adversários políticos do PT na mesma espionagem, o que diz a Receita Federal? Nada.

O negócio é ficar quieto e esperar a imprensa esquecer o assunto. A imprensa, aliás, atrapalha muito nessas questões íntimas do poder. O governo tem quase 80% de aprovação e ainda tem de dar satisfação do que faz ou deixa de fazer com a máquina pública – conquistada com tanto sacrifício na apoteose lulista.

Talvez por isso o partido de Dilma venha propondo tantos projetos de controle social da mídia. O ideal seria, com esses 80%, governar também a pauta dos jornais e das TVs. A candidata do PT quer a convocação de uma Constituinte restrita. Pelo visto, está disposta a acabar com os excessos da democracia.




 

Entrevista

CARLOS AUGUSTO MONTENEGRO

"O Brasil já tem uma presidente"

Presidente do Ibope admite que errou ao prever que Lula não faria o sucessor e diz que Dilma Rousseff será eleita no primeiro turno

]Octávio Costa e Sérgio Pardellas PASSADO
Para Montenegro, o PSDB fez uma campanha velha e sem novidade

Há exatamente um ano, o presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, declarou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não faria o sucessor, apesar da alta popularidade. Na ocasião, o responsável por um dos mais tradicionais institutos de pesquisas do País assegurava que o presidente não conseguiria transferir seu prestígio pessoal para um “poste”, como tratava a ex-ministra Dilma Rousseff. Agora, a um mês das eleições e respaldado por números apresentados em pesquisas diárias, Montenegro faz um mea-culpa. “Errei e peço desculpas. Na vida, às vezes, você se engana”, afirmou. “O Brasil já tem uma presidente. É Dilma Rousseff.” Segundo Montenegro, a ex-ministra da Casa Civil vem se conduzindo de forma convincente e confirma, na prática, o que o presidente disse sobre ela na histórica entrevista concedida à ISTOÉ na primeira semana de agosto: “Lula acertou. Dilma é um animal político. Está mostrando muito mais capacidade do que os adversários.”

"Lula vai sair como o melhor presidente do Brasil. Um pouco acima
até do patamar de Getúlio Vargas e de Juscelino Kubitschek"

O tucano José Serra, na opinião do presidente do Ibope, faz uma campanha sem novidade, velha e antiga. “O PSDB está perdido”, assegura. Neste fim de semana, o Ibope vai divulgar uma nova pesquisa, que confirmará a categórica vantagem da petista. “Fazemos pesquisas ­diárias. E Dilma não para de crescer. Abriu 20 pontos em Minas, onde Serra já esteve na frente. Empatou em São Paulo, mas ali também vai passar. Essa eleição acabou”, conclui Montenegro.

"A história da Marina é maravilhosa. A luta dela é muito importante. Mas ela até
outro dia estava com Lula e as pessoas a relacionam com o presidente"

Istoé

O sr. disse que o presidente Lula não conseguiria transferir seu prestígio para a ex-ministra Dilma Rousseff, mas as pesquisas mostram o contrário. O sr. ain­da sustenta que o presidente não fará o sucessor?

CARLOS AUGUSTO MONTENEGRO –

Eu nunca vi, em quase 40 anos de Ibope, uma mudança na curva, como aconteceu nesta eleição, reverter de novo. Por mais que ainda faltem 30 e poucos dias para a eleição, o Brasil já tem uma presidente. É Dilma Rousseff. Ela tem 80% de chances de resolver a eleição no primeiro turno. Mas, se não for eleita agora, será no segundo turno.

Istoé - A que o sr. atribui essa virada?

CARLOS AUGUSTO MONTENEGRO -

Houve uma série de fatores. Primeiro a transferência do Lula, que realmente vai sair como o melhor presidente do Brasil. Um pouco acima até do patamar de Getúlio Vargas e de Juscelino Kubitschek. O segundo ponto é o preparo da candidata Dilma. Ela tem mostrado capacidade de gestão, equilíbrio, tranquilidade e firmeza. A terceira razão é seu bom desempenho na televisão, inclusive nos debates e entrevistas. Lula acertou ao dizer, em entrevista à ISTOÉ, que ela era um animal político. Está mostrando muito mais capacidade que os adversários e mostra que tem preparo para ser presidente.

Istoé - Mas há um ano o sr. declarou que Lula dificilmente faria o sucessor.

