Brasil
A estratégia do PT em São Paulo é a velha e provada AgitProp leninista. Coloque os miseráveis na rua e agite até a polícia bater neles. Fotografe, filme e exiba nas eleições como prova de que o governo é cruel Carolina Rangel
Se ainda havia dúvidas de que a disputa eleitoral deste ano pela prefeitura de São Paulo será uma batalha sangrenta, dois episódios ocorridos na semana passada cuidaram de dissipá-las. O primeiro teve origem na desocupação de um terreno invadido em São José dos Campo a sétima cidade mais populosa do estado. Conhecida como Pinheirinho, a área de 1,3 milhão de metros quadrados pertence à massa falida da Selecta, empresa do megatrambiqueiro Naji Nahas. Em 2004, ergueu-se lá um acampamento que, com o passar dos anos, se transformou em um amontoado de barracos e casas improvisadas. Rapidamente, o lugar passou a atrair, além de famílias pobres, traficantes e usuários de drogas. Tão degradado ficou que, hoje, grande parte dos moradores de São José acha que ele está para a cidade como a Cracolândia está para São Paulo. Pesquisa exibida pelo prefeito Eduardo Cury, do PSDB, revela que 92% dos habitantes de São José dos Campos querem o fim do Pinheirinho. Desde o inicio da invasão, a área está sob o "comando" informal de lideranças do PSTU. O partido tomou para si a "administração" do acampamento, que contava com cerca de 3000 moradores. Há duas semanas, quando a desocupação do terreno pela Polícia Militar já era iminente, esse exército de despossuídos, orientado pelo grupo de um ex-candidato a vereador pelo PSTU conhecido como Marrom, posou para fotógrafos emulando um esquadrão da Tropa de Elite – em sua versão Brancaleone. A imagem, de uma teatralidade patética, serviu para dar uma mostra tanto da irresponsabilidade das lideranças do PSTU quanto da falta de originalidade de seus métodos. Em 2008, em meio à corrida pela prefeitura de São Paulo, policiais civis sindicalizados entraram em greve e tentaram invadir a sede do governo do estado, numa investida organizada com a ajuda do deputado Paulinho da Força, do PDT. O governador era José Serra, do PSDB. Os policiais tiveram de ser contidos pela PM, num confronto que deixou 32 feridos e foi fartamente explorado pela campanha do PT, cuja candidata era a atual senadora Marta Suplicy. Em março de 2010, dias antes de Serra deixar o cargo de governador para disputar a Presidência, o sindicato dos professores do estado, filiado à CUT, organizou um ato com milhares de pessoas na Avenida Paulista para pedir um aumento de 34%. Eles fecharam as duas pistas da via, mas não houve confronto com a polícia. Duas semanas depois, os manifestantes voltaram à carga. Mais de 7000 deles se dirigiram ao Palácio dos Bandeirantes, ameaçando invadir o local. Para barrá-los, a polícia sacou os cassetetes. Nove professores e sete policiais ficaram feridos. As cenas, devidamente documentadas, tiveram o mesmo destino das anteriores: viraram artilharia eleitoral. O episódio do Pinheirinho obedeceu ao mesmo script. No dia seguinte à desocupação, o secretário-geral da Presidência da República, ministro Gilberto Carvalho, apressou-se em acusar o governo estadual de ter transformado o lugar em uma "praça de guerra". A Agência Brasil, controlada pelo governo federal, chegou a noticiar que a operação policial havia deixado mortos, "inclusive crianças", e que a PM perseguira os invasores até dentro de uma igreja, onde teria jogado bombas. Mais tarde, atribuiu as falsas informações a um advogado. Na quarta-feira, um certo "Comitê de Solidariedade ao Pinheirinho", formado por integrantes do PSTU e do PSOL e por sindicalistas petistas filiados à CUT, fez sua estreia pública num espetaculoso ataque ao prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Na saída de uma missa na Catedral da Sé, o prefeito foi cercado por um grupo que, portando adesivos nos quais se lia "Somos todos Pinheirinho", gritava "assassino!" – o fato de Kassab ser prefeito de São Paulo, e não de São José, não teve, obviamente, nenhuma importância para o grupo. Kassab precisou ser escoltado por seguranças em direção ao seu carro, que foi chutado e esmurrado pelos manifestantes. A PM interveio – e um novo estoque de cenas da "polícia fascista" de São Paulo se materializou. Com esses dois episódios, o PT e seus partidos satélites seguem a velha cartilha leninista da agitação e propaganda e repetem uma velha cilada eleitoral. O PSDB, como sempre, cai nela feito um patinho. A importância que o PT dá às eleições para prefeito de São Paulo pôde ser atestada na cerimônia em que Fernando Haddad, o candidato do partido ao posto, se despediu do Ministério da Educação. Numa inequívoca demonstração do empenho que pretende dedicar à causa, o ex-presidente Lula fez lá sua primeira aparição pública em evento político desde que começou a tratar um câncer na laringe, em outubro. Para o PT, a vitória nas eleições municipais de São Paulo significa um passo decisivo para chegar ao governo do estado, até agora um terreno inexpugnável para o partido. O PT ocupou a prefeitura de São Paulo por duas vezes: em 1989, com Luiza Erundina, e em 2001, com Mana Suplicy – já o governo do estado se mantém desde 1995 sob o comando do PSDB. Além de seu peso óbvio, o governo paulista tem uma importância política estratégica. Todo governador goza de grande influência na eleição de prefeitos. Em São Paulo, o PSDB domina 205 das 645 prefeituras do estado, quase 32% do total. Com isso, criou uma área de influência fortíssima sobre o maior colégio eleitoral do país. É graças a ela que os tucanos costumam ser os mais votados no estado em toda eleição presidencial. Em outubro de 2010, por exemplo, José Serra teve 41% dos votos no estado, contra 37% de Dilma Rousseff. Esse capital político foi crucial para que o PSDB conseguisse levar o seu candidato para o segundo turno. O PT é o partido mais votado nas regiões Norte e Nordeste e acredita que, se tomar São Paulo, alcançará esse posto também no Sudeste. Nesse quadro, seria praticamente impossível que uma candidatura de oposição ameaçasse a permanência petista no Planalto. O PT já pôs as suas tropas em campo. E mostrou que, por São Paulo, está pronto para ir à guerra.
| |