CARLOS AUGUSTO MONTENEGRO -

Errei. Eu dizia de uma forma clara que, apesar de o Lula estar bem, ele não elegeria um poste. Foi uma declaração extemporânea, descuidada e muito mais fundamentada num pensamento político do que com base em pesquisas. Foi um pensamento meu. Acho que eu tinha o direito de pensar daquela forma, mas não tinha o direito de tornar público. Peço desculpas. Na vida, às vezes, você se engana.

Istoé - O que mais o surpreendeu desde o momento do lançamento das candidaturas?

CARLOS AUGUSTO MONTENEGRO -

A oposição errou e essa é a quarta razão para o sucesso de Dilma. A campanha do Serra está velha e antiga. Não tem novidade. O PSDB repete 2002 e 2006. Está transmitindo para o eleitor uma coisa envelhecida. Vejo um despreparo total. O PSDB está perdido, da mesma forma que o Lula ficou nas eleições de 1994 e 1998 contra o Plano Real. Na ocasião, ele não sabia se criticava ou se apoiava e perdeu duas eleições.

Istoé - O bom momento da economia, a geração de empregos e o consumo em alta não fazem do governo Lula um cabo eleitoral imbatível?

CARLOS AUGUSTO MONTENEGRO -

Essa, para mim, é a razão principal. O Brasil nunca viveu um momento tão bom. E as pessoas estão com medo de perder esse momento. O Plano Real acabou derrotando o Lula duas vezes. Mas o Lula, com o governo dele, sem querer ou por querer, acabou criando um plano que eu chamo de imperial. É o império do bem, em que cerca de 80% a 90% das pessoas pelo menos subiram um degrau. Quem não comia passou a comer uma refeição por dia, quem comia uma refeição passou a fazer duas, quem nunca teve crédito passou a ter crédito, quem andava a pé passou a andar de bicicleta ou moto, quem tinha carro comprou um mais novo e quem nunca viajou de avião passou a viajar. Os industriais também estão felizes, vendendo o que nunca venderam. Os banqueiros idem. 

Istoé - Mas esse fator não pesou logo de início, quando os candidatos lançaram os seus nomes e Serra permaneceu vários meses na frente.

CARLOS AUGUSTO MONTENEGRO -

No início, houve transferência do Lula. Mas, de uns três meses para cá, o Lula está associando o êxito dele ao êxito do governo como um todo. E está mostrando que Dilma é a gestora desse governo. O braço direito dele. E as pessoas estão confiantes nisso e não estão querendo perder o que ganharam.

Istoé - É possível dizer então que o programa de tevê do PT é mais eficiente do que o da oposição?

CARLOS AUGUSTO MONTENEGRO -

A tevê ajudou na consolidação. Mas a virada de Dilma Rousseff na corrida para presidente da República se deu antes da tevê. Pelo menos antes do horário eleitoral gratuito.

Istoé - Isso derruba o mito de que o programa eleitoral é capaz de virar a eleição?

CARLOS AUGUSTO MONTENEGRO -

Quando a eleição é disputada por candidatos pouco conhecidos, ele pode ser decisivo, sim. Por exemplo, a televisão está ajudando a eleição de Minas Gerais a se tornar mais dura. O Aécio está entrando agora, o Anastasia é o governador e eles estão mostrando as realizações do governo. Por isso, o Anastasia está crescendo. O Hélio Costa largou na frente porque já era uma pessoa muito mais conhecida do que o Anastasia. Mas, quando você pega uma eleição em que todos os candidatos são bem conhecidos, o uso da tevê é muito mais de manutenção e preenchimento do que para proporcionar uma virada.

Istoé - E os debates? Eles podem mudar a eleição?

CARLOS AUGUSTO MONTENEGRO -

Só se houvesse um desastre. Cada eleitor acha que o seu candidato teve desempenho melhor. Vai ouvir o que está querendo ouvir. Já conhece as propostas anunciadas durante a propaganda eleitoral. Falando especificamente dessa eleição presidencial, repito que a população está de bem com a vida. Quer continuar esse bom momento. O Brasil quer Dilma presidente.

Istoé - A candidatura de Marina Silva não tem força para levar a eleição até o segundo turno?

CARLOS AUGUSTO MONTENEGRO -

Cada vez mais a vitória de Dilma no primeiro turno fica cristalizada. Temos pesquisas diárias que mostram que essa eleição presidencial acabou. Agora, mais uma vez, o Brasil está dando um show de democracia. É bom dizer que os três principais candidatos são excelentes. Todos têm passado político, currículo e história. A história da Marina Silva, por exemplo, é maravilhosa. A luta dela pelo meio ambiente é muito importante. Mas a Marina até outro dia estava com Lula e as pessoas a relacionam com o presidente. Você pega a luta do Serra e ela também é fantástica. E o Serra, até outro dia, também estava no palanque do Lula, na luta contra a ditadura.

Istoé - O fato de Dilma nunca ter disputado uma eleição não deveria pesar a favor de José Serra?

CARLOS AUGUSTO MONTENEGRO -

No Chile, Michele Bachelet tinha 80% de aprovação, mas não conseguiu fazer o sucessor. Por quê? Porque ele tinha passado. Já tinha concorrido. Quando você concorre, você pega experiência por um lado, mas a pessoa deixa de ser virgem, politicamente falando. Sempre há brigas que você tem que comprar e vem a rejeição. No caso da Dilma, o fato de ela nunca ter concorrido, ter sido sempre uma gestora, uma técnica, precisando só exercitar o seu lado político, ajudou muito.

Istoé - Em que medida o fato de Dilma ser mulher a ajudou nessas eleições?

CARLOS AUGUSTO MONTENEGRO -

Acho que não ajudou muito. Mas é algo diferente. O Brasil já tem implementado coisas novas na política, como foi a eleição de um sindicalista. É um fato interessante, mas a competência do Lula e da Dilma ajudaram muito mais. 

Istoé - O atabalhoado processo de escolha do vice na chapa do PSDB prejudicou a candidatura de José Serra?

CARLOS AUGUSTO MONTENEGRO -

Não. Nunca vi vice ganhar eleição. Nem perder.

Istoé - O sr. acredita que Lula possa puxar votos para candidatos do PT nos Estados, como em São Paulo, por exemplo?

CARLOS AUGUSTO MONTENEGRO -

Acho muito difícil. O Lula tinha toda essa popularidade em 2008, apoiou a Marta e ela perdeu do Gilberto Kassab, que estava fazendo uma boa administração.

Istoé - Dilma eleita, qual a saída para a oposição?

CARLOS AUGUSTO MONTENEGRO -

Está provado que o modelo da oposição não deu certo. Talvez ganhe em alguns Estados importantes, como São Paulo, Minas, Paraná e Goiás. Sempre terá um papel importante. Mas essa eleição mostra que está na hora de uma reforma política. É preciso diminuir o número de partidos. Os programas partidários também precisam ser mais respeitados. Os partidos são os pilares da democracia.

 

 

O fim de uma era?

Veteranos da política brasileira, verdadeiros caciques partidários, correm o risco de não se eleger e podem sair de cena

Hugo Marques

 

Senadores experientes que ganharam os holofotes nos últimos oito anos estão ameaçados de sair de cena no início de 2011. Apesar de terem ocupado as páginas dos jornais e frequentado de maneira assídua a tribuna do Senado por quase uma década, eles, agora, têm a eleição ameaçada. Alguns mantiveram o discurso ultrapassado e utilizam a campanha não para apresentar novas ideias, mas para denegrir a imagem dos oponentes. Outros, além de envolvidos com esquemas de corrupção, fazem campanha semelhante à de coronéis que dividiam os Estados em currais eleitorais. De acordo com especialistas, o eleitor, cada vez mais bem-informado, vem mostrando que quer sangue novo e exige competência. “Há dois terços do Senado em disputa e haverá uma grande renovação”, diz o diretor do Diap, Antônio Augusto Queiroz. “Dos 30 que tentam a reeleição, quase a metade não deve se reeleger.”

A degola ameaça principalmente os senadores de oposição do Nordeste, que apostaram num discurso surrado e de crítica sistemática ao governo Lula no Congresso. O senador Heráclito Fortes (DEM-PI), que utilizou a CPI dos Bingos para minar o governo, corre sério risco de ficar sem mandato. Ele está em terceiro lugar nas pesquisas, com 24% dos votos, atrás do ex-governador Wellington Dias (PT-PI), que tem 55%, e de Mão Santa (PSC-PI), com 30%. “Estou recebendo um bombardeio direto do Palácio”, reclama Heráclito. “Eles não têm o direito de usar a máquina do governo, de distribuir verbas e convênios para favorecer seus aliados. As candidaturas mais caras são as do governo”, justificou. Outro que usou a CPI para atingir o governo foi o senador Efraim Morais (DEM-PB). Com uma diferença: Efraim é acusado de envolvimento em esquemas de corrupção. As denúncias vão desde a distribuição de cargos a servidores fantasmas no Senado até a cobrança de propinas em contratos de serviços públicos. Na Paraíba, o ex-governador Cássio Cunha Lima (PSDB) lidera as pesquisas ao Senado, com 52% dos votos. Em segundo lugar está o prefeito de Campina Grande, Vital do Rego Filho (PMDB), com 25%. Efraim tem 22%.

Outra figura carimbada da política brasileira que corre o risco de ficar sem mandato é o senador Arthur Virgílio (PSDB). Dono de um discurso ácido e de críticas pesadas, ele aproveita sua campanha para desferir duros golpes nos concorrentes. Mas essa estratégia não tem garantido votos para Virgílio. O ex-governador do Amazonas Eduardo Braga (PMDB) tem 82% e a deputada Vanessa Grazziotin (PCdoB) está em segundo lugar, com 39,3%. Virgílio aparece com 39%. No Rio Grande do Norte, o senador José Agripino Maia (DEM), que chegou a bater boca com a ministra Dilma Rousseff em audiência no Senado, está em segundo lugar nas pesquisas, com 39%, mas vê o avanço de sua oponente, a ex-governadora Wilma Maia (PSB), que já tem 32%. Em primeiro lugar está o ex-presidente do Senado Garibaldi Alves Filho (PMDB), com 41%.

A ameaça de esses caciques perderem seus cocares deixa claro dois fenômenos que estão ocorrendo nas eleições de 2010. O primeiro é a im­­pressio­­nante popularidade do presidente Lula, que conseguirá fazer como sucessora uma candidata completamente virgem em disputas eleitorais. Se Lula não consegue eleger todos os candidatos que apoia, como o ex-senador Aloizio Mercadante, em São Paulo, ele, ao menos, tem minado a campanha de seus adversários políticos. O outro é o desejo de renovação do Congresso. Após anos de escândalo sobre escândalo no Senado, boa parte da população não quer eleger ninguém que tenha passado os últimos anos por lá.

Um sinal disso é o que ocorre com o senador paulista Romeu Tuma (PTB). Embora seja amigo do presidente Lula, Tuma desgastou-se à frente da Corregedoria do Senado. Apesar das graves denúncias, adotou uma postura conciliatória com seus pares. A pouco mais de 30 dias das eleições, ele está em terceiro lugar, com 23% dos votos, atrás de Marta Suplicy e Orestes Quércia. O eleitor, como se vê, parece não ter memória tão curta quanto alguns políticos acreditam

 

 

As chinas brasileiras

Com as maiores taxas de crescimento do País, Estados do NE atraem corporações e recebem volume recorde de investimentos

Amauri Segalla


Troquei São Paulo por Recife e hoje me pergunto por que não fiz isso antes” Nivaldo Circuitani Júnior, executivo do Estaleiro Atlântico Sul

O engenheiro Nivaldo Circuitani Júnior, 45 anos, tinha uma carreira sólida em São Paulo até que, quatro meses atrás, recebeu um convite incomum. A proposta consistia em chefiar uma equipe de 500 pessoas da área de fabricação de acessórios náuticos do Estaleiro Atlântico Sul. Se aceitasse a oferta, ele deveria trocar a capital paulista por Recife, em Pernambuco. Melhor ainda: por um salário maior. “É difícil para um profissional que trabalha na maior cidade do País acreditar que existem boas vagas no Nordeste”, diz Júnior. “Aceitei o convite e até hoje me pergunto por que não me mudei antes para Pernambuco.” Se até pouco tempo atrás o Nordeste era sinônimo de pobreza, hoje em dia a região cresce numa velocidade maior do que qualquer outro lugar do País. No primeiro trimestre de 2010, três dos Estados brasileiros que apresentaram maior avanço do Produto Interno Bruto (PIB) são nordestinos: Bahia (alta de 9,5%), Ceará (8,9%) e Pernambuco (7,8%). De acordo com um estudo da Fundação Getulio Vargas, a renda do nordestino cresce, desde 2003, 7,27% ao ano, muito acima da média nacional (5,13%). No século XXI, todos os indicadores econômicos do Nordeste apontam para um vigor que só é comparável à disparada chinesa rumo ao capitalismo. Detalhe: a China é o país que mais cresce no mundo.

Os programas públicos de transferência de renda tiveram um papel importante no desenvolvimento da região, mas o que fez mesmo a diferença foi a iniciativa privada. Nos últimos anos, o Nordeste se transformou em catalisador de recursos vindos de diversos setores. O Estaleiro Atlântico Sul, empresa que pertence ao grupo Camargo Corrêa, desembolsou R$ 1,8 bilhão para produzir embarcações em Pernambuco – investimento que permitiu que executivos como Júnior trocassem o Sudeste rico por uma oportunidade de carreira no Nordeste. Na área hoteleira, é covardia fazer comparações: 70% dos investimentos do setor estimados até 2012 no Brasil vão ser destinados para a região. É natural que se espere uma avalanche de investimentos para estas áreas que pertencem a uma região marcada pela paisagem exuberante e pela orla generosa. Para qualquer segmento que se olhe, porém, o Nordeste está na dianteira.

Na área imobiliária, Estados como Bahia, Ceará e Pernambuco vivem uma expansão sem precedentes. Responsável pelo projeto do Shopping Cidade Jardim, o mais luxuoso de São Paulo, a incorporadora JHSF está construindo um bairro inteiro em Salvador. Com 19 torres residenciais, três comerciais, um hotel, shopping, escola e clube esportivo, o empreendimento vai gerar vendas equivalentes a R$ 1,2 bilhão. Os apartamentos têm entre 70 e 320 metros quadrados e seus preços variam de R$ 200 mil a R$ 1,5 milhão – nada muito diferente, portanto, dos valores praticados em São Paulo para imóveis do mesmo padrão. “Salvador é hoje o terceiro maior mercado imobiliário do País, só atrás de São Paulo e Brasília”, diz Luciano Amaral, diretor de incorporação da JHSF.

Especializada na área de condomínios de luxo, a Alphaville também está fazendo dinheiro na região. A empresa tem empreendimentos em todas as capitais nordestinas, à exceção de Aracaju e Maceió. “Em nenhum outro lugar do Brasil a velocidade de vendas de nossos lotes é tão alta”, afirma Marcelo Willer, diretor de projetos da Alphaville Urbanismo

“Nenhuma região brasileira oferece tantas oportunidades de negócio quanto o Nordeste” Paulo Dalla Nora, diretor do banco Gerador

As empresas com forte atuação no Sudeste  desembarcaram no Nordeste de olho no poder de consumo emergente da população.

Um estudo da consultoria Gouvêa de Souza concluiu que, para cada R$ 1 que sobra do salário do nordestino no final do mês, R$ 0,78 é gasto na compra de bens de consumo. É mais do que em qualquer outra localidade brasileira. Por essa razão, corporações como AmBev, Ford, Totvs, Basf, Kraft, Whirpool e Perdigão, para citar apenas alguns exemplos, estão intensificando os investimentos em suas operações na região. De seu aporte recorde de R$ 2 bilhões para 2010, a AmBev vai destinar R$ 600 milhões para o Nordeste – o maior montante da história. Diretor-executivo do banco Gerador, com sede no Recife e que atua principalmente no mercado nordestino, Paulo Dalla Nora apresenta dados que comprovam que os nordestinos estão gastando como nunca. “A quantidade de dinheiro em circulação no Nordeste aumenta 20% ao ano, o dobro da média brasileira.” Esse tipo de informação foi suficiente para que Dalla Nora participasse, há pouco mais de um ano, da criação do banco Gerador. Sua ideia é levar crédito farto para uma população ávida por consumir. “Posso garantir, sem medo de errar, que nenhuma região brasileira oferece tantas oportunidades de negócio quanto o Nordeste”, diz o executivo.

 

 

Chacina na fronteira

Numa escalada da violência no México, 7  igrantes ilegais são executados antes de

Claudio Dantas Sequeira e Luiza Villaméa

NARCOPODER

O sobrevivente Luis Pomavilla (acima), corpos de vítimas e San Fernando,

cidade controlada pelo cartel Los Zetas

 

Apenas este ano mais de 200 brasileiros foram deportados do México, onde haviam entrado ilegalmente, tentando alcançar os Estados Unidos. Rumo ao chamado sonho americano, esses brasileiros sabiam que precisavam sobreviver a três grandes obstáculos: o deserto inóspito; a bandidagem dos coiotes, como são conhecidos os traficantes de homens de um lado para outro da fronteira; e a dura vigilância da polícia dos Estados Unidos. Na semana passada, a crueldade dos cartéis do narcotráfico se impôs como o quarto obstáculo mortal da travessia. Numa escalada da violência que estremece o país, 72 estrangeiros foram executados no galpão destelhado de uma fazenda do município mexicano de San Fernando, 160 quilômetros ao sul de Brownsville, no Estado americano do Texas. Na sexta-feira 27, diplomatas do Brasil acompanhavam as investigações, pois informações do Ministério de Relações Exteriores do México indicavam que havia brasileiros entre os imigrantes sequestrados e mortos. O documento de identidade de um brasileiro foi encontrado junto aos corpos.

Nos últimos tempos, o sequestro de imigrantes ilegais já havia se transformado em fonte adicional de renda para os cartéis da droga. A Comissão Nacional de Direitos Humanos (CNDH) do México estima que a cada mês cerca de 1.600 estrangeiros são vítimas de sequestro em sua trajetória em direção aos Estados Unidos. “Agora, eles não só são sequestrados, como também executados”, diz Raúl Plascencia Villanueva, da CNDH. O primeiro sinal do massacre foi emitido na manhã da segunda-feira 23, quando o equatoriano Luis Freddy Lala Pomavilla, 18 anos, chegou ferido à bala num posto de controle da Marinha mexicana. Seu relato de que era o único sobrevivente de um ataque do narcotráfico foi recebido com reservas pelos militares. Horas depois, porém, um grupo de reconhecimento aéreo detectou indícios da violência.

No dia seguinte, após enfrentamento que culminou em quatro mortes, os militares entraram no galpão, onde os corpos de 58 homens e 14 mulheres foram encontrados, com as mãos atadas e os olhos vendados. Pelo relato do sobrevivente, o comboio com os imigrantes ilegais – originários do Brasil, do Equador, de El Salvador e de Honduras – foi abordado pelos traficantes numa estrada. Diante da recusa do grupo em atuar para o cartel, um dos líderes ordenou a chacina. Ainda segundo o sobrevivente, os narcotraficantes se identificaram como integrantes de Los Zetas, o cartel que controla a cidade de San Fernando. Liderados por militares de elite que desertaram no final dos anos 1990, Los Zetas trabalharam no começo para o car­tel do Golfo, mas depois se separaram do antigo aliado, que age na mesma região.

“Os Zetas se converteram num pro­blema de segurança nacional, ao superar a capacidade de resposta do governo”, afirma o analista mexicano Jorge Chabat, do Centro de Investigação e Docência Econômica do México. Do outro lado da fronteira, Howard Campbell, professor de antropologia da Universidade do Texas em El Paso, ressalta que muitos criminosos comuns utilizam o nome do grupo “para assustar suas vítimas”. “Os Zetas tornaram-se uma espécie de mito como Pancho Villa. Sua origem é obscura e ninguém sabe quantos são exatamente”, explica Campbell.

Sejam quem forem os executores, a chacina dos 72 imigrantes reflete a capilarização da violência na região da fronteira. No final de junho, os brasileiros Renato Alcântara Orsine e Ernani Vieira Ramos viveram o drama de perto. Eles deixaram a cidade onde viviam, Ladainha (MG), para entrar nos Estados Unidos por meio da fronteira mexicana. A aventura acabou no sequestro de ambos e num pedido de resgate de US$ 10 mil. A família pagou o resgate, mas Orsine e Ramos continuaram detidos numa casa do subúrbio do Texas. Provavelmente seriam mortos, caso o FBI, a polícia federal americana, não tivesse localizado o cativeiro. Apesar de relatos como esses, Ladainha, as­sim como outras cidades sem recursos do Brasil, continuam “exportando” ilegais para os Estados Unidos. Como o México agora exige visto para brasileiro, a rota da migração ilegal começa na América Central.

 

 

A Semana

Escola americana proíbe a Bandeira do Brasil

 

A cidade americana de Osk Bluff s, em Massachusetts, tem cerca de quatro mil habitantes. O que ela não tem de moradores tem de preconceito. Alunos brasileiros da high school (ensino médio) foram proibidos pela direção da escola em que estudam de exibir no bolso do paletó lenços com bandeirinha brasileira na festa de formatura. O Conselho Municipal entrou na história e anulou a proibição.

 

 

Brasil Confidencial

Todo poder a Félix?
Octávio Costa

 

Pode não vingar o desejo do general Jorge Félix de concentrar mais poder no Gabinete de Segurança Institucional da Presidência com a nova Política Nacional de Inteligência. Ele quer coordenar quatro subsistemas de inteligência: de Estado, sob o comando da Abin; de Defesa, nas Forças Armadas; de Segurança Pública, na Justiça; e econômico-financeiro, no Coaf. Mas o projeto foi mal recebido no Congresso.

 

 

Coluna por Ricardo Amorim

A volta da esperança

Ao contrário do que se pensa nas grandes cidades, os índices de violência estão caindo, graças à demografia e ao desenvolvimento do País

 

Com a atuação da Seleção de Mano Menezes em sua estreia, você pode imaginar que esta coluna se refere às nossas chances de ganhar a Copa de 2014. Não é o caso. O assunto é bem mais sério: a criminalidade vem despencando em alguns locais do País. Não, você não leu errado. Efetivamente, nos últimos dez anos, em algumas cidades e Estados importantes, a violência vem diminuindo, ao contrário de nossa percepção, fortemente influenciada por algumas manchetes bombásticas, como a do caso do goleiro Bruno.

Você deve estar pensando que apenas desistimos de dar queixa de roubos e furtos, pois nossas esperanças de reaver o bem roubado são menores do que a popularidade do Dunga. No entanto, nos últimos anos, nenhum outro indicador de violência mostrou queda mais marcante do que o número de assassinatos. A menos que não estejamos registrando nem os mortos...

Talvez um dos locais onde este fenômeno – não me refiro ao craque gorducho do Corinthians – seja mais marcante é a maior cidade do País, São Paulo. Em junho, a taxa de homicídios por 100 mil habitantes caiu abaixo de nove, 18% menos do que um ano antes. Em relação aos mais de 64 mortos em cada 100 mil paulistanos no ano de 1999, a queda foi de mais de 85%. Há dez anos, um habitante de São Paulo tinha 600% mais chance de ser assassinado do que um de Nova York. Hoje, a probabilidade é menos de 50% superior à americana.
Em todo o Estado de São Paulo, a taxa de assassinatos também ficou abaixo de nove por 100 mil habitantes, 70% inferior aos níveis de 1999, poupando 48.674 vidas desde então. No caso das mulheres, a violência caiu a níveis menores ainda. Em mais da metade dos cerca de 2.400 municípios brasileiros nenhuma mulher foi assassinada nos últimos cinco anos.

Por que a redução dos homicídios? Há razões específicas, como a melhoria do aparelhamento policial, o fechamento de bares e a proibição da venda de bebidas em determinados horários. Há também razões econômicas e demográficas. O bom desempenho e a forte geração de empregos têm reduzido a oferta de “mão de obra” para a criminalidade. Nos últimos dez anos, o número de empregos com carteira assinada no Brasil aumentou em mais de 11 milhões. Mais trabalho, menos crime.

O Norte, o Nordeste, o Centro-Oeste e o interior vêm crescendo mais do que o restante do País por causa dos programas de governo e do desempenho excepcional do agronegócio. Com isso, o fluxo migratório inverteu-se. Os grandes centros urbanos do Sul e do Sudeste começaram a desinchar e a violência a cair, ainda que às vezes sendo exportada para outros lugares.

Finalmente, em virtude da queda da taxa de natalidade, a parcela da população entre 15 e 25 anos – as maiores vítimas e algozes da violência – começou a se reduzir. Esta foi a principal razão da queda dos assassinatos nos Estados Unidos e na Europa nas duas últimas décadas. No Brasil, onde a taxa de natalidade demorou mais a cair, o impacto levou uma década a mais para chegar, mas chegou.

Com a demografia e a economia jogando a favor, é provável que a violência continue em queda. Pode respirar aliviado. A chance de, em 2014, você comemorar o título do time de Neymar e companhia é bem maior do que de ser assassinado.

 




 

 

